O Republicanos encerrou, de forma oficial, a novela em torno da possível candidatura do senador Cleitinho Azevedo ao governo de Minas Gerais. Após meses de indefinição, Marcos Pereira, presidente nacional da legenda, comunicou que o parlamentar mineiro não entrará na disputa em 2026 — decisão tomada depois da ausência do senador na convenção estadual de sábado (25), onde seu nome seria homologado.
A sigla já se reposicionou: passará a integrar o projeto encabeçado por Marcelo Aro (PP), ex-secretário de Governo do Estado, que decidiu lançar-se ao Palácio Tiradentes depois de ver frustrada a tentativa de disputar o Senado na chapa do governador Mateus Simões (PSD). A mudança reconfigura alianças e impacta diretamente as negociações nacionais do PL, que contava com Cleitinho para estruturar o palanque mineiro de Flávio Bolsonaro, pré-candidato à Presidência da República.
Indefinição prolongada e desgaste interno
Desde o início do ano, Cleitinho era tratado como principal aposta do Republicanos para o Executivo estadual. Pesquisas qualitativas internas mostravam potencial de crescimento do senador, que consolidou imagem de político combativo nas redes. Entretanto, as conversas nunca avançaram para a formalização. Dirigentes relatam seguidos recuos do parlamentar, que alegava questões pessoais e pressão familiar — especialmente após a morte recente do irmão Mateus Azevedo, vítima de leucemia.
A gota d’água, segundo a nota assinada pelas executivas estadual e nacional, foi a ausência do senador na convenção partidária. O encontro marcou o prazo final para inscrição de candidaturas majoritárias na sigla. Sem a presença de Cleitinho, o Republicanos avaliou que mantê-lo como opção significaria travar coligações, retardar a formação das chapas proporcionais e deixar filiados à deriva. “Uma candidatura exige, antes de tudo, decisão firme de quem pretende disputá-la”, registra o texto divulgado após a reunião.
“Faltou decisão inequívoca”
No documento, a sigla alega ter oferecido estrutura, tempo de TV, alianças regionais e a promessa de apoio de legendas como PL e PP. Mesmo assim, “os sinais contraditórios” de Cleitinho minaram a confiança. A frase mais dura, direcionada ao senador, ressalta que “o partido esteve pronto; a candidatura, porém, nunca foi formalmente assumida por quem deveria liderá-la”.
Efeito dominó nas alianças
A desistência de Cleitinho provocou reacomodação imediata. O PL, presidido por Valdemar Costa Neto, aguardava a definição mineira para articular a campanha de Flávio Bolsonaro no estado. Sem o palanque do Republicanos, dirigentes da sigla buscam agora uma alternativa para fincar bandeira em Minas, terceiro maior colégio eleitoral do país. Valdemar não poupou críticas: “Cleitinho muda de ideia toda hora. Perdeu o timing com o partido. Pode ser bom senador, mas para o Executivo terá dificuldade”, afirmou, mencionando o “perfil intenso” do político como obstáculo em um eleitorado “calmo” como o mineiro.
Do outro lado, Marcelo Aro capitalizou o vácuo. Até o início de julho, o ex-secretário pretendia concorrer ao Senado, compondo aliança com o PSD de Mateus Simões. A chegada do senador Carlos Viana ao PSD, contudo, trancou essa vaga e levou Aro a migrar para o PP, selando na sequência o suporte do Republicanos. A costura foi chancelada em videoconferência que reuniu o próprio Aro, Flávio Bolsonaro e Marcos Pereira.
PP assume protagonismo regional
Com o reforço do Republicanos, o palanque de Aro ganha capilaridade em regiões como o Triângulo e o Norte de Minas, onde a sigla possui prefeitos e bases parlamentares. Ainda não há definição sobre quem ocupará a vice, mas dirigentes falam em buscar um nome feminino do agronegócio para ampliar o eleitorado conservador e dialogar com o setor, hoje majoritariamente simpático ao PL.

Imagem: Internet
Cleitinho: vídeos, luto e liderança em pesquisa
Ironicamente, a decisão de não disputar veio no mesmo dia em que a Quaest divulgou levantamento colocando Cleitinho na liderança isolada da corrida mineira, com vantagem de oito pontos sobre o segundo colocado. O resultado alimentou especulações de que o senador pudesse rever a hesitação. Pela manhã, ele publicara nas redes um vídeo gerado por inteligência artificial, no qual se encontra com o pai e com o irmão falecido. Na encenação, recebe a bênção dos familiares para “fazer o que precisa ser feito” e seguir “sem olhar para a esquerda nem para a direita”. A repercussão, entretanto, não alterou a posição do partido.
Assessores próximos relatam que Cleitinho pesou o impacto emocional da recente perda familiar e decidiu concentrar-se no mandato no Senado, onde preside comissões temáticas e construiu boa relação com lideranças evangélicas. O mineiro, eleito em 2022 com votação expressiva, tem mandato até 2030 e não corre risco político imediato ao adiar a estreia em disputas majoritárias de Executivo.
Calendário apertado e próximos passos
Sem Cleitinho, o Republicanos corre contra o relógio para sacramentar a coligação com o PP e registrar a chapa no Tribunal Regional Eleitoral. Nas contas internas, a nova configuração garante algo em torno de 2 minutos no horário eleitoral, tempo considerado razoável para apresentar Aro ao eleitor fora da capital e de Contagem, cidades onde ele já é conhecido.
Enquanto isso, o PL tenta redesenhar sua estratégia. Uma ala defende apoiar Aro a fim de preservar a aliança nacional com o Republicanos; outra prefere lançar nome próprio para assegurar palanque exclusivo a Flávio Bolsonaro. Há ainda a possibilidade de o partido negociar com o PSD de Simões, hipótese vista com ceticismo pela direção estadual.
Cenário mineiro ganha nova configuração
Com a movimentação, Minas Gerais passa a ter, por ora, três candidaturas competitivas ao governo: o atual governador Mateus Simões (PSD), que buscará a reeleição; Marcelo Aro (PP/Republicanos); e o nome a ser apresentado pelo PT, ainda indefinido, mas cogita-se a ex-ministra Patrus Ananias como opção. Partidos menores, como Novo e PSOL, avaliam candidaturas próprias, porém seguem na margem das pesquisas.
A expectativa é de que, até o fim de agosto, o tabuleiro se estabilize. Dirigentes lembram que as convenções nacionais se encerram em 5 de agosto, prazo fatal para ajustes. Até lá, Cleitinho continuará cobiçado como cabo eleitoral — especialmente por conta dos 4,5 milhões de seguidores que acumulou nas plataformas digitais —, mas, ao menos por ora, fica fora da linha de frente da sucessão estadual.
