Com apenas duas candidatas à Presidência, eleição de 2026 recua na representatividade feminina

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    O cenário presidencial de 2026 chega às ruas com menos mulheres no topo das chapas do que há quatro anos. Apenas duas candidatas lideram campanhas ao Palácio do Planalto — metade do registrado em 2022 — num universo de 13 coligações já protocoladas no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). A redução também afeta a proporção total de mulheres nas chapas: elas ocupam 27% dos 26 postos de presidente e vice em disputa, percentual inferior aos 36% alcançados na eleição passada.

    Mesmo mantendo sete nomes femininos nas cédulas — duas cabeças de chapa e cinco vices —, 2026 marca uma participação relativa menor em razão do aumento no número de coligações. O recuo contrasta com a curva ascendente observada desde 2014 e reforça a avaliação de especialistas de que o avanço de mulheres na política brasileira continua sujeito a barreiras estruturais dentro e fora dos partidos.

    Queda numérica e proporcional

    Em 2022, quatro presidenciáveis mulheres disputaram o cargo máximo do Executivo federal. Neste ano, a cifra caiu para duas: Clariana Barão (Democracia Cristã) e Samara Martins (Unidade Popular). O total de postulantes femininas manteve‐se em sete, mas a ampliação de 11 para 13 chapas diminuiu o peso delas no conjunto da disputa.

    Na distribuição atual, os 26 postos são preenchidos por 19 homens e 7 mulheres. Enquanto os presidentes homens somam 11 candidatos, as presidenciáveis respondem por apenas dois nomes — cenário que reproduz a realidade de 2018. Entre as vices, cinco mulheres aparecem para ocupar o segundo assento de diferentes coligações, repetindo a mesma quantidade registrada em 2018 e superando a de 2022, quando eram quatro.

    Mulheres presentes em 38% das chapas

    Dos 13 tickets presidenciais protocolados até o fim do prazo legal, cinco contam com ao menos uma mulher. Isso significa presença feminina em 38% das coligações, bem abaixo dos 55% observados em 2022 e dos 54% alcançados em 2018. Na prática, as mulheres deixaram de figurar em duas de cada três campanhas para estarem em pouco mais de um terço delas.

    • Democracia Cristã – Clariana Barão (presidente) e Fabiana Torquato (vice)
    • Unidade Popular – Samara Martins (presidente) e Raquel Brício (vice)
    • Partido Comunista Brasileiro – Cleusa Santos (vice de Edmilson Costa)
    • PSTU – Vanessa Portugal (vice de Hertz Dias)
    • Democrata – Suêd Haidar (vice de Wilson Grassi)

    A presença feminina concentra‐se, portanto, em apenas cinco legendas. Entre as oito agremiações restantes, nenhuma indicou mulher para presidente ou vice.

    Duplas femininas igualam recorde, mas seguem exceção

    Apesar do recuo geral, 2026 repete a marca histórica de duas chapas formadas exclusivamente por mulheres — a mesma registrada em 2022. A dobradinha Clariana-Fabiana, pelo DC, e Samara-Raquel, pela UP, compõem apenas o quinto e o sexto exemplos de tickets 100% femininos desde a redemocratização. Considerando as 111 chapas lançadas entre 1989 e 2026, apenas 4,5% tiveram duas mulheres.

    O padrão majoritário permanece o de chapas lideradas por homens que utilizam uma mulher como vice, estratégia considerada por analistas uma maneira simples de ampliar apelo eleitoral sem comprometer o comando da campanha. Entre 1989 e 2026, foram contabilizadas 17 candidaturas femininas à Presidência contra 26 à Vice-Presidência: quase duas mulheres na segunda posição para cada uma no primeiro posto.

    Entraves dentro dos partidos

    A cientista política Hannah Maruci Aflalo, pós-doutoranda no Cebrap, lembra que olhar apenas para o número de mulheres “rasteia só parte do problema”. Segundo ela, é preciso verificar se as candidatas contam com estrutura partidária, recursos financeiros e tempo de exposição compatíveis com uma campanha competitiva. “Quando o partido mantém controle sobre o caixa, sobre a propaganda e sobre as alianças, a candidata vira figurante”, resume.

    A professora Luciana Santana, da Universidade Federal de Alagoas, ressalta que o recrutamento político continua fortemente orientado por redes informais, muitas vezes fechadas a mulheres por conta de jornadas de cuidado, preconceitos de gênero e ausência em cargos internos. “Não basta disposição individual. A porta de entrada ainda depende da vontade dos dirigentes, e eles continuam majoritariamente homens”, diz.

