O senador Weverton Rocha (PDT-MA) afirmou nesta terça-feira (4) que não há irregularidade nas transações financeiras citadas pela Polícia Federal em um desdobramento da Operação Sem Desconto, investigação que apura lavagem de dinheiro e desvios no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). Em nota, o parlamentar declarou ter “total tranquilidade” porque, segundo ele, todo o dinheiro movimentado é fruto de atividade empresarial e foi declarado à Receita Federal.
A manifestação foi divulgada poucas horas depois de a PF cumprir mandados de busca e apreensão contra pessoas próximas ao senador — a esposa, filhas, irmãs e empresários ligados a ele. Weverton, que tenta a reeleição ao Senado, não foi alvo direto da ação, mas é mencionado no inquérito que apontou movimentações superiores a R$ 11 milhões e a compra de um imóvel de R$ 6 milhões em Brasília.
Operação Sem Desconto: novo capítulo
Deflagrada em 2020, a Operação Sem Desconto investiga a cobrança indevida de taxas sobre benefícios previdenciários e possíveis pagamentos de propina a servidores do INSS. A análise de um telefone apreendido anteriormente de Weverton ampliou o escopo da apuração, levando a PF a mapear uma rede de transferências bancárias que envolveria contas de parentes do senador e empresas comandadas pelo advogado e empresário Willer Tomaz de Souza.
Segundo os investigadores, foram identificadas dezenas de transações fracionadas e interligadas. O relatório policial menciona que ao menos R$ 11 milhões circularam entre firmas de Tomaz e contas de Samya Rocha, esposa do parlamentar. Também apareceram, nos extratos, depósitos nos postos de combustíveis Petro São Francisco e Petro São José, cuja gestão operacional é atribuída a Anna Catarina Rocha, filha de Weverton.
Foco na mansão de R$ 6 milhões
Um dos pontos que mais chamou atenção dos agentes federais foi a aquisição de uma casa avaliada em R$ 6 milhões, situada em um bairro nobre da capital federal. O imóvel é utilizado pela família do senador, porém está registrado em nome de uma empresa ligada a Willer Tomaz. Para a PF, o formato da operação sugere ocultação patrimonial.
A investigação agora tenta esclarecer quem efetivamente arcou com a compra, como se deu o fluxo de recursos e se houve tentativa de mascarar a real titularidade do bem. Caso confirmada a irregularidade, o episódio pode reforçar a suspeita de lavagem de dinheiro, crime punido com até dez anos de prisão.
Decisão do STF diverge de parecer da PGR
O pedido de busca e apreensão recebeu sinal verde do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF). Embora a Procuradoria-Geral da República (PGR) tenha se posicionado contra a medida, o ministro considerou que havia risco concreto de destruição de provas dada a “gravidade dos fatos”.
Nos autos, Mendonça destacou a quantidade de operações consideradas atípicas e o vínculo familiar entre os investigados como fatores que poderiam facilitar a ocultação de documentos contábeis e digitais. A decisão autorizou a entrada dos agentes em endereços residenciais e comerciais ligados aos parentes de Weverton, além de permitir a apreensão de celulares, computadores e mídias externas.
Argumentos do Ministério Público Federal
Em parecer entregue antes da decisão, a subprocuradora responsável avaliou que as diligências eram “amplas e genéricas” e poderiam representar constrangimento ilegal. Para o MPF, já existiriam elementos suficientes no material obtido anteriormente e não haveria indício de que provas estariam em risco iminente.
Mesmo derrotado, o entendimento do MPF será reanalisado quando o inquérito for concluído. Caberá à Procuradoria decidir se oferece denúncia, arquiva o caso ou solicita novas diligências.
Pronunciamento do senador
Em sua nota, Weverton classificou as buscas como “ataques políticos esperados” em ano eleitoral. Ele disse estranhar, porém, que a PF tenha “ido tão longe” ao incluir sua família e “até apoiadores”. O senador ressaltou que todas as empresas citadas têm atividade real, pagam impostos e constam em suas declarações ao Fisco.
Ainda segundo o comunicado, nenhuma transferência foi feita em dinheiro vivo, método comumente associado a lavagem de capitais. “Me mantive dentro da lei e continuarei lutando pelo Maranhão”, escreveu o pedetista, que anunciou disposição para apresentar extratos, contratos e notas fiscais aos investigadores.
