STF autoriza quebra de sigilo telefônico do senador Jaques Wagner em apuração sobre Banco Master

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    Uma decisão do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, abriu caminho para que a Polícia Federal rastreie chamadas, mensagens e localização do celular do senador Jaques Wagner (PT-BA) no âmbito da 9ª fase da Operação Compliance Zero, que investiga um suposto esquema bilionário de fraudes e lavagem de dinheiro ligado ao Banco Master. O mesmo despacho atinge Augusto Lima, ex-sócio da instituição financeira.

    Editada em 17 de junho e mantida em sigilo até esta quinta-feira (30), a autorização responde a pedido da PF que apontou o uso predominante de ligações de voz e áudios, em vez de registros escritos, para tratar de “assuntos sensíveis”. Mendonça também citou risco concreto de vazamento, depois de um dos investigados solicitar audiência em seu gabinete no mesmo dia em que as representações da PF deram entrada no Supremo.

    Decisão derruba sigilo e viabiliza coleta remota

    Com a quebra de sigilo, os investigadores poderão acessar extratos de chamadas, dados de Estações Rádio-Base (ERB) — responsáveis por fornecer a posição aproximada de cada aparelho —, além de cópias de mensagens enviadas por aplicativos. A medida vale para um período determinado, ainda mantido sob reserva judicial, mas suficiente, segundo a Polícia Federal, para mapear encontros e fluxos de comunicação do parlamentar e do ex-executivo.

    Ao liberar o monitoramento, Mendonça destacou que, diferentemente de diligências de campo, o acesso a registros telefônicos “opera de forma inteiramente reservada” e reduz a exposição da equipe policial. Nos autos, o ministro relembra que a organização investigada já demonstrou capacidade de neutralizar avanços da polícia em fases anteriores da operação.

    Solicitação de audiência acendeu alerta

    O despacho menciona explicitamente o episódio que reforçou a suspeita de vazamento: no dia 9 de junho, data em que a PF protocolou os pedidos de busca e a quebra de sigilo, o gabinete de Mendonça recebeu requerimento de encontro presencial encaminhado por um dos alvos. De acordo com apuração da TV Globo, tratava-se do próprio senador Jaques Wagner. Para o relator, a coincidência de horários “agudiza os riscos” de comprometimento das investigações.

    PF alega uso estratégico de chamadas de voz

    Em seu relatório, a Polícia Federal sustenta que o núcleo político do esquema evitava textos ou e-mails para driblar rastreamento. Investigadores afirmam que Wagner manteve diálogo frequente com Augusto Lima por ligações telefônicas, recorrendo a mensagens apenas para compartilhar links ou documentos depois que o conteúdo principal já havia sido discutido por áudio.

    O documento acrescenta que, pela função parlamentar, o senador se desloca regularmente entre Salvador, Brasília e outros estados, mantendo agenda pública carregada. Isso, para a PF, inviabiliza vigilância física contínua sem levantar suspeitas. A alternativa menos invasiva e mais eficaz seria o mapeamento remoto dos aparelhos.

    Justificativa contra reação do grupo investigado

    Os policiais citam ainda episódios anteriores da Compliance Zero que revelaram monitoramento do trabalho de investigadores por integrantes do suposto esquema. Segundo a corporação, a quadrilha liderada pelo empresário Daniel Vorcaro “identificou e neutralizou, antecipadamente, movimentos investigativos”. Por isso, qualquer operação que exija deslocamento de agentes traria “risco substancial” de exposição.

    Contexto da Operação Compliance Zero

    Deflagrada em 2024, a investigação mira um complexo arranjo empresarial e político voltado, segundo o Ministério Público Federal, à concessão ilegal de créditos, uso de informações privilegiadas e lavagem de recursos que superariam a casa dos bilhões de reais. O Banco Master, controlado por Vorcaro, aparece como peça central na engrenagem financeira.

    A 9ª fase, cumprida em junho, teve o objetivo de aprofundar suspeitas de influência parlamentar. A PF afirma que Jaques Wagner usou seu mandato no Congresso para defender interesses do Banco Master, recebendo em contrapartida vantagens como:

    • cessão de um apartamento de luxo em Salvador, estimado em R$ 2,5 milhões;
    • repasses a empresas ligadas a familiares do senador;
    • apoio logístico durante campanhas eleitorais.

