Vídeo de Trump sobre “domínio das Américas” escancara racha político nos EUA

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    Um vídeo institucional divulgado pela Casa Branca com o lema “A dominância das Américas nunca será questionada de novo” acirrou a disputa política nos Estados Unidos. A peça, publicada na terça-feira (11) e endossada pelo presidente Donald Trump, foi saudada por aliados republicanos e atacada por parlamentares democratas, que enxergam na mensagem um retorno agressivo à velha Doutrina Monroe.

    A produção de cinco minutos e meio, apresentada pelo embaixador norte-americano no Panamá, Kevin Marino Cabrera, traça uma linha histórica que vai do século XIX à captura do ex-ditador venezuelano Nicolás Maduro, em janeiro, para sustentar que Washington detém – e pretende manter – o controle político e militar do hemisfério.

    Vídeo exalta hegemonia e introduz a “doutrina Donroe”

    Com imagens de batalhas do passado e de operações recentes, o filme reforça uma citação de Trump feita em um comício: “A dominância norte-americana no hemisfério ocidental nunca será questionada de novo”. Cabrera costura o material com a afirmação de que, “ao longo de 200 anos, nossa bandeira protegeu a liberdade no continente”.

    Não é a primeira vez que o governo tenta reavivar o conceito. Em junho, o secretário de Guerra, Pete Hegseth, declarou que “a Doutrina Monroe está de volta, mais forte que nunca”, acrescentando um neologismo – “doutrina Donroe”, jogo de palavras que funde o sobrenome Monroe ao primeiro nome de Trump. Para ele, o recado deve ser claro a adversários internos e externos: “Este é o nosso hemisfério”.

    Referência à operação contra Maduro

    Entre as cenas destacadas, o vídeo relembra a captura de Nicolás Maduro, realizada por tropas dos EUA em Caracas no dia 3 de janeiro. Ao narrar o episódio, Cabrera diz que a intervenção “encerrou décadas de tirania bolivariana” e “exemplificou a capacidade norte-americana de agir quando seus interesses regionais estão ameaçados”.

    Democratas reagem: “propaganda imperialista”

    No Congresso, as críticas surgiram imediatamente. O senador Paul Strauss, que representa o Distrito de Columbia, considerou a produção “uma deturpação” da Doutrina Monroe. “O princípio original era anticolonial, criado para proteger recém-independentes; transformá-lo em alegação de ‘domínio’ é trair esses valores”, afirmou em resposta à emissora RFI.

    Filha de guatemaltecos, a deputada Delia Ramirez (Illinois) classificou o material como “propaganda imperialista” e lembrou que a aplicação histórica da doutrina gerou “instabilidade, pobreza, migração forçada e colonialismo” na América Latina e no Caribe. Para ela, reviver o conceito apenas aprofundará ressentimentos no subcontinente.

    A origem e o peso da Doutrina Monroe

    Proclamada em 1823 pelo então presidente James Monroe, a doutrina advertia potências europeias a não estabelecerem novas colônias nem interferirem nas Américas, enquanto Washington prometia não se envolver em disputas externas. Apesar do discurso anticolonial, o preceito serviu, ao longo dos anos, como justificativa para intervenções dos EUA em países latino-americanos.

    Treze anos atrás, um governo anterior havia declarado “encerrada” a Doutrina Monroe, gesto que organismos regionais interpretaram como sinal de distensão. A atual gestão, porém, celebra o retorno da lógica de influência exclusiva no hemisfério – agora reembalada como vitrine eleitoral.

    Apoio entre republicanos e base trumpista

    Entre aliados de Trump, a recepção foi entusiasmada. O deputado Carlos Gimenez, nascido em Cuba e eleito pela Flórida, ecoou o slogan “Make America Great Again” adaptado: “Faça as Américas Grandes de Novo”. Já Ed Martin, ex-conselheiro do Departamento de Justiça e voz frequente em comícios trumpistas, defendeu que o país “lute contra aqueles que se opõem” ao retorno da doutrina.

    Lideranças conservadoras enxergam no vídeo um instrumento para galvanizar a base em ano eleitoral, projetando imagem de força global ao mesmo tempo que explora temores sobre imigração e segurança nas fronteiras.

    Eco regional: México rechaça pretensão hegemônica

    As reações não ficaram restritas ao território norte-americano. Logo após a captura de Maduro, em janeiro, a presidente do México, Claudia Sheibaum, declarou que “as Américas não pertencem a nenhum poder”, recado que foi amplamente compartilhado por governos sul-americanos. Analistas lembram que posturas intervencionistas agravam tensões diplomáticas e podem impactar acordos comerciais e migratórios.

    Enquanto opositores alertam para o risco de novos atritos com vizinhos, a Casa Branca sustenta que a “política de dominância” é condição para garantir estabilidade, combater regimes autoritários e proteger as cadeias econômicas do continente.

    Próximos passos e impasse interno

    A divulgação da peça marca mais um capítulo da ofensiva comunicacional do governo Trump às vésperas da convenção partidária que oficializará sua candidatura à reeleição. Assessores presidenciais indicam que novos conteúdos exaltando vitórias militares e diplomáticas no hemisfério devem ser publicados até o fim do mês.

    No Capitólio, democratas prometem convocar audiências para discutir possíveis implicações legais e diplomáticas da retomada explícita da Doutrina Monroe. Republicanos, por sua vez, preparam projetos que reforçam o papel do Departamento de Guerra em “proteger a ordem hemisférica”. O embate sobre o alcance da influência norte-americana, portanto, deve permanecer no centro do debate político interno – enquanto América Latina e Caribe observam com cautela os desdobramentos.

    Rafael Oliveira é criador de conteúdo digital e editor com foco em entretenimento, reality shows e notícias do mundo dos famosos. Seu trabalho é voltado para levar informações rápidas, atualizadas e relevantes sobre os principais acontecimentos da TV e das redes sociais.