Ouvir o toque da campainha e descobrir que do outro lado está um pesquisador eleitoral não é apenas improvável — é estatisticamente comparável a ser premiado na loteria. A afirmação, feita pelo diretor da Quaest e professor da Fundação Getulio Vargas (FGV), Felipe Nunes, ajuda a dimensionar o grau de aleatoriedade envolvido na seleção de entrevistados para os levantamentos que orientam a corrida às urnas de 2026.
A aparente “invisibilidade” de grande parte do eleitorado, no entanto, não compromete a leitura do cenário. Graças a um planejamento rigoroso, os institutos conseguem reproduzir em pequena escala as características demográficas dos mais de 150 milhões de brasileiros aptos a votar. A seguir, veja como funciona esse processo e por que ele difere radicalmente de enquetes informais.
Do IBGE ao mapa de campo: as etapas da amostragem
A construção da amostra parte de bases oficiais — essencialmente os Censos e estimativas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e o cadastro do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). A partir daí, é traçado um retrato do eleitor médio segundo região, sexo, faixa etária, escolaridade e renda. O objetivo é que, ao final do trabalho de campo, os percentuais obtidos para cada variável sejam o espelho fiel do país.
Na Quaest, que realiza pesquisas presenciais e domiciliares, o roteiro segue uma ordem fixa:
- Definição do tamanho da amostra: o número de entrevistas varia conforme a abrangência do estudo (municipal, estadual ou nacional) e o grau de confiança estatística desejado.
- Sorteio de municípios: cada cidade tem probabilidade de entrar no levantamento proporcional à quantidade de eleitores que abriga.
- Sorteio dos setores censitários: dentro dos municípios escolhidos, os pesquisadores delimitam quarteirões ou conjuntos de ruas previamente mapeados pelo IBGE.
- Busca ativa de perfis: chegando ao endereço, a equipe procura moradores que preencham os filtros demográficos determinados no planejamento.
Quando o entrevistado recusa participação ou não corresponde ao perfil reservado para aquele ponto, o pesquisador segue para a próxima residência até completar o “quadro” previsto. Dessa forma, um jovem de 18 a 24 anos, morador do interior nordestino, com ensino médio completo, terá a mesma chance de ser ouvido que outro de características semelhantes em qualquer parte do país.
Margem de erro e nível de confiança
A métrica mais conhecida de uma pesquisa é a margem de erro. Se um instituto afirma que o resultado tem margem de 2 pontos percentuais para mais ou para menos, quer dizer que, caso todas as pessoas do universo pesquisado respondessem à mesma pergunta, o número real poderia oscilar dentro desse intervalo. Esse cálculo leva em conta o tamanho da amostra: quanto maior o número de entrevistas, menor a incerteza.
Já o nível de confiança — normalmente fixado em 95% — indica quantas vezes, em 100 levantamentos feitos exatamente com o mesmo método, o resultado cairia dentro da margem declarada. É outra forma de demonstrar a robustez do planejamento estatístico.
Por que “nunca ser entrevistado” não afeta o retrato do eleitorado
O comentário “ninguém que conheço participou de pesquisa” costuma emergir nas redes sociais toda vez que um instituto divulga novos números. Felipe Nunes sustenta que essa percepção decorre da frequência reduzida de entrevistas em relação ao total de eleitores. Em levantamentos nacionais, o número de questionários dificilmente ultrapassa 3 mil; já uma pesquisa estadual gira em torno de 1 000 a 1 500 entrevistas. Trata-se de uma gota em um oceano de votantes.
Apesar disso, o desenho amostral compensa a baixa incidência de convites com a distribuição proporcional de perfis. O resultado é um “país em miniatura”, cujo comportamento é estatisticamente igual ao do universo completo. Se determinado grupo — mulheres com ensino superior, por exemplo — corresponde a 17% do eleitorado, esse mesmo percentual será reproduzido na amostra.
Diferenciando pesquisa científica de enquete informal
Questões publicadas em portais ou circulando em aplicativos de mensagens muitas vezes recebem milhares de respostas e, à primeira vista, parecem mais representativas que uma pesquisa científica. O ponto central, porém, não está na quantidade bruta de participantes, mas na forma como eles são selecionados. Como explica Nunes, enquetes dependem da adesão espontânea — só responde quem se sente motivado — e, portanto, concentram pessoas com posicionamentos mais fortes, distorcendo o retrato geral. Sem sorteio dos entrevistados, não há garantia de representação estatística.
