Os brasileiros desembolsaram US$ 2,45 bilhões em viagens internacionais no mês de julho, valor que supera qualquer outro ponto da série histórica iniciada em 1995, segundo dados divulgados pelo Banco Central nesta quinta-feira (27). O resultado eclipsa o antigo recorde, de US$ 2,41 bilhões, verificado no mesmo mês de 2014.
O desempenho coincide com um câmbio mais favorável — o dólar encerrou julho cotado a R$ 5,0696, acumulando queda de 7,64% no ano — e com o pico da alta temporada escolar, fatores que barateiam passagens, hospedagem e compras denominadas em moeda estrangeira. De janeiro a julho, os gastos lá fora já somam US$ 15,1 bilhões, outro recorde para o período.
Por que o consumo externo disparou
Dólar abaixo de R$ 5,10 dá fôlego ao turismo
Boa parte da despesa de turistas é calculada em dólar, seja no valor facial — caso de passagens aéreas e diárias de hotéis —, seja no custo de produtos importados. Quando a moeda norte-americana recua, o preço final em reais diminui, estimulando famílias e viajantes de negócios a antecipar compras e viagens. Em julho, o patamar médio ficou pouco acima de R$ 5,00, bem menor que os R$ 5,40 registrados na virada do ano.
A variação cambial tem peso ainda maior para destinos nos Estados Unidos e na Europa, onde a remuneração de serviços normalmente ocorre em dólar ou euro. Além disso, muitos sites de reservas e companhias aéreas calculam tarifas com base na moeda norte-americana, repassando o desconto ao consumidor brasileiro quando o câmbio cai.
Alta temporada escolar amplia fluxo de famílias
Julho concentra parte relevante das férias escolares. Com crianças fora da sala de aula, cresce o número de viagens em família, inclusive para o exterior. Esse movimento pressiona aeroportos, redes de hotelaria e parques temáticos, elevando naturalmente o tíquete médio gasto por passageiro.
Empresas do setor costumam reforçar a oferta de pacotes promocionais nessa época, aproveitando a combinação de câmbio favorável e demanda aquecida. O resultado é um salto nas compras de passagens e na contratação de serviços turísticos pagos em moeda estrangeira.
Ritmo de crescimento econômico contribui
Embora o Produto Interno Bruto brasileiro deva avançar em ritmo mais modesto este ano, analistas seguem projetando alguma expansão. Quando a renda cresce, mesmo que marginalmente, famílias tendem a elevar gastos discricionários, como turismo internacional. A aceleração, ainda que contida, acaba aparecendo nos números do BC.
Contas externas: déficit recua, mas julho pressiona saldo
Números acumulados mostram melhora
Nos sete primeiros meses do ano, o déficit em transações correntes — balança comercial, serviços e rendas — alcançou US$ 35,97 bilhões, queda de 9,6 % frente ao rombo de US$ 39,78 bilhões observado em igual intervalo de 2025. A redução acompanha o menor ritmo de crescimento da economia interna e o comportamento ainda firme das exportações.
Quando o país cresce de forma moderada, importa menos insumos industriais e gasta menos com serviços externos, o que diminui a saída de divisas. Esse freio aparece com alguma defasagem nos indicadores, ajudando a explicar a melhora parcial no saldo das contas externas.
Julho volta a registrar pressão
Ainda assim, isoladamente, julho apresentou déficit em transações correntes de US$ 8,11 bilhões, pior que os US$ 6,94 bilhões anotados em igual mês do ano passado. O salto de despesas de turistas brasileiros contribuiu para a deterioração momentânea do indicador.

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Além do turismo, pagamentos de rendas — juros, lucros e dividendos remetidos por empresas a matrizes no exterior — também pesaram no resultado mensal. Apesar da piora pontual, o BC avalia que o saldo continuará coberto pela entrada de capital estrangeiro ao longo do ano.
Investimento estrangeiro direto cobre rombo externo
Entradas superam US$ 54 bilhões até julho
O Brasil recebeu US$ 54,44 bilhões em investimento direto no período de janeiro a julho, alta expressiva ante os US$ 43,74 bilhões de igual etapa do ano anterior. O montante foi suficiente para financiar integralmente o déficit externo acumulado até o momento.
Segundo o BC, os recursos se destinam principalmente a projetos de infraestrutura, energia e agronegócio. A percepção de que o país mantém marcos regulatórios relativamente estáveis nesses setores sustenta o apetite de multinacionais, mesmo em cenário global de juros mais altos.
Desempenho de julho reflete sazonalidade
Em julho, as entradas de investimento estrangeiro somaram US$ 7,46 bilhões, abaixo dos US$ 8,4 bilhões observados no mesmo mês de 2025. A redução se explica por desembolsos extraordinários registrados no ano passado que não se repetiram agora; ainda assim, o valor segue robusto diante do padrão histórico.
Os aportes correntes permanecem suficientes para cobrir o déficit mensal em transações correntes, evitando pressões adicionais sobre o câmbio. Essa folga contribui para manter o dólar em patamar relativamente baixo, realimentando o ciclo de viagens internacionais e compras externas.
Perspectivas para o restante do ano
Com a proximidade das férias de fim de ano e a manutenção do dólar abaixo de R$ 5,20 em boa parte das projeções de mercado, a procura por viagens internacionais tende a permanecer elevada. Operadores de turismo já relatam reservas adiantadas para destinos nos Estados Unidos, Canadá e Europa.
Do lado das contas externas, analistas esperam déficit mais contido que em 2025, graças ao bom desempenho exportador e à continuidade do fluxo de investimento direto. Caso o cenário se confirme, o financiamento do rombo externo seguirá garantido, limitando a volatilidade cambial e sustentando, por tabela, o poder de compra dos brasileiros no exterior.
