Governo busca reverter tarifa extra dos EUA até dezembro, diz Márcio Elias Rosa

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    O ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa, afirmou que o Palácio do Planalto tentará reduzir os danos do novo pacote tarifário imposto por Washington antes do fim de dezembro. Classificada pelo ministro como “ilegal, indevida e abusiva”, a sobretaxa atinge produtos brasileiros com acréscimo de 25% – porcentual anunciado pelos Estados Unidos no mês passado – e pressiona segmentos exportadores em um momento de desaceleração do comércio global.

    Depois de participar do Fórum Saúde EMS Esfera, em Brasília, o ministro explicou que a equipe econômica trabalha em duas frentes: negociação direta com a Casa Branca para amenizar a cobrança extraordinária e preparação de um processo de reciprocidade, mecanismo que permite ao Brasil retaliar comercialmente. A expectativa, porém, é concluir apenas a etapa de diálogo até dezembro; eventual resposta tarifária deve ficar para 2027.

    Como o tarifaço foi construído

    No meio de julho, o governo norte-americano incluiu o Brasil em uma lista de nações sujeitas a uma tarifa adicional de 25%. A justificativa oficial citou supostas práticas que “oneram ou restringem” o comércio bilateral, entre elas o sistema de pagamentos instantâneos Pix, regras de acesso ao mercado de etanol, falhas no combate ao desmatamento ilegal e à pirataria. Dias depois, Washington ampliou a ofensiva: outras 60 economias, novamente com o Brasil incluso, passaram a enfrentar sobretaxas que variam de 10% a 12,5%, relacionadas a investigações sobre mercadorias produzidas com trabalho forçado.

    Embora listas de isenção tenham sido publicadas, o peso recai sobre cadeias já pressionadas pela alta dos custos logísticos e pela desaceleração da demanda externa. Setores que abastecem diretamente o mercado norte-americano estudam alternativas de curto prazo, como redirecionar embarques a outros destinos, para evitar perda brusca de receita.

    Estratégia brasileira de curto e médio prazos

    Para Márcio Elias Rosa, a primeira prioridade é “aplacar minimamente” a medida, evitando que as exportações brasileiras percam competitividade de forma definitiva. Segundo ele, a proposta do Planalto é intensificar interlocução com agências do governo norte-americano e com o setor privado dos dois países, argumentando que a sobretaxa viola princípios básicos da Organização Mundial do Comércio (OMC) e compromete cadeias produtivas integradas.

    Enquanto isso, o Ministério do Desenvolvimento desenha o chamado processo de reciprocidade. “Concedemos prazo de 60 dias para que cada pasta reúna informações detalhadas sobre os impactos e sobre possíveis contramedidas”, explicou o ministro. Ao fim desse período, a equipe técnica produzirá um relatório listando setores vulneráveis, estimativa de prejuízos e modalidades de represália que obedecem às regras internacionais.

    Relatório em fase de elaboração

    • Coleta de dados setoriais: volume exportado, destino e participação nas vendas totais.
    • Análise jurídica da sobretaxa aplicada pelos EUA e precedentes na OMC.
    • Mapeamento de produtos norte-americanos que poderiam ser alvo de medidas equivalentes.
    • Escuta a empresas e associações industriais para quantificar impactos sobre emprego e faturamento.
    • Definição de cenários graduais de retaliação, caso as negociações fracassem.

    A conclusão do documento, prevista para o fim de outubro, servirá de base técnica tanto para a rodada de diálogo com Washington quanto para eventual notificação oficial à OMC.

    Negociação direta versus painel na OMC

    O governo brasileiro prefere, inicialmente, a solução negociada. A leitura de Márcio Elias Rosa é que pressionar publicamente os EUA logo de saída reduziria as chances de um acordo rápido. Se o entendimento não avançar, a equipe deverá acionar o Mecanismo de Solução de Controvérsias da OMC — etapa mais longa, que costuma levar anos até a deliberação final.

