Discord desativa transmissões de vídeo no Brasil para cumprir ordem da ANPD

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    A rotina de quem usa o Discord para transmitir partidas de jogos ou compartilhar a tela do computador foi interrompida nesta segunda-feira (17). A empresa retirou do ar, em todo o território nacional, as funcionalidades de vídeo em tempo real — medida tomada para obedecer a uma determinação preventiva da Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD), que cita falhas na proteção de crianças e adolescentes e se apoia no recém-criado ECA Digital.

    A suspensão aconteceu dentro do prazo de três dias úteis fixado pela agência, que abriu processo de fiscalização em 7 de agosto depois de um caso em que uma adolescente de 13 anos tirou a própria vida enquanto era assistida em grupos privados da plataforma. A ANPD manteve a restrição até que a empresa comprove, de forma “efetiva e verificável”, novas salvaguardas para usuários menores de idade.

    O que motivou a intervenção da ANPD

    No despacho divulgado na quarta-feira (12), a ANPD afirma ter identificado “uso recorrente” do Discord para assédio, indução à automutilação e outras práticas lesivas contra menores. O documento lista, entre as falhas, a ausência de verificação confiável de idade e atraso na remoção de conteúdos de risco. Segundo o próprio Discord, no episódio da adolescente, o alerta sobre perigo iminente chegou às 3h50 e o servidor só foi encerrado 25 minutos depois.

    Caso envolvendo adolescente reacende debate

    A tragédia ganhou projeção nacional depois de a primeira-dama, Janja Lula da Silva, defender publicamente a retirada imediata da plataforma do ar. O pronunciamento acendeu discussões sobre responsabilidades das big techs e pressionou autoridades a agir. Na sequência, a ANPD optou pela suspensão parcial do serviço em vez de um bloqueio total — modelo parecido com o adotado no ano passado contra outra rede social.

    Como fica o uso do Discord no país

    As restrições impostas não afetam texto e áudio. Seguem liberados:

    • mensagens diretas e em grupo;
    • canais de voz apenas com áudio;
    • servidores públicos e privados de todos os tamanhos;
    • demais recursos que não incluam vídeo ou compartilhamento de tela.

    Na prática, comunidades de e-sports, desenvolvedores e pequenas empresas que utilizam o Discord para reuniões virtuais terão de recorrer a alternativas até que o impasse seja resolvido. Ao tentar iniciar uma live, o usuário brasileiro vê o aviso “Função indisponível no momento”.

    Recursos afetados e prazo de suspensão

    A proibição permanecerá enquanto a empresa não comprovar mecanismos de prevenção a abusos. Entre as exigências constam verificações de idade, moderação pró-ativa com inteligência artificial e canais de denúncia que respondam com rapidez a riscos graves. O Discord chegou a pedir reconsideração, alegando dificuldade técnica para cumprir o prazo original, mas a solicitação foi negada.

    Pressão sobre plataformas e o ECA Digital

    Em vigor desde março, o ECA Digital estende ao ambiente online a mesma lógica de proteção assegurada pelo Estatuto da Criança e do Adolescente. O texto responsabiliza serviços digitais sempre que exista “acesso provável” de menores, mesmo que não sejam destinados exclusivamente a esse público. Nele, as plataformas devem:

    1. bloquear conteúdo violento, sexual ou de incentivo a drogas, automutilação e suicídio;
    2. adotar verificação etária “robusta e confiável”;
    3. garantir ferramentas de controle parental e combate ao uso compulsivo;
    4. proibir a segmentação publicitária baseada em perfis de menores;
    5. publicar relatórios periódicos com dados de transparência.

    O descumprimento pode resultar em advertências, multas ou restrições de funcionalidades, como ocorreu agora. Para a pesquisadora Marie Santini, do NetLab/UFRJ, a decisão “atinge o coração do modelo de negócios” das empresas e cria precedente para outras redes. Já Maria Mello, do Instituto Alana, vê no episódio um “marco” que pode estimular maior adesão a práticas de segurança infantil.

    Próximos passos e diálogo com autoridades

    Representantes globais do Discord foram recebidos na sede da ANPD poucas horas depois da suspensão. Em nota, a companhia classificou a situação como “séria”, reafirmou o compromisso com a segurança e disse manter equipes especializadas para remover contas e conteúdos indevidos. “Seguimos engajados com as autoridades brasileiras para restabelecer os recursos o mais rápido possível”, informou.

    Além de discutir requisitos técnicos, a reunião tratou do ofício enviado pela empresa em 10 de agosto à Advocacia-Geral da União, no qual o Discord apresentou um pacote de novas salvaguardas. A proposta prevê algoritmos mais rigorosos para identificar grooming, mecanismos de alerta em tempo real e ampliação da equipe de moderação local. A ANPD analisa se essas promessas serão suficientes.

    Enquanto não há definição, especialistas alertam que redes fechadas continuarão atraindo aliciadores se não houver integração entre autoridades, escolas e famílias. “O processo de convencimento de adolescentes começa em outras plataformas e migra para espaços com menor visibilidade”, explica Maria Mello. Ela defende políticas de educação digital e fiscalização contínua, não só reativa.

    A suspensão das lives do Discord, portanto, tornou-se um ensaio sobre a aplicação prática do ECA Digital e sobre o alcance regulatório da ANPD. O desfecho indicará até onde o poder público está disposto a ir para coibir violações on-line — e exigirá das plataformas maior transparência sobre como moderam conteúdo e protegem os mais vulneráveis.

    Rafael Oliveira é criador de conteúdo digital e editor com foco em entretenimento, reality shows e notícias do mundo dos famosos. Seu trabalho é voltado para levar informações rápidas, atualizadas e relevantes sobre os principais acontecimentos da TV e das redes sociais.