Sem Polícia Federal, banqueiro Daniel Vorcaro depõe a enviado de André Mendonça na Papudinha

    0

    O banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master e preso na ala da Polícia Federal do Complexo da Papuda, prestou depoimento reservado ao gabinete do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça na manhã de quinta-feira, 27 de agosto. A oitiva foi conduzida pessoalmente pelo juiz auxiliar João Azambuja, escalado por Mendonça apenas para esse ato, e ocorreu sem a presença de agentes da PF — ausência que gerou desconforto na corporação e especulações de bastidores.

    Segundo integrantes do Supremo ouvidos pela reportagem, a defesa do banqueiro pediu urgência alegando “graves intimidações” sofridas pelo cliente. Por isso, o gabinete do ministro decidiu ir até a “Papudinha”, como é conhecido o espaço reservado a detentos da Polícia Federal, para ouvir o relato sob sigilo. Apenas um representante do Ministério Público acompanhou a audiência, conforme determina a lei.

    Depoimento fora da investigação principal

    João Azambuja não integra a equipe que analisa o chamado Caso Master, investigação que apura supostas fraudes financeiras envolvendo o banco comandado por Vorcaro. Mesmo assim, o magistrado foi designado especificamente para colher o depoimento após o pedido da defesa, o que, na avaliação do gabinete, daria maior celeridade e garantiria a integridade física e psicológica do detento.

    O procedimento, classificado como “ato processual regular” pela assessoria de Mendonça, segue as Resoluções 213/2015 e 562/2024 do Conselho Nacional de Justiça (CNJ). Esses atos normativos facultam o afastamento da equipe policial responsável pela investigação quando há risco de constrangimento ou retaliação ao depoente. Nos bastidores, porém, delegados da PF estranharam não terem sido sequer avisados do deslocamento do juiz auxiliar e temem a perda de controle sobre informações sensíveis do inquérito.

    Sigilo reforçado

    O teor das declarações de Vorcaro permanece protegido por sigilo judicial. O gabinete de Mendonça nega que tenham sido tratados assuntos relacionados ao ministro Alexandre de Moraes, relator de casos ligados aos atos golpistas de 8 de Janeiro e frequentemente alvo de críticas de investigados. A negativa busca conter rumores de que o banqueiro teria mencionado o magistrado em suposta tentativa de colaboração premiada.

    Críticas internas à exclusão da PF

    Apesar de a legislação permitir depoimentos sem a presença policial, delegados envolvidos no Caso Master consideram que a medida cria “brechas” para combinação de versões ou antecipação de estratégias de defesa. Um dos pontos sensíveis, na avaliação desses investigadores, é a possibilidade de Vorcaro negociar acordo de delação diretamente com o Supremo, afastando a PF das tratativas iniciais.

    Procurado, o gabinete de André Mendonça atribuiu a ausência da PF exclusivamente ao pedido formal da defesa e às regras do CNJ, ressaltando que “não houve escolha de conveniência”. A nota divulgada pelo ministro sublinha que a presença do Ministério Público — parte responsável por eventual acordo de colaboração — foi garantida, cumprindo a exigência legal.

    Recuo das desconfianças

    Integrantes do Ministério Público Federal (MPF) que acompanharam a oitiva afirmam, reservadamente, que não houve oferta de delação naquele momento. Ainda assim, reconhecem que o depoimento pode abrir caminho para negociações futuras, já que Vorcaro manifestou preocupação com “ameaças veladas” que, segundo ele, partiriam de outros investigados e de agentes ligados à estrutura financeira examinada pela PF.

    Retorno imediato aos autos

    Menos de 24 horas depois, na sexta-feira, 28 de agosto, o banqueiro voltou a ser interrogado, desta vez pela própria Polícia Federal. A audiência ocorreu por videoconferência: Vorcaro permaneceu custodiado na Papudinha, enquanto o delegado responsável conduziu a sessão a partir de Brasília. Fontes ligadas ao inquérito garantem que o empresário repetiu boa parte das informações fornecidas ao gabinete de Mendonça, mas o teor também permanece sob sigilo.