130 rodadas de Quaest e Datafolha até outubro
Para o primeiro turno, marcado para 4 de outubro de 2026, a Globo, o g1, a GloboNews e emissoras afiliadas planejam divulgar 130 pesquisas realizadas pelos institutos Quaest e Datafolha. Os levantamentos cobrirão a disputa presidencial, governos dos 26 estados e do Distrito Federal, além das cadeiras em aberto no Senado.

Imagem: Internet
O cronograma prevê a publicação dos resultados em diferentes fases da campanha, permitindo ao público acompanhar a evolução dos índices de intenção de voto, rejeição e avaliação de governo. A estratégia de rodadas sucessivas favorece análises de tendência — por exemplo, identificar se determinada candidatura ganha tração após um debate ou se sofre retração diante de uma crise.
Série diária de vídeos didáticos
Complementando o material estatístico, o g1 estreou uma série de 50 vídeos verticais que mergulham nos principais temas do processo eleitoral. Além de destrinchar o funcionamento das pesquisas, os episódios abordam as regras para uso de redes sociais e inteligência artificial nas campanhas, as atribuições de cada cargo em disputa e orientações práticas para o dia da votação. Um novo conteúdo vai ao ar diariamente até a véspera do primeiro turno.
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O que esperar do trabalho de campo nos próximos meses
Com a proximidade da campanha, a rotina das equipes em campo tende a se intensificar. Pesquisadores percorrem longas distâncias para cumprir o roteiro de municípios sorteados, frequentemente enfrentando dificuldades de acesso, logística e — não raro — resistência inicial dos entrevistados. Cada questionário completo passa por um processo de auditoria, que inclui checagem telefônica de uma amostra das entrevistas para confirmar a veracidade das informações coletadas.
Em paralelo, estatísticos monitoram possíveis desvios de amostra causados por recusas ou ausência de determinados perfis. Quando isso ocorre, são aplicados pós-estratificadores — ponderações que reequilibram o peso de grupos sub-representados — para que o resultado final reflita novamente a composição real do eleitorado.
Pesquisas presenciais x entrevistas por telefone ou internet
A opção por pesquisas domiciliares, como faz a Quaest, é apenas um dos modelos disponíveis. O Datafolha, por exemplo, também mantém abordagem presencial, porém em pontos de fluxo como calçadas e terminais de transporte. Outros institutos recorrem ao telefone ou à internet. Cada metodologia tem pontos fortes e fracos:
- Presencial domiciliar: maior controle sobre quem responde, mas custo e tempo mais altos.
- Presencial em fluxo: execução rápida e barata; menor detalhamento de renda e escolaridade.
- Telefone: atinge áreas extensas sem deslocamento, porém exclui quem não mantém linha ativa.
- Online: baixo custo e rapidez, mas depende de acesso à internet e sofre maior risco de auto-seleção.
Independentemente da técnica, a credibilidade do resultado repousa na transparência dos critérios de amostragem, nas ponderações e na divulgação das informações exigidas pela legislação eleitoral — como margem de erro, nível de confiança, período de coleta e número de registro na Justiça Eleitoral.
Por dentro dos bastidores estatísticos
No fim do processo, os dados são processados por softwares que aplicam pesos, calculam estimativas pontuais e geram intervalos de confiança. Antes de chegar ao público, qualquer número passa por sucessivas revisões para assegurar que não haja inconsistências ou erros de digitação.
Tais cuidados explicam por que pesquisas feitas com 2 mil entrevistas costumam antecipar, com surpreendente precisão, resultados que se confirmam nas urnas, onde o universo de votos ultrapassa a casa das dezenas de milhões. Para Felipe Nunes, esse fenômeno não é mágica, mas consequência direta de um método consolidado há décadas. E, embora ainda seja mais fácil ganhar na loteria do que abrir a porta para um pesquisador, a estatística garante: a opinião de quem fica de fora da amostra continua representada nos gráficos que pautam a eleição.
