O ex-governador de Minas Gerais Romeu Zema foi confirmado nesta segunda-feira (27) como candidato do Partido Novo à Presidência da República. Em seu primeiro discurso após a convenção, feita por videoconferência e seguida de coletiva em Brasília, o empresário mineiro centrou fogo no PT, no presidente Luiz Inácio Lula da Silva e em ministros do Supremo Tribunal Federal, que, segundo ele, “transformaram exceções em regra”.
A fala, marcada por tom de confronto, dedicou espaço privilegiado à segurança pública: Zema prometeu enquadrar facções criminosas como organizações terroristas e construir um presídio de segurança máxima “no coração da Amazônia” para isolar chefes de quadrilhas. O presidenciável sustentou que só quem “conhece o Brasil que trabalha e paga imposto” pode enfrentar o crime e reduzir privilégios de servidores e magistrados.
Lançamento da candidatura
O anúncio da candidatura ocorreu em ambiente virtual, por decisão do diretório nacional do Novo, e contou com a presença do presidente da sigla, Eduardo Ribeiro. Sem a tradicional foto ao lado de um vice, Zema adiantou que o nome do companheiro de chapa será divulgado até 5 de agosto, prazo legal para registro, e terá como exigência a “ficha limpa”.
Aos filiados, Zema lembrou sua trajetória como empresário do setor varejista, citou a gestão em Minas (2019-2026) como vitrine de ajuste fiscal e reforçou que pretende “levar para Brasília” a prática de não indicar parentes ou aliados para cargos estratégicos. “Quem governa não pode ter dono, nem partido, nem toga”, resumiu.
Ataques a PT e ao Supremo
No terreno político, o mineiro fez críticas diretas a Lula e ao PT, afirmando que o país “não aguenta mais quatro anos de aparelhamento”. Para ele, a atual administração “optou por aumentar impostos e repartir favores” em vez de flexibilizar o ambiente de negócios. O presidenciável também ironizou programas sociais que, em sua avaliação, “tratam os pobres como plateia cativa”.
O STF virou alvo tanto pela decisão recente que barrou parte das mudanças trabalhistas em Minas durante sua gestão quanto por processos que envolvem o próprio candidato. “Até processo inventado eu já ganhei de ministro que se acha deus”, disse, sem citar diretamente Gilmar Mendes, autor de ação que o acusa de calúnia e difamação.
Processo movido por Gilmar Mendes
O ministro do STF abriu queixa-crime contra Zema depois que o então governador ligou o nome de magistrados a supostos favorecimentos ao antigo Banco Master, liquidado pelo Banco Central sob suspeita de fraudes bilionárias. Questionado sobre o tema, o presidenciável afirmou que não irá recuar: “Juiz não pode ter blindagem moral para errar”.
Referência ao caso Master
Zema voltou a citar o caso Master para exemplificar o que chama de “farra dos intocáveis”, expressão que passou a usar em postagens nas redes sociais. A investigação aponta que descontos indevidos em aposentadorias do INSS e operações financeiras suspeitas somam bilhões de reais. Ele não apresentou provas novas, mas prometeu abrir uma “comissão anticorrupção independente” se eleito.
Agenda de segurança pública
Segurança foi o ponto alto do discurso, com promessa de enquadrar facções como terroristas – o que ampliaria penas e facilitaria uso de legislação mais dura. Zema avaliou que, em vários estados, “o território deixou de ser do Estado brasileiro e virou satélite do crime”. Ele também defendeu revisões na Lei de Execuções Penais para dificultar progressão de regime.

Imagem: Internet
Facções como organizações terroristas
A proposta prevê enviar logo no primeiro semestre de governo um projeto para alterar a Lei Antiterrorismo, incluindo grupos como PCC e Comando Vermelho. “Crime organizado é hoje maior ameaça à nossa soberania, maior até que disputas geopolíticas”, afirmou. Ele argumenta que a designação de terrorismo permitiria bloqueio de bens, cooperação internacional mais rápida e uso das Forças Armadas em operações específicas.
Superpresídio na floresta
A construção de um presídio de segurança máxima em área remota da Amazônia foi apresentada como “solução de longo prazo” para líderes de facções. O complexo, segundo Zema, ficaria “a centenas de quilômetros da cidade mais próxima”, teria regime disciplinar rígido e abrigaria “quem vai mofar pelos próximos 25 anos”. A escolha da Amazônia, justifica, dificultaria fugas e comunicação externa. Não há ainda custo estimado nem indicação de parceria com estados.
Outras promessas de campanha
- Auditar contratos federais e eliminar “mordomias incompatíveis com a realidade fiscal”.
- Implantar teto de gastos permanente para todos os Poderes, com sanções automáticas em caso de descumprimento.
- Revisar benefícios tributários concedidos a setores que, na visão dele, “não entregam contrapartida social”.
- Digitalizar integralmente licenças e alvarás federais para reduzir burocracia a empresas.
- Vetar indicações políticas em estatais e autarquias, mantendo conselho independente com mandatos fixos.
Na seara econômica, o mineiro pretende retomar a agenda de privatizações travada nos últimos anos e “transformar estatal deficitária em companhia competitiva ou patrimônio vendido”. Ele cita os Correios e a EBC (Empresa Brasil de Comunicação) como exemplos imediatos de desestatização.
A convenção desta segunda também homologou a coligação majoritária “Brasil de Verdade”, composta somente pelo Novo. A sigla aposta no desempenho de Zema em Minas, estado com segundo maior colégio eleitoral do país, para ganhar musculatura nacional. Pesquisas internas mostram o candidato ainda em patamar de um dígito, mas dirigentes calculam que a “retórica anticasta” pode levá-lo ao eleitorado simpático a pautas de renovação política.
Nas próximas semanas, Zema iniciará caravanas pela Região Norte, onde pretende apresentar in loco a proposta do superpresídio e discutir demarcações de terra. A equipe jurídica da campanha afirmou já ter rascunho do projeto que tipifica facções como terroristas e espera entregá-lo aos governadores aliados para consulta.
Enquanto aguarda o anúncio do vice, o ex-governador reforça a estratégia de confrontar o Supremo e o Planalto. Aliados, porém, admitem que o tom duro deve ser calibrado a partir de agosto, quando começarem os debates televisivos. “Nosso desafio é mostrar firmeza sem parecer birra”, resumiu um dirigente do Novo. Se depender do discurso de lançamento, o candidato parece disposto a manter o confronto aberto até as urnas.
