Pela primeira vez desde que o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) passou a coletar a autodeclaração racial dos concorrentes, o conjunto de pessoas pretas e pardas ficou exatamente na casa dos 50% das candidaturas para um pleito nacional, mas registrou leve retração: são 49,9% dos 20.496 pedidos apresentados para as eleições gerais de 2026, contra 50,3% em 2022. Em números absolutos, 10.224 candidatos se declaram pretos ou pardos, enquanto 9.974 afirmam ser brancos – uma diferença de apenas 250 nomes.
O prazo para protocolar registros encerrou-se às 19h do sábado (15), e os dados divulgados neste domingo (16) ainda podem sofrer pequenos ajustes com substituições ou indeferimentos. Mesmo assim, o quadro já indica como se distribui a representação racial entre os postulantes aos cargos de presidente, governador, senador, deputado federal, estadual e distrital, além de vices e suplentes.
Diferenças por cor ou raça
Entre os grupos minoritários, 191 candidaturas são de pessoas indígenas (0,9%) e 107, de amarelas (0,5%). Candidatos que não informaram cor ou raça somam uma parcela residual. Já o total de brancos subiu proporcionalmente: passou de 48,2% há quatro anos para 48,7% agora.
Pretos e pardos, juntos e separados
- Pardos: 7.430 candidatos (36,3% do total);
- Pretos: 2.794 candidatos (13,6% do total);
- Indígenas: 191 (0,9%);
- Amarelos: 107 (0,5%).
A participação parda manteve estabilidade, variando de 36,2% para 36,3%. A dos pretos recuou de 14,1% para 13,6%. Em 2022 havia 14.712 candidaturas de pretos ou pardos; em 2026, são 10.224 – queda explicada pela redução geral de registros no atual ciclo eleitoral.
Como a presença negra varia de acordo com o cargo
Palácio do Planalto
Na corrida presidencial, três dos 13 nomes se autodeclaram pretos ou pardos, repetindo o índice de 23,1% verificado em 2022. Entre os candidatos a vice-presidente, esse percentual cresce para 38,5% (5 entre 13).
Governos estaduais
Dos 195 concorrentes a governador, 79 são pretos ou pardos, o equivalente a 40,5%. Em 2022, o índice era praticamente idêntico (40,2%). Já entre os postulantes a vice-governador, o número avança para 89 em 196 (45,4%), oito pontos percentuais acima do último pleito.
Senado
Para o Senado, 117 dos 315 pretendentes (37,1%) pertencem aos grupos preto ou pardo. Em comparação com 2022, a fatia cresceu quase cinco pontos (32,5% para 37,1%). A presença também aumenta nas suplências: 40,6% dos primeiros suplentes e 53,6% dos segundos são pretos ou pardos.
Câmaras federais, estaduais e distrital
As eleições proporcionais concentram a maioria dos registros e puxam o índice geral para cima: 50,4% dos candidatos a deputado federal, estadual ou distrital se declaram pretos ou pardos. A divisão interna, porém, oscila:
- Deputado federal: 48,5% pretos ou pardos (ligeira alta de 0,2 ponto);
- Deputado estadual: 51,3% (queda de 0,9 ponto);
- Deputado distrital: 58,6% (alta de quatro pontos).
Pretos e pardos já são maioria entre aqueles que miram as assembleias estaduais e a Câmara Legislativa do Distrito Federal. Para a Câmara dos Deputados, os brancos ainda ocupam posição ligeiramente superior: 49,9% contra 48,5%.

Imagem: Internet
Candidaturas por gênero revelam perfis distintos
As mulheres respondem por 34,8% dos registros de 2026. Dentro desse universo, 52,3% das candidatas são pretas ou pardas, confirmando tendência de maior presença feminina negra na disputa quando comparada ao quadro masculino.
Números por gênero
- Total de mulheres candidatas: 7.134;
- Pretas ou pardas: 3.731 (52,3%);
- Mulheres pretas: 17,3% do total feminino;
- Mulheres pardas: 35%;
- Homens candidatos: 13.362;
- Homens pretos ou pardos: 6.493 (48,6%).
Ao comparar os recortes, percebe-se que a representação preta é mais alta entre mulheres (17,3%) do que entre homens (11,7%). A participação parda, por outro lado, mantém patamar similar – ligeiro predomínio masculino de 36,9% contra 35%.
Retrato por partido: onde pretos e pardos avançam ou recuam
Dos 30 partidos que registraram candidatos, 19 contam com, no mínimo, metade das vagas preenchidas por pretos ou pardos. O PCB lidera proporcionalmente: 65,2% de suas 23 candidaturas enquadram-se nesse grupo. Em seguida aparecem Mobiliza (63,6%), Rede (62,9%), PSOL (61,8%), Solidariedade (61,5%) e Avante (60,2%).
Quantitativo absoluto
Embora não figure no topo percentual, o MDB registra o maior número de candidatos pretos ou pardos em valores absolutos: 636 entre 1.386. Republicanos (631) e PDT (622) completam o pódio, seguidos por PL (615), Podemos (594) e Avante (572).
Variação entre 2022 e 2026
Considerando apenas as siglas que disputaram os dois pleitos, a participação de pretos e pardos cresceu na Rede (de 54,2% para 62,9%) e no Solidariedade (de 49,1% para 61,5%). No PSOL, manteve estabilidade em torno de 62%. Já PT, MDB, PL e PP registraram retração:
- PT: de 50% para 49,5%;
- MDB: de 50,9% para 45,9%;
- PL: de 42,8% para 37,9%;
- PP: de 46,5% para 39,6%.
O que ainda pode mudar
Os percentuais refletem a fotografia capturada logo após o encerramento do prazo legal. A Justiça Eleitoral ainda analisará cada pedido de registro e poderá indeferir candidaturas, solicitar ajustes na autodeclaração ou homologar substituições – situações que tradicionalmente provocam pequenas alterações nas estatísticas finais.
Mesmo com eventuais retificações, a tendência dos últimos ciclos se confirma: a presença de pretos e pardos convergiu para a linha dos 50% do total de candidaturas, aproximando-se da composição populacional brasileira. A discussão sobre como transformar esses números em assentos efetivos continua a ser um dos pontos centrais do debate sobre representatividade no país.