    As evidências teriam sido reforçadas por interceptações ambientais em fases anteriores e pela colaboração de ex-funcionários do banco. Com a nova quebra de sigilo, os investigadores esperam amarrar pontas e delimitar a participação de cada personagem.

    Como funcionaria o suposto modelo de troca de favores

    De acordo com o inquérito, executivos do Banco Master buscavam acesso direto a parlamentares com poder de articulação em comissões temáticas e na liderança de bancadas. Esses contatos seriam remunerados por meio de doações eleitorais indiretas, aquisições de imóveis ou contratos de fachada com empresas de parentes, criando um ciclo de lavagem que misturava recursos do banco a pessoas jurídicas de fachada.

    Investigadores sugerem que Augusto Lima, ex-sócio de Vorcaro, atuava como intermediário entre o núcleo financeiro e o núcleo político, transmitindo orientações e resultados de votação no Congresso. A PF considera “essencial” revelar padrões de deslocamento entre Lima e Wagner para confirmar encontros presenciais em Brasília, Salvador e São Paulo.

    Posicionamento de Jaques Wagner

    Em nota enviada à imprensa após a deflagração da 9ª fase, o senador nega ter defendido o Banco Master ou qualquer outra instituição financeira no Parlamento. Ele afirma que o apartamento apontado pela polícia “jamais integrou seu patrimônio” e que não recebeu vantagem indevida.

    A defesa sustenta que, à frente da liderança do Governo em mandatos anteriores, Wagner dialogava com diversos setores da economia, inclusive o financeiro, mas de forma institucional. Os advogados consideram a medida de monitoramento “desproporcional” e dizem que apresentarão recurso assim que forem intimados oficialmente.

    Reação do entorno político

    Nos bastidores, integrantes do PT avaliam que a decisão do STF amplia a pressão sobre o partido às vésperas do calendário eleitoral de 2026. Já oposicionistas preparam requerimentos de convocação do senador nas comissões temáticas do Congresso para que ele esclareça as suspeitas de tráfico de influência.

    Próximos passos no Supremo

    Com a decisão de Mendonça, a operadora de telefonia tem prazo de dez dias para encaminhar à PF os registros solicitados. Os dados serão cruzados com evidências financeiras apreendidas em mandados de busca anteriores, que incluem extratos bancários, planilhas e anotações manuscritas.

    Concluída a análise, a Polícia Federal deverá elaborar relatório parcial a ser remetido à Procuradoria-Geral da República, que decidirá se oferece denúncia ou se pede diligências adicionais. Caso a PGR apresente acusação formal, o processo segue para apreciação da Primeira Turma do STF, colegiado responsável por ações penais contra detentores de foro privilegiado.

    Ponto de atenção sobre foro privilegiado

    Embora o núcleo financeiro envolva empresários sem mandato, a participação de um senador arrasta todo o caso para o Supremo, em razão do foro por prerrogativa de função. Se, no decorrer da apuração, ficar provado que os supostos crimes não guardam relação com o mandato, a PGR pode requerer desmembramento, remetendo a parte empresarial para a Justiça Federal de primeira instância.

    Impacto sobre a investigação

    Especialistas ouvidos reservadamente avaliam que o acesso aos metadados de telefonia tende a ser decisivo para traçar a dinâmica de encontros e a sequência de mensagens de voz que, segundo a PF, moldou a engrenagem ilícita. Ainda que as conversas não sejam gravadas, horários, durações e localizações podem confirmar versão de colaboradores e apontar contradições nos depoimentos dos suspeitos.

    Para a polícia, a estratégia de comunicação verbal foi um dos fatores que prolongaram o funcionamento do esquema sem deixar rastros documentais. Agora, com a quebra de sigilo telefônico, investigadores pretendem reconstruir a linha do tempo e aferir se houve coordenação entre votações no Congresso e movimentos de capital identificados nas contas do Banco Master.

    Rafael Oliveira é criador de conteúdo digital e editor com foco em entretenimento, reality shows e notícias do mundo dos famosos. Seu trabalho é voltado para levar informações rápidas, atualizadas e relevantes sobre os principais acontecimentos da TV e das redes sociais.