Quatro anos depois, relembre a arrancada de Lula e Bolsonaro na disputa presidencial de 2022

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    Em 16 de agosto de 2022, data que marcava o início oficial da campanha, Jair Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT) escolheram cenários carregados de simbolismo para lançar suas candidaturas. O então presidente retornou a Juiz de Fora (MG), cidade onde levou a facada em 2018; já o petista foi a São Bernardo do Campo (SP), berço de sua trajetória sindical. Nos dois palanques, os discursos anteciparam a tônica de uma eleição polarizada que terminaria com Lula eleito no segundo turno por 50,9% dos votos válidos.

    Quatro anos depois, os primeiros atos de campanha ajudam a explicar não apenas a estratégia de cada candidato, mas também os temas que mobilizaram eleitores: de um lado, Bolsonaro reforçou bandeiras conservadoras e a ligação com evangélicos; de outro, Lula centrou críticas na condução da pandemia, na fome e na situação econômica.

    Minas Gerais: Bolsonaro retorna ao palco do atentado

    Logo ao desembarcar no aeroporto da Serrinha, em Juiz de Fora, Bolsonaro foi recebido por pastores evangélicos e iniciou uma motociata que percorreu ruas da cidade mineira. O trajeto terminou na Rua Halfeld, próximo ao local onde ele fora esfaqueado quatro anos antes. Do alto de um trio elétrico, o candidato à reeleição transformou a memória do atentado em ativo político, apresentando-se como alguém que “renasceu” para defender valores conservadores e, segundo ele, “proteger a liberdade do povo brasileiro”.

    O discurso misturou temas morais e ataques diretos ao PT. Bolsonaro reiterou oposição ao aborto e à legalização das drogas, defendeu a propriedade privada e associou governos petistas à corrupção. “O Brasil era roubado pela esquerdalha”, disse, enquanto exaltava indicadores de inflação em queda e a redução no preço dos combustíveis obtida a partir da desoneração de impostos.

    Plateia evangélica e aliados no palanque

    A primeira-dama Michelle Bolsonaro, recém-alçada a protagonista das agendas religiosas, fez citação bíblica e agradeceu orações pela recuperação do marido em 2018. Ao lado dela, o general Walter Braga Netto, candidato a vice, prometeu “continuar a missão” de 2019-2022. Pastores que acompanharam o evento ungiram Bolsonaro e reforçaram a narrativa de “proteção divina” sobre o presidente.

    Estratégia eleitoral em Minas

    A escolha de Juiz de Fora tinha ainda outro objetivo: sinalizar atenção ao segundo maior colégio eleitoral do país. Em 2018, Minas foi decisiva para a vitória bolsonarista; em 2022, pesquisas mostravam disputa acirrada com Lula. A mensagem, portanto, era tanto simbólica quanto pragmática: a campanha pretendia reconquistar terreno em um estado considerado fiel da balança.

    São Bernardo do Campo: Lula volta ao berço político

    Enquanto Bolsonaro revivia 2018, Lula buscou a memória do ABC paulista dos anos 1970. Dentro de uma fábrica de automóveis em São Bernardo, cercado por metalúrgicos, o ex-presidente relembrou greves históricas e agradeceu “às mãos calejadas” dos trabalhadores que o projetaram à vida pública. O gesto pretendia reconectar a imagem do petista à classe operária, pilar de suas primeiras vitórias eleitorais.

    No discurso, Lula atacou a condução da pandemia pelo governo federal. Citou as mais de 680 mil mortes registradas até então e acusou Bolsonaro de “não derramar uma lágrima pelas famílias enlutadas”. O petista ainda prometeu combater a fome, que voltara a crescer, e anunciou como primeira medida de eventual governo a correção da tabela do Imposto de Renda.

    Críticas a fake news e disputa pelo eleitor evangélico

    Lula também atacou o adversário por “espalhar mentiras” sobre sua relação com igrejas. Segundo ele, Bolsonaro tentava “manipular a fé” para ganhar votos, enquanto o PT defenderia liberdade religiosa sem instrumentalização política. A fala mirava um segmento que, desde 2018, se mostrava majoritariamente alinhado ao então presidente.

    Aliança ampliada no palco

    A presença de Fernando Haddad (PT), Márcio França (PSB) e da presidente do partido, Gleisi Hoffmann, evidenciou a amplitude da coligação que sustentava a candidatura. O ato também antecipou o tom de conciliação que marcaria a campanha do petista, reforçando a ideia de “frente ampla” contra Bolsonaro.

    Polarização exposta desde o primeiro dia

    Os eventos simultâneos evidenciaram estratégias diametralmente opostas. Bolsonaro buscava manter sua base mobilizada com pautas de costumes, defesa da arma de fogo e antagonismo ao PT. Lula, por sua vez, apostava no desgaste do governo durante a crise sanitária e na piora das condições de vida para recuperar votos de eleitores de baixa renda.

    Pesquisas e resultado apertado

    Na véspera do início da campanha, levantamento Ipec mostrava Lula com 44% das intenções de voto contra 32% de Bolsonaro. A vantagem, porém, encolheu ao longo dos 45 dias de propaganda: em 2 de outubro, o petista saiu do primeiro turno com 48,43%, cinco pontos à frente do adversário — margem menor que a prevista pelos institutos. O segundo turno terminou com 50,9% a 49,1%, a disputa mais apertada desde 1989.

    Temas que dominaram o debate

    • Economia: inflação, preço dos combustíveis e retomada do Auxílio Brasil dominaram falas de Bolsonaro; Lula prometeu renegociar dívidas e aumentar salário mínimo acima da inflação.
    • Pandemia: gestão federal da Covid-19 tornou-se trincheira de críticas da oposição, enquanto o governo destacava vacinação e queda de óbitos em 2022.
    • Costumes: aborto, drogas e pautas LGBTQIA+ foram usadas por Bolsonaro para fidelizar conservadores, ao passo que Lula mirou recompor apoio no eleitorado evangélico com mensagens de respeito à fé.
    • Fome e miséria: o retorno de brasileiros ao mapa da fome rendeu vídeos emocionados do petista, que também prometeu recriar o Bolsa Família.

    Legado dos atos iniciais

    Quatro anos depois, a largada da campanha de 2022 permanece como fotografia nítida do país dividido. O retorno de Bolsonaro a Juiz de Fora cristalizou a narrativa de resiliência pessoal e reforçou seu vínculo com a pauta religiosa. A ida de Lula a São Bernardo atualizou a imagem de líder operário disposto a reviver a “esperança” de 2003, enquanto denunciava erros do adversário.

    A eleição terminou, mas os símbolos daqueles 16 de agosto continuam a orientar militâncias e estratégias partidárias — prova de que, em política, lugares e memórias têm força comparável à de propostas concretas.

    Rafael Oliveira é criador de conteúdo digital e editor com foco em entretenimento, reality shows e notícias do mundo dos famosos. Seu trabalho é voltado para levar informações rápidas, atualizadas e relevantes sobre os principais acontecimentos da TV e das redes sociais.