Caiado e Kassab atacam “show de avatar” na convenção de Flávio Bolsonaro e cobram regras rígidas para IA na eleição

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    Na avaliação do pré-candidato do PSD à Presidência, Ronaldo Caiado, a convenção do PL que oficializou a candidatura de Flávio Bolsonaro deixou o postulante em segundo plano e trocou propostas por um “show de avatar” protagonizado pelo presidente argentino Javier Milei e por uma peça de inteligência artificial que reproduziu a voz e a imagem de Jair Bolsonaro. Para o ex-governador de Goiás, a aposta em convidados estrangeiros e em recursos tecnológicos sem transparência desviou o debate sobre temas nacionais e alimentou um clima de agressões, inclusive contra os Estados Unidos e a Argentina.

    Ao lado do presidente do PSD e vice em sua chapa, Gilberto Kassab, Caiado afirmou que o PL desperdiçou a oportunidade de apresentar um programa de governo. Kassab classificou o encontro como “fora do que a sociedade espera” e criticou o embate de Milei com representantes do governo brasileiro, o que, segundo ele, rebaixou o nível da discussão política.

    Caiado: “Candidato perdeu para um argentino e para um avatar”

    Depois de se reunir em Brasília com dirigentes da Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert) e da Associação Nacional de Jornais (ANJ), Caiado disse a jornalistas que Flávio Bolsonaro se transformou em mero coadjuvante na própria festa partidária. “Foi uma convenção em que o candidato perdeu para um argentino e perdeu para um avatar”, definiu, referindo-se à fala de Milei e ao vídeo gerado por IA que exibiu um Jair Bolsonaro virtual.

    O pré-candidato do PSD afirmou que, em vez de detalhar propostas para áreas como economia, saúde ou segurança pública, o PL priorizou aplausos a Milei, que repetiu seu discurso “anti-socialista”, e ataques dirigidos aos atuais ocupantes do Palácio do Planalto. “De repente deixamos de discutir os problemas do Brasil para brigar com Estados Unidos, Argentina, seja lá quem for”, reclamou.

    Kassab diz que PL “caiu na armadilha”

    Gilberto Kassab, que concorrerá a vice-presidente na mesma chapa de Caiado, avaliou que o encontro do PL “fugiu dos objetivos” desejados pelo eleitorado. Para ele, a presença de Milei e o uso de tecnologia sem explicações claras mostraram que Flávio Bolsonaro não pretende discutir propostas concretas. “A convenção trouxe um chefe de Estado de país com relações importantes com o Brasil apenas para baixar o nível do debate, e o governo caiu na armadilha”, disse.

    STF cobra explicações sobre uso de avatar de Bolsonaro

    O vídeo que reproduziu Jair Bolsonaro por meio de inteligência artificial gerou reação imediata do Supremo Tribunal Federal. O ministro Alexandre de Moraes determinou que a defesa do ex-presidente apresente, em 48 horas, a autorização formal para uso da imagem e da voz dele. A decisão mira possíveis violações à legislação eleitoral e aos direitos de imagem.

    Indagado sobre a medida, Caiado afirmou que cumprirá integralmente o que a lei determinar. “Se a legislação disser que pode usar IA mediante identificação explícita, faremos assim. Se disser que não pode, não faremos. É simples”, declarou.

    Defesa de regras modernas e respeito a direitos autorais

    Caiado defendeu uma “legislação moderna” que discipline o uso de inteligência artificial em campanhas e garanta a remuneração de direitos autorais de criadores de conteúdo. “Seja jornalista, cantor ou escritor, todos devem ter seus direitos respeitados”, pontuou, reforçando que não apoia a veiculação de materiais sem a devida atribuição ou sem alertas claros ao público.

    TSE já definiu limites para a tecnologia nas urnas

    Em março, o Tribunal Superior Eleitoral aprovou por unanimidade uma resolução que baliza a propaganda eleitoral de 2026. Entre os principais pontos, o texto proíbe a publicação ou o impulsionamento de conteúdo criado ou manipulado por IA nas 72 horas que antecedem a votação e nas 24 horas seguintes ao encerramento do pleito. A regra visa evitar a difusão de desinformação em massa nos momentos mais sensíveis da disputa.

