Na reta para as eleições de 2026, quem percorre o feed das principais plataformas digitais costuma esbarrar repetidamente nas mesmas vozes, partidos e propostas. Essa repetição não é fruto do acaso: é resultado direto de algoritmos que avaliam cada clique, curtida e segundo de permanência para decidir quais publicações terão prioridade na tela do usuário.
Especialistas lembram que, embora esses sistemas não escolham governantes, eles filtram a vitrine política acessível ao eleitor. Ao destacar determinados conteúdos e silenciar outros, os algoritmos acabam influenciando quais informações alcançam grande escala e quais permanecem restritas a nichos.
O que os algoritmos observam nas suas interações
Em funcionamento permanente, o motor de recomendação empregado por Instagram, Facebook, TikTok e outras redes vasculha uma série de sinais de comportamento. Quanto mais intensa for a sua relação com certo tipo de postagem, maior a probabilidade de conteúdos semelhantes aparecerem nas próximas visitas.
Sinais de interesse monitorados
- Tempo de exibição: ficar até o fim de um vídeo conta pontos extras para o tema abordado.
- Curtidas e reações: cada “joinha” ou coração reforça a preferência do usuário.
- Compartilhamentos: replicar o post indica que ele tem relevância social.
- Perfis seguidos: demonstram alinhamento político ou temático.
- Pesquisas internas: revelar curiosidade sobre candidatos ou assuntos específicos.
Quando o sistema detecta que um vídeo, foto ou texto desperta engajamento acima da média, a publicação é distribuída a novos grupos de pessoas com perfil semelhante. Se a reação for positiva, o ciclo se repete e surge a possibilidade de viralização.
Falta de transparência: principal crítica
Para a advogada Patrícia Peck, especialista em direito digital, o maior problema está na opacidade dos critérios. Os usuários não sabem com clareza por que determinado conteúdo foi priorizado nem se existe viés político embutido no processo. “Deveria ser muito mais claro qual abordagem o algoritmo está usando”, defende a jurista.
A ausência de explicações dificulta ao eleitor perceber que vive em uma bolha informacional. Na prática, duas pessoas que moram na mesma cidade podem receber discursos totalmente distintos sobre um mesmo candidato, apenas porque interagem de forma diferente com o conteúdo político.
Distribuição orgânica x conteúdo pago
Além do “empurrão” orgânico dado pelos sistemas de recomendação, candidatos e partidos podem impulsionar postagens mediante pagamento. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) permite anúncios nas redes apenas durante o período oficial de campanha e impõe regras de transparência: o conteúdo patrocinado deve ser claramente rotulado, e críticas a adversários não podem receber verba de promoção.
Na lógica orgânica, a entrega depende do engajamento espontâneo — se a publicação não atrai curtidas, tende a minguar. Já a modalidade paga leva a mensagem diretamente ao público definido pelo anunciante, mesmo quando o destinatário jamais demonstrou interesse prévio no tema. O desafio, aponta Peck, é que muitas vezes o eleitor não sabe diferenciar se o que vê foi “merecido” pelo algoritmo ou financiado às escondidas.
Consequências para a campanha de 2026
A capacidade de “encontrar” nichos com precisão milimétrica torna as redes sociais um campo fértil para estratégias segmentadas. Dados coletados a partir das interações permitem a criação de mensagens ajustadas a micro-públicos, com linguagem e promessas moldadas às preferências de cada grupo.

Imagem: Internet
Por outro lado, a mesma lógica amplia o risco de que informações falsas ou deepfakes tenham alcance explosivo antes de serem contestadas — assunto já discutido em detalhe na reportagem Como deepfakes desafiam a fiscalização eleitoral. Se uma montagem enganosa obtiver forte engajamento nos minutos iniciais, o algoritmo tende a turbiná-la, dificultando o trabalho dos checadores.
Para mitigar o problema, entidades civis e pesquisadores defendem que as plataformas disponibilizem relatórios sobre critérios de recomendação, número de impressões geradas e público alcançado. A proposta inclui a possibilidade de o usuário acessar painéis que exibam por que determinado anúncio apareceu e qual verba foi empregada no impulsionamento.
Pluralidade de fontes como antídoto
Enquanto a regulamentação não avança, especialistas recomendam atitudes simples: seguir veículos jornalísticos diversos, buscar informações em páginas oficiais e desconfiar de conteúdos que provocam reações emocionais extremas. Segundo Peck, “se garantirmos ao menos duas ou três visões distintas sobre o mesmo tema, reduzimos a chance de manipulação”.
Ainda assim, a advogada reconhece que o esforço do usuário individual esbarra na escala industrial de dados processados pelos algoritmos. “Eles localizam grupos de interesse com uma agilidade que nenhum militante no mundo offline conseguiria”, afirma.
Pressão por regras mais claras
No Congresso Nacional, propostas que exigem transparência algorítmica ganharam força após a última eleição municipal. Um dos projetos determina que empresas de tecnologia publiquem relatórios trimestrais detalhando como classificam e priorizam conteúdo político. Embora avance lentamente, a discussão coloca o Brasil na trilha de iniciativas já adotadas na União Europeia.
Até que uma norma definitiva seja aprovada, caberá aos tribunais eleitorais fiscalizar o cumprimento das regras atuais e às próprias plataformas refinar seus mecanismos de rotulagem de anúncios. Resta acompanhar se, na prática, o eleitor conseguirá distinguir publicidade de recomendação “espontânea” — e se terá acesso a um ecossistema informativo realmente plural.