    Violência política e falta de mentoria

    Relatos coletados por projetos de formação, como a Tenda das Candidatas, expõem casos de recursos prometidos mas não entregues, microfones cortados em eventos e boicotes a agendas públicas. Para Hannah, a violência política dentro da própria sigla aparece, hoje, como a barreira mais recorrente. Esses episódios afastam novas interessadas e dificultam a permanência de quadros já filiados.

    Legislação: cota vale para proporcionais, não para majoritárias

    No Brasil, partidos são obrigados a preencher ao menos 30% das candidaturas de um dos gêneros para cargos proporcionais — vereadores, deputados estaduais e federais. A regra, porém, não alcança eleições majoritárias, como presidente, governador ou prefeito. A jurista Luciana de Oliveira Ramos, da FGV Direito SP, explica que estender cotas aos cargos de chefia do Executivo esbarra na autonomia partidária e na soberania do voto, princípios constitucionais protegidos.

    Na avaliação de Ramos, uma saída tecnicamente mais viável seria discutir cotas para o Senado, onde cada estado elege dois representantes por pleito. “Em chapas para presidente e governador, a exigência de gênero esbarraria na liberdade de escolha conferida ao eleitor”, pontua.

    Recursos públicos ainda geram disputa

    Embora não exista reserva de vagas, a legislação determina que 30% do Fundo Eleitoral e do tempo de propaganda vão para campanhas de mulheres, independentemente do cargo buscado. Isso abriu espaço para que coligações majoritárias lideradas por homens destinem parte do dinheiro da cota à candidatura da vice feminina, gerando questionamentos sobre eventual desvio da finalidade.

    A prestação de contas permite rastrear se os recursos ficaram concentrados na promoção da figura masculina. Em caso de indício de irregularidade, o Ministério Público Eleitoral pode propor Ação de Investigação Judicial Eleitoral (AIJE) ainda durante a campanha ou Ação de Impugnação de Mandato Eletivo (AIME) após a diplomação. As sanções possíveis incluem devolução de valores e cassação de diploma.

    Candidaturas ainda sujeitas a julgamento

    Os dados divulgados pelo TSE são preliminares. Todos os pedidos de registro passam por análise até o dia 12 de setembro. Entre eles está a chapa de Pablo Marçal (PRTB), que figura como inelegível mas se inscreveu no último dia do prazo. Se o tribunal mantiver a inelegibilidade, a composição de gênero poderá sofrer novas alterações.

    Avanço é lento e irregular

    Desde 1989, a curva de participação feminina em eleições presidenciais mostra crescimento, mas sem tendência linear. Até 2010, o país alternava entre uma e três mulheres por pleito — exceção feita à reeleição de Dilma Rousseff, em 2014, quando seis candidatas, contando titulares e vices, quebraram o teto anterior. O recorde numérico deu novo salto em 2018, com sete mulheres, marca repetida em 2022 e agora, mas o recuo na proporção aponta que o processo está longe de consolidado.

    A socióloga Clara Araújo, da Uerj, destaca que o ingresso de mulheres na “cabeça” da chapa não garantiu aumento da viabilidade eleitoral. “A competitividade depende de trajetória, ocupação de cargos executivos ou legislativos e capital partidário, atributos que ainda são raros entre mulheres”, analisa. Segundo ela, sem mais prefeitas, governadoras, deputadas e dirigentes de partidos, poucas chegarão em posição de igualdade ao Planalto.

    Perspectivas para o futuro próximo

    Integrantes de movimentos pela paridade defendem a aprovação de mecanismos que obriguem as direções partidárias a registrar mais mulheres em disputas majoritárias e a repassar recursos de forma proporcional. Já os dirigentes contrários à ideia alegam restrição às escolhas do eleitor e temem judicializações em série.

    Enquanto o debate avança, 2026 confirma que a presença feminina na corrida presidencial brasileira ainda oscila a cada eleição. O ano marca, ao mesmo tempo, o simbolismo de duas chapas totalmente femininas e o alerta de que a representação no topo da política nacional perdeu fôlego em relação ao ciclo anterior.

    Rafael Oliveira é criador de conteúdo digital e editor com foco em entretenimento, reality shows e notícias do mundo dos famosos. Seu trabalho é voltado para levar informações rápidas, atualizadas e relevantes sobre os principais acontecimentos da TV e das redes sociais.