    Quem descumprir a determinação poderá ter o material removido imediatamente ou enfrentar a suspensão do serviço por ordem judicial. Além disso, qualquer peça publicitária que utilize inteligência artificial para alterar imagens ou sons deve informar, de forma “explícita, destacada e acessível”, que se trata de conteúdo sintético.

    Provedores também têm dever de neutralidade

    A resolução do TSE impõe ainda obrigações às empresas que desenvolvem sistemas de IA. As plataformas não poderão ranquear, recomendar ou priorizar candidatos, partidos ou coligações, nem manifestar preferência eleitoral por meio de respostas automatizadas, ainda que provocadas por usuários. Os provedores têm de elaborar um plano de conformidade para prevenir riscos à integridade do processo democrático.

    Eleição polarizada e pressão por transparência

    O embate em torno do uso de avatares e deepfakes sinaliza a temperatura da campanha que se aproxima. Flávio Bolsonaro aposta na popularidade do pai — ainda inelegível — e no alinhamento a figuras como Javier Milei para galvanizar o eleitorado conservador. Já Caiado e Kassab tentam se apresentar como alternativa ao “replay” da polarização de 2022, argumentando que o país precisa discutir inflação, emprego, transição energética e segurança pública em vez de “shows midiáticos”.

    A repercussão da convenção do PL mostra, contudo, que a tecnologia tende a ser um dos palcos centrais da disputa. Especialistas alertam que vídeos sintéticos, se não forem claramente identificados, podem confundir o eleitorado e distorcer o debate. Por isso, partidos e Justiça Eleitoral correm contra o tempo para estabelecer filtros robustos.

    PSD aposta em contraste com espetáculo do PL

    Nos bastidores, integrantes do PSD afirmam que Caiado pretende investir em eventos menores, com apresentação detalhada de propostas, para marcar contraste com o que chamam de “palanque performático” de seus adversários. A legenda avalia que a crítica ao uso indiscriminado de IA rende dividendos políticos num momento em que o tema preocupa tanto a sociedade civil quanto o setor produtivo.

    O que está em jogo

    Embora tenha virado notícia pelo ineditismo, o avatar de Jair Bolsonaro tornou-se apenas um ponto de atrito num cenário mais amplo: a incerteza sobre como as campanhas utilizarão ferramentas de inteligência artificial daqui para frente. Se, de um lado, os recursos têm potencial para baratear a produção de conteúdo, de outro elevam o risco de manipulação.

    Para analistas consultados por partidos, o episódio pode acelerar a tramitação de projetos que tramitam no Congresso prevendo penalidades específicas para o uso fraudulento de IA em ambiente eleitoral. Também pode forçar os candidatos a adotarem selos de verificação em tempo real, na tentativa de ganhar a confiança do eleitor.

    Próximos passos

    Caiado e Kassab continuarão sua agenda de reuniões com entidades do setor de comunicação para colher sugestões sobre regulação de plataformas e possibilidades de financiamento ao jornalismo profissional. Já Flávio Bolsonaro deve ser instado pelo STF a explicar em detalhes a produção do avatar do pai — um procedimento que pode abrir precedente para outras investigações sobre deepfakes.

    Com a campanha oficialmente em pré-temporada, a discussão sobre IA, transparência e responsabilidade promete ocupar espaço relevante nos palanques e nos tribunais. A forma como cada candidato lida com a tecnologia tenderá a contar pontos — positivos ou negativos — na corrida pelo Planalto.

    Rafael Oliveira é criador de conteúdo digital e editor com foco em entretenimento, reality shows e notícias do mundo dos famosos. Seu trabalho é voltado para levar informações rápidas, atualizadas e relevantes sobre os principais acontecimentos da TV e das redes sociais.