O empresário Pablo Marçal (PRTB) entregou nova declaração de bens ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) na qual informa possuir R$ 149,9 milhões — valor 49 vezes menor que os R$ 7,4 bilhões registrados três dias antes. A correção ocorre às vésperas do julgamento que pode barrar sua candidatura presidencial, já que ele permanece inelegível até 2032.
Marçal atribuiu a cifra bilionária a um “erro de digitação” cometido, segundo ele, por alguém do partido ou pelo próprio sistema do TSE. A troca de zeros, porém, expôs discrepâncias que levantaram dúvidas sobre a apuração patrimonial do candidato que, em 2024, declarara R$ 169,5 milhões quando disputou a Prefeitura de São Paulo.
Balanço dos números corrigidos
Principais variações
- Aplicações de renda fixa: caíram de R$ 6,796 bilhões para R$ 6,791 milhões.
- Terreno em Santana de Parnaíba (SP): passou de R$ 490 milhões para R$ 4,9 milhões.
- Participações societárias: subiram de R$ 11,6 milhões para R$ 112,3 milhões.
- Depósitos em conta corrente: permaneceram praticamente inalterados, em torno de R$ 256 mil.
- Total geral: reduzido de R$ 7,418 bilhões para R$ 149,986 milhões.
A mudança mais expressiva envolve as aplicações financeiras: a vírgula decimal saiu do lugar e multiplicou por mil o montante real. No caso do terreno na Grande São Paulo, a diferença alcançou R$ 485 milhões, valor equivalente ao orçamento anual de cidades de médio porte.
Queda em relação a 2024
Apesar da correção, o novo documento mostra que o patrimônio de Marçal encolheu aproximadamente R$ 19,6 milhões em dois anos. O candidato justificou a retração dizendo que concentrou investimentos em negócios cujo valor de mercado ainda não estaria totalmente refletido na declaração de imposto de renda.
Do bilhão ao milhão: onde estavam os erros
Em entrevista ao canal Brasil Paralelo, Marçal afirmou que a falha surgiu no momento de preencher o Demonstrativo de Regularidade de Atos Partidários (DRAP), formulário que a sigla protocola antes do registro individual de cada candidato. Ele sugeriu que o TSE passe a importar automaticamente os dados do Imposto de Renda para evitar “gafes” semelhantes.
“É óbvio que foi um erro de digitação. Minha declaração é extensa; se puxar direto da Receita não dá confusão”, declarou. O empresário ainda ironizou a polêmica: “Profeticamente, creio que um dia chegarei a esse número, mas hoje é bem menor”.
A retificação foi homologada no sistema DivulgaCand-Contas e substituiu a primeira versão, mas a alteração não impede que a Justiça Eleitoral analise indícios de inconsistência ou omissão patrimonial, procedimento de rotina em todas as candidaturas.
Situação jurídica de Marçal
Inelegibilidade até 2032
Pablo Marçal segue enquadrado na Lei da Ficha Limpa por decisão do Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo (TRE-SP), que o tornou inelegível até 2032. A causa envolve abuso de poder econômico e uso indevido dos meios de comunicação na pré-campanha municipal de 2024. Ele recorreu ao TSE, que deve julgar o pedido de registro de candidatura nos próximos dias.
Caso o plenário confirme a inelegibilidade, o nome de Marçal e seus votos serão anulados. Se houver reversão, ele seguirá na disputa com tempo exíguo para campanha, pois o calendário oficial prevê início da propaganda eleitoral em rede nacional nas próximas semanas.

Imagem: que inelegíveis como Pablo Marçal cs
Estratégia de defesa
A equipe jurídica argumenta que não houve ilícito eleitoral e que as transmissões ao vivo usadas para promover a pré-candidatura não configuram uso irregular de mídia, por se tratarem de redes sociais próprias. Advogados citam precedentes do próprio TSE que flexibilizam a interpretação quando não há comprovação de disparidade financeira entre concorrentes.
Movimentação interna do PRTB
Chapa “puro sangue” e patrimônio do vice
O PRTB, que inicialmente lançara Leonardo Avalanche como cabeça de chapa, inverteu a ordem poucos dias antes da convenção final. Avalanche, agora candidato a vice, declarou possuir R$ 495 milhões, quase o triplo do valor atualizado de Marçal. A sigla tenta se beneficiar da visibilidade do influenciador digital, que soma dezenas de milhões de seguidores nas redes.
A troca de posições exigiu reformulação do plano de governo e ajustes contábeis internos, porque a legislação limita gastos de campanha conforme a posição na chapa. Dirigentes também avaliam exibir a musculatura financeira dos dois empresários como sinal de “independência” do fundo partidário, argumento reiterado em eventos regionais.
Impacto eleitoral
A exposição do patrimônio milionário, porém, gera resistência em parcelas do eleitorado historicamente sensíveis a temas de desigualdade social. Analistas políticos ouvidos reservadamente avaliam que o episódio do “patrimônio bilionário” pode cristalizar a imagem de falta de rigor administrativo, minando a narrativa de gestor bem-sucedido que o candidato busca emplacar.
Próximos passos
Até a conclusão do julgamento no TSE, Marçal continua em campanha, mas sob risco de ter material publicitário retirado do ar caso o tribunal negue o registro. O Ministério Público Eleitoral acompanha o processo e pode solicitar investigações complementares sobre a origem dos recursos declarados, procedimento padrão em candidaturas de alto patrimônio.
Nos bastidores, aliados do empresário admitem plano B: lançar Avalanche como titular da chapa caso o ex-coach seja barrado. O estatuto do PRTB permite substituição até 20 dias antes da eleição, mas a troca implicaria nova coleta de assinaturas e registro, operação que consome tempo e recursos.
Enquanto isso, a campanha tenta virar a página do erro numérico, reforçando a mensagem de que “quem nunca digitou um zero a mais atire a primeira pedra”. Resta saber se o eleitor e, sobretudo, o TSE concordarão que a falha foi apenas uma questão de teclado.
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