Reação no meio político
Aliados do senador saíram em sua defesa, afirmando que a operação “tem caráter midiático”. Adversários aproveitaram para cobrar explicações sobre o patrimônio do parlamentar, que passou de declarações modestas em eleições anteriores a cifras mais robustas na prestação de contas atual.
Nos bastidores, a avaliação é que a repercussão pode afetar o desempenho eleitoral de Weverton no curto prazo, embora o impacto dependa do ritmo das investigações e da capacidade de seus advogados de demonstrar a legalidade dos negócios.

Imagem: T Molina
Empresário Willer Tomaz no centro das suspeitas
Willer Tomaz de Souza, citado como elo financeiro da família Rocha, já apareceu em outros inquéritos da PF. Advogado e dono de empresas nos ramos de combustíveis, construção e eventos, ele nega envolvimento em qualquer esquema de lavagem e diz que a relação com Weverton é “estritamente comercial”.
Documentos anexados ao processo mostram que firmas controladas por Tomaz prestaram serviços de consultoria a negócios ligados à mulher do senador. Parte dos pagamentos teria sido devolvida na forma de empréstimos pessoais, fato que a PF vê como possível indício de triangulação para ocultar a origem dos recursos.
Próximos passos da investigação
Com os materiais apreendidos, a Polícia Federal deve solicitar perícia contábil e quebra de sigilo bancário dos investigados para rastrear a origem e o destino dos valores. A previsão é que, nos próximos 60 dias, um novo relatório parcial seja enviado ao Supremo.
Dependendo dos achados, Weverton pode passar da condição de pessoa mencionada para investigado formal caso surjam indícios diretos de que ele comandou ou se beneficiou do suposto esquema. Procuradores também monitoram contratos de empresas maranhenses que receberam emendas parlamentares indicadas pelo senador, à procura de eventual sobrepreço ou subcontratação irregular.
Possíveis desdobramentos judiciais
Se a denúncia for oferecida e aceita, o senador responderá a ação penal no próprio STF, foro competente para parlamentares federais. Em caso de arquivamento, a decisão não impede reabertura futura se aparecerem provas novas.
Entre as hipóteses consideradas pelos investigadores estão crimes de lavagem de dinheiro, organização criminosa, corrupção passiva e peculato. As penas somadas podem ultrapassar 20 anos de reclusão, além de multa e perda de mandato, caso seja confirmada participação direta.
Clima de tensão em meio à campanha
A operação ocorre em um momento crítico para Weverton, que aparece entre os favoritos na disputa por uma das vagas do Maranhão ao Senado. Nas últimas semanas, a campanha intensificou viagens pelo interior do estado, com destaque para promessas de ampliação de programas sociais.
Assessores temem que a repercussão da investigação desvie o foco dos compromissos eleitorais. A equipe jurídica do senador, por sua vez, prepara petições para contestar a suspeita de fracionamento de valores e pedir a restituição imediata de bens apreendidos, como computadores familiares.
Calendário apertado
O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) exigirá que eventuais aditamentos à declaração de bens do candidato sejam entregues até a segunda quinzena de agosto. Caso surjam novos ativos identificados pela PF, Weverton terá de atualizar o registro, sob pena de responder a processo por omissão.
No campo penal, o STF não trabalha com prazos rígidos, mas, em geral, o ministro relator deve remeter o inquérito à PGR em até 90 dias após a conclusão de cada laudo pericial. A palavra final sobre possíveis denúncias caberá à Procuradoria.
Balancete do caso
- R$ 11 milhões em transferências apontadas entre empresas de Willer Tomaz e contas da esposa do senador.
- Mansão de R$ 6 milhões usada por Weverton, registrada em nome de firma de Tomaz.
- Buscas autorizadas pelo STF, apesar de parecer contrário do MPF.
- Parlamentar afirma que transações foram declaradas e vê “ataque político”.
- Investigação segue sob sigilo, com novos laudos e quebras de sigilo previstos.
Até que as apurações avancem, Weverton Rocha aposta na estratégia de divulgar documentos fiscais e empresariais para sustentar sua versão de legalidade. Enquanto isso, a Polícia Federal concentra esforços em seguir o rastro do dinheiro para confirmar — ou descartar — o elo entre as movimentações familiares e possíveis desvios no INSS.
