Racha entre aliados de Flávio Dino no Maranhão alimenta suspeitas de interferência política no STF

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    O grupo político que levou Flávio Dino ao Palácio dos Leões e, depois, ao Ministério da Justiça hoje trava uma guerra aberta com o governador Carlos Brandão (MDB) no Maranhão. O confronto, que envolve disputas por cargos, controle do Tribunal de Contas do Estado (TCE) e candidaturas municipais, chegou ao Supremo Tribunal Federal e reavivou o debate sobre até que ponto Dino, agora ministro da Corte, conseguiu realmente se afastar da arena partidária.

    Adversários acusam o magistrado de usar a toga para influir em processos que afetam diretamente o clã Brandão, enquanto aliados garantem que ele se mantém dentro dos limites legais de impedimento. Vazamentos de áudios, decisões judiciais controversas e a recente sessão do STF em que Dino liderou a ala de apoio a Alexandre de Moraes alimentam a desconfiança de que política e Judiciário continuam caminhando juntos na trajetória do ex-governador.

    Disputa entre ex-aliados implode base governista

    O estopim da crise foi a sucessão estadual de 2026. Brandão, vice que herdou o governo quando Dino concorreu ao Senado, lançou o sobrinho Orleans Brandão ao Palácio dos Leões. Dino, por sua vez, passou a patrocinar o vice-governador Felipe Camarão (PT), procurador federal que ganhou projeção ao ocupar quatro secretarias no período dinoísta. Os dois lados disputam também a indicação de conselheiros do TCE-MA, trampolim político e foco de verbas milionárias.

    As fraturas atingiram o Judiciário: ações que investigam aliados de Brandão, inclusive um homicídio num shopping de São Luís e a interpretação de regras para as nomeações no TCE, caíram na relatoria de Dino no STF. Em fevereiro, ele determinou o afastamento do sobrinho do governador, Daniel Brandão, da presidência do Tribunal de Contas e impôs prisão domiciliar ao secretário estadual Raimundo Cutrim, delegado aposentado ligado ao MDB maranhense. A decisão inflamou a acusação de que o ministro estaria agindo como “árbitro” do próprio jogo político.

    Defesa de Dino

    Em nota, o gabinete do ministro afirma que “as hipóteses de impedimento previstas no Código de Processo Penal não se aplicam a nenhum dos processos mencionados” e que a atuação segue “exclusivamente critérios técnicos”.

    Áudios vazados complicam narrativa de neutralidade

    O distanciamento político de Flávio Dino foi colocado em xeque em outubro de 2025, quando vieram a público gravações de conversas entre “dinistas” negociando uma trégua com Brandão. Nos diálogos, o deputado federal Márcio Jerry (PCdoB-MA), o também deputado Rubens Júnior (PT-MA) e o ex-chefe da Casa Civil Diego Galdino discutem a repartição de candidaturas municipais em troca da retomada de indicações ao TCE, tema sob análise do STF.

    Um dos interlocutores chega a afirmar ter falado “pessoalmente” com Dino; outro diz que o ministro “passou as coordenadas” para o acordo. O vazamento forçou a saída de Rubens Pereira, pai de Rubens Júnior, do governo estadual e aprofundou o racha. Em resposta na Câmara, Júnior admitiu a conversa, mas afirmou que fora gravado “de forma criminosa” e que Dino, em encontro posterior, se recusou a tratar de questões eleitorais, repetindo a máxima: “Processo judicial se resolve nos autos”.

    Amigo juiz também citado

    Prints atribuídos ao desembargador federal Ney Bello, amigo de juventude de Dino, sugerem pressão sobre Brandão com a ameaça de “inquéritos para estourar”. Bello não negou o teor das mensagens, mas reclamou do uso político do material e assegurou não desempenhar atividade partidária.

    Racha entre aliados de Flávio Dino no Maranhão alimenta suspeitas de interferência política no STF - Imagem do artigo original

    Imagem: Internet

    Sessão sobre Moraes expõe perfil combativo

    A atuação de Dino extrapolou a querela maranhense na sessão de 15 de abril deste ano, quando o STF discutiu pedido de investigação contra o ministro Alexandre de Moraes por suposta proximidade com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro. Dino pediu vista e, ao sustentar o adiamento, contestou duramente o relator Edson Fachin. Juristas como Conrado Hübner viram “agressões” e “contradição performativa”, enquanto a esquerda comemorou o ímpeto combativo, cogitando até candidatura presidencial em 2030. No bolsonarismo, o discurso alimentou o retrato de um “político na toga”.

    O episódio repercutiu no Planalto. Segundo relato de auxiliares, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva demonstrou incômodo com o tom adotado por Dino, lembrando que ele prometera afastamento completo da vida partidária ao assumir o Supremo.

    Porta giratória entre toga e palanque

    A alternância de Dino entre magistratura e política não é novidade. Ele foi juiz federal por 12 anos, trocou a carreira para eleger-se deputado em 2006, governou o Maranhão por dois mandatos (2015-2022), chefiou o Ministério da Justiça e, em fevereiro de 2024, chegou ao STF. O vaivém alimenta a pergunta: trata-se de um juiz com passado político ou de um político investido de autoridade judicial?

    Lula, inclusive, escorregou numa entrevista de outubro de 2025, ao citar “responsabilidade” de Dino na costura da aliança estadual, como se ele ainda ocupasse papel partidário — àquela altura, o ex-governador já estava há 20 meses no Supremo.

    Próximos capítulos

    Enquanto os processos maranhenses seguem tramitando sob a batuta do ministro e o tabuleiro eleitoral se organiza para 2026, aliados como Felipe Camarão seguem defendendo que Dino “deve servir ao país também no Executivo” no futuro. O ministro, entretanto, repete que a missão agora é exclusivamente jurisdicional.

    A Justiça, porém, dificilmente será o único fórum onde a batalha se travará. Áudios, investigações e decisões do STF seguem cruzando a fronteira entre Brasília e São Luís, tornando cada voto de Flávio Dino um episódio acompanhado com lupa tanto por adversários quanto por antigos correligionários.

    Rafael Oliveira é criador de conteúdo digital e editor com foco em entretenimento, reality shows e notícias do mundo dos famosos. Seu trabalho é voltado para levar informações rápidas, atualizadas e relevantes sobre os principais acontecimentos da TV e das redes sociais.