O senador Cleitinho (Republicanos-MG), apontado como favorito nas mais recentes pesquisas para o Palácio Tiradentes, ouviu do próprio partido que não terá legenda para disputar o governo de Minas Gerais. Pouco depois, ele reagiu e reafirmou que segue “à disposição do povo” para concorrer, instalando um conflito público com a direção nacional do Republicanos e deixando em aberto o quadro eleitoral no segundo maior colégio do Sudeste.
A decisão, anunciada pelo presidente da sigla, Marcos Pereira, foi atribuída à falta de definição do parlamentar e à sua ausência na convenção estadual de 25 de julho. Para adversários e aliados, porém, pesou também o receio de Cleitinho em herdar um estado afundado em dívidas com a União, cenário que poderia comprometer sua popularidade, hoje sustentada por mais de quatro milhões de votos obtidos para o Senado em 2022.
Bate-cabeça dentro do Republicanos
Da pré-lançamento ao recuo
Em 2 de março, o Republicanos apresentou oficialmente Cleitinho como pré-candidato, enxergando nele um puxador de votos capaz de turbinar a chapa proporcional da legenda. O movimento ganhou força com o desgaste acumulado pelo governo Romeu Zema e a pouca visibilidade do vice-governador Mateus Simões (PSD), que tentará a reeleição.
Nos bastidores, porém, dirigentes já desconfiavam do compromisso do senador. Em entrevistas no fim de fevereiro, Cleitinho condicionou a entrada na corrida a duas exigências: liderança nas sondagens e a desistência do deputado federal Nikolas Ferreira (PL) de também pleitear o cargo. Mesmo após o recuo de Nikolas, a hesitação permaneceu.
Vírus da dúvida e luto familiar
Durante a pré-campanha, o senador gravou vídeos negando rumores de desistência, ironizou acusações de “medo” de enfrentar um estado quebrado e, no Senado, prometeu uma posição final “apenas quando Deus e o povo decidirem”. A perda do irmão mais novo, Matheus Azevedo, vítima de leucemia em 18 de julho, afastou Cleitinho dos holofotes e reforçou a percepção de que ele não tinha “cabeça para campanha”.
O ponto de virada esperado era a convenção estadual de 25 de julho, ocasião para sacramentar a candidatura. Cleitinho não apareceu. A ausência foi lida pela cúpula do Republicanos como descompromisso incontornável e serviu de gatilho para o veto oficializado quatro dias depois.
Pesquisa confirma favoritismo, mas não convence partido
Na véspera do veto, o instituto Quaest divulgou levantamento que colocava o senador na dianteira. O resultado reacendeu conversas com siglas que buscam palanque para a campanha presidencial, entre elas o PL, onde Nikolas Ferreira e Flávio Bolsonaro defendiam o apoio a Cleitinho. Mesmo com o impulso numérico, a executiva nacional não voltou atrás.
Estado quebrado assusta potenciais governadores
Dívida bilionária com a União
Minas Gerais carrega uma das maiores dívidas estaduais do país. A renegociação do passivo, fundamental para liberar investimentos, reajustes salariais e obras de infraestrutura, já derrubou a popularidade de governadores anteriores. A perspectiva de ter de sancionar medidas impopulares, como aumento de alíquotas ou contenção de gastos, é apontada como um dos fatores que esfriaram o ânimo de Cleitinho.
Risco eleitoral para um político de rede social
Conhecido por vídeos diretos gravados no celular e linguagem “pé no chão”, o senador construiu capital político ancorado no antipolítico. Avaliadores internos calculam que, numa administração sujeita a cortes, a imagem de “gente comum” poderia ruir, afetando inclusive seu mandato no Senado, que vai até 2030.

Imagem: Internet
Calendário eleitoral e as amarras da filiação
Data-limite já expirou
A legislação determina que pretendentes ao Executivo estejam filiados ao partido pelo qual concorrerão seis meses antes do pleito. Para 2026, o prazo se encerrou em 4 de abril. Como a janela partidária não se aplica a cargos majoritários, Cleitinho não pode migrar de sigla sem ficar sem abrigo legal. Isso torna o Republicanos a única via formal para sua candidatura.
Convenções até 5 de agosto
Os partidos têm até 5 de agosto para registrar chapas na Justiça Eleitoral. Com o Republicanos fechado à possibilidade, resta ao senador tentar reverter a decisão internamente antes dessa data. Caso não consiga, ficará fora da disputa e o partido precisará alinhar apoio a outro nome, possivelmente Marcelo Aro (PP), cuja negociação avançou nos últimos dias.
Efeito dominó nas proporcionais
Na prática, a indefinição atrapalha a produção de material gráfico, a escolha de números e a estratégia de comunicação de centenas de candidatos a deputado estadual e federal que dependem da foto do cabeça de chapa para melhorar a exposição. A direção do Republicanos argumenta que a ausência de Cleitinho na convenção ampliou a instabilidade e colocou as nominatas em risco.
Negociações cruzadas e próximos passos
PL à procura de palanque
Sem Cleitinho, o PL corre contra o relógio para definir quem ostentará a bandeira bolsonarista em Minas. Romeu Zema tem a simpatia do PSD, mas não empolga a ala mais ideológica do partido. Marcelo Aro aparece como alternativa de consenso possível, já que mantém portas abertas com bancadas conservadoras.
Republicanos tenta conter danos
A sigla avalia agora duas frentes: convencer Cleitinho a recuar publicamente, evitando a narrativa de boicote, ou mantê-lo em silêncio e anunciar endosso a outro projeto. Qualquer solução terá de lidar com o capital eleitoral do senador, que, mesmo sem entrar na disputa, continua sendo ativo valioso para campanha de aliados ao Senado e à Câmara.
Senador mantém suspense
Por meio da assessoria, Cleitinho reiterou estar “à disposição do povo mineiro” e não mencionou a possibilidade de deixar o Republicanos. Interlocutores próximos afirmam que ele ainda mede custos políticos de insistir, sobretudo se tiver de travar batalha jurídica para obrigar o partido a registrar sua candidatura – caminho considerado improvável pelos especialistas em direito eleitoral.
Com o prazo das convenções se aproximando e a crise fiscal mineira no epicentro do debate, a novela da candidatura de Cleitinho segue sem desfecho. Enquanto isso, as articulações nos bastidores correm para preencher o vácuo deixado pelo senador ou, quem sabe, para convencê-lo de que o momento de entrar em campo chegou — com ou sem medo do placar final.