    Mesmo com o prazo apertado, o ministro mantém otimismo para cortar parte do tarifário antes de dezembro. “Não teremos tempo hábil para concluir a reciprocidade, mas acredito em resolver ou pelo menos amenizar a situação até o fim do ano”, disse. Ele defende que Brasil e Estados Unidos, maiores economias do hemisfério, preservem canais de diálogo permanente para evitar escaladas protecionistas.

    Setores mais suscetíveis

    Ainda que a lista de exceções publicada pelos EUA alivie produtos agrícolas emblemáticos, a sobretaxa afeta itens industrializados de maior valor agregado. Empreendimentos de médio porte, especialmente da região Sul e Sudeste, relatam receio de cancelamento de pedidos que estavam em fase final de negociação. A Confederação Nacional da Indústria (CNI) e federações estaduais acompanham o caso em conjunto com o MDIC.

    Consequências imediatas mencionadas por empresas

    1. Revisão de contratos com parceiros norte-americanos para dividir custos adicionais.
    2. Busca de mercados alternativos, sobretudo na América Latina e na Ásia.
    3. Suspensão temporária de investimentos programados para ampliação de capacidade.
    4. Possível redução de turnos de trabalho caso a demanda externa recue.

    Dirigentes empresariais argumentam que a medida dos EUA pode acabar guiando outros compradores a renegociar preços, mesmo sem estarem sujeitos às novas alíquotas, usando a tarifação como parâmetro comercial.

    Calendário político e expectativas

    O calendário interno norte-americano, dominado pela disputa eleitoral, é visto em Brasília como fator de incerteza. A ofensiva tarifária foi anunciada pela gestão Trump como demonstração de endurecimento contra práticas consideradas desleais, discurso que ecoa entre setores industriais dos EUA. Por isso, analistas acreditam que qualquer recuo só ocorrerá se o governo norte-americano considerar que a retirada da sobretaxa não provocará desgaste político.

    No Brasil, o assunto deve ganhar espaço na agenda do Congresso, principalmente nas comissões de Relações Exteriores e de Comércio. Parlamentares da bancada exportadora pedem celeridade ao Executivo para evitar reflexos sobre o PIB agrícola e industrial.

    Próximos movimentos

    Além do relatório técnico, o Ministério do Desenvolvimento pretende organizar missões empresariais aos EUA para reforçar o lobby em favor da derrubada da medida. A iniciativa dependerá do andamento das discussões diplomáticas: caso se perceba disposição norte-americana de rever pontos do tarifaço, o Brasil pode acelerar visitas de alto nível. Por outro lado, se a postura permanecer inalterada, a corrente majoritária no governo defende acionar, ainda neste ano, os mecanismos de solução de controvérsias da OMC.

    Enquanto o impasse não se resolve, Márcio Elias Rosa enfatiza que o país continuará negociando. “Precisamos resguardar nossa indústria e, ao mesmo tempo, manter canais abertos. Retaliação é sempre o último recurso”, pontuou. Nos bastidores, diplomatas e técnicos do Itamaraty reforçam que qualquer escalada deverá respeitar as normas multilaterais para evitar sanções ou perda de credibilidade.

    Com pouco mais de quatro meses até dezembro, o governo corre contra o relógio para transformar a retórica em resultados concretos. Caso consiga reduzir a sobretaxa dentro do prazo, o Executivo espera sinalizar ao mercado que a diplomacia econômica brasileira recuperou protagonismo. Caso contrário, o país entrará em 2027 pronto para adotar contramedidas — cenário que, mesmo indesejado, o MDIC diz estar preparado para enfrentar.

    Rafael Oliveira é criador de conteúdo digital e editor com foco em entretenimento, reality shows e notícias do mundo dos famosos. Seu trabalho é voltado para levar informações rápidas, atualizadas e relevantes sobre os principais acontecimentos da TV e das redes sociais.