    O fato de duas oitivas consecutivas — uma no Supremo e outra na PF — terem acontecido em tão curto espaço de tempo reforçou a percepção de que a estratégia da defesa é “blindar” o cliente contra possíveis pressões e, ao mesmo tempo, sinalizar disposição para colaborar. Advogados próximos ao caso dizem que a prioridade é garantir segurança antes de qualquer ato formal de colaboração ou proposta de acordo.

    Quem é Daniel Vorcaro

    Proprietário do Banco Master, Vorcaro é apontado pelos investigadores como peça-chave em operações financeiras que teriam driblado normas do Banco Central e beneficiado terceiros com movimentações suspeitas. Ele foi preso preventivamente em abril durante a segunda fase da investigação e transferido posteriormente para a ala voltada a presos da PF no Complexo da Papuda.

    Sem Polícia Federal, banqueiro Daniel Vorcaro depõe a enviado de André Mendonça na Papudinha - Imagem do artigo original

    Imagem: Internet

    No meio financeiro, o empresário é visto como um “operador agressivo”, responsável por ampliar rapidamente o alcance do banco no mercado de crédito consignado. A defesa nega qualquer irregularidade, sustenta que o cliente é alvo de perseguição e alega que a prisão foi decretada com base em suposições frágeis.

    Entenda o Caso Master

    O inquérito conduzido pela Polícia Federal e supervisionado pela Justiça Federal do Distrito Federal investiga uma rede de fraudes bancárias, lavagem de dinheiro e gestão temerária. As suspeitas recaem sobre concessões de crédito a empresas de fachada, compra e venda de títulos sem lastro e uso de laranjas para ocultar patrimônio.

    Em maio, a PF cumpriu mandados de busca em endereços ligados ao banco e a executivos suspeitos de participar do esquema. Foram apreendidos computadores, celulares e documentos que, segundo os investigadores, confirmam movimentações atípicas superiores a R$ 2 bilhões. O Banco Central acompanha de perto os desdobramentos e pode instaurar processo administrativo sancionador contra a instituição.

    Possíveis reflexos políticos

    A ida de um juiz auxiliar do Supremo a um presídio para ouvir um depoente sem a Polícia Federal não é comum e tem potencial de tensionar a relação entre Corte, MPF e PF. No Congresso, parlamentares ligados à área de segurança pretendem convocar audiências para discutir o tema, argumentando que a retirada da corporação de uma oitiva “mina a transparência” das investigações.

    Por enquanto, o Supremo evita comentar qualquer aspecto que transcenda questões processuais. A orientação interna é manter discrição para não alimentar a leitura de interferência em atribuições da PF. Já a Polícia Federal pretende registrar, em relatório interno, as circunstâncias da oitiva e avaliar se houve descumprimento de procedimentos usuais, embora admita que a prática se ampara em norma do CNJ.

    Próximos passos da investigação

    Nos próximos dias, o juiz federal responsável pelo Caso Master deve analisar requerimentos de diligências adicionais apresentados pela PF, entre eles a quebra de novos sigilos bancários e fiscais. A defesa de Vorcaro, por sua vez, planeja protocolar petições reforçando a necessidade de proteção ao preso e pedindo acesso integral aos elementos que justificaram sua prisão preventiva.

    Se houver proposta de colaboração premiada — hipótese tratada com cautela pelos procuradores —, ela deverá ser formalizada perante o Ministério Público Federal e homologada por um ministro do STF ou pelo magistrado de primeira instância, a depender do conteúdo e dos investigados citados. Enquanto isso, a detenção de Vorcaro permanece inalterada, e qualquer pedido de liberdade provisória dependerá de mudança no quadro probatório.

    Entre os investigadores, a expectativa é de que novos depoimentos e perícias contábeis sejam concluídos até o fim de setembro, quando o inquérito pode ser remetido ao MPF para eventual apresentação de denúncia. O depoimento extraordinário colhido na Papudinha, ainda mantido sob sigilo, pode influenciar esse calendário — seja ao fornecer pistas para aprofundar linhas de investigação, seja ao inaugurar uma possível colaboração com a Justiça.

    Rafael Oliveira é criador de conteúdo digital e editor com foco em entretenimento, reality shows e notícias do mundo dos famosos. Seu trabalho é voltado para levar informações rápidas, atualizadas e relevantes sobre os principais acontecimentos da TV e das redes sociais.