Onze episódios bastaram para que a quinta temporada de “Fauda”, já disponível na Netflix, transformasse o maior trauma recente de Israel em matéria-prima dramática. Ao reencenar o massacre de 7 de Outubro de 2023, a série recoloca seu protagonista Doron –e o público– diante de um choque que ainda reverbera fora da tela, tornando este ciclo o mais visceral desde a estreia, em 2018.
A decisão veio depois de os criadores Lior Raz e Avi Issacharoff, veteranos de unidades de operações especiais, participarem pessoalmente do resgate de civis atacados pelo Hamas. Eles próprios julgavam a produção encerrada após a quarta leva de capítulos, mas a realidade empurrou a trama de volta ao front e também cobrou seu preço: o produtor Matan Meir morreu em combate na Faixa de Gaza e o ator Idan Amedi, que vive Sagit, ficou gravemente ferido em 2024.
Feridas abertas viram roteiro mais sombrio
Desde o começo, a força de “Fauda” derivava da proximidade entre ficção e biografia. Raz serviu na Cisjordânia infiltrado como palestino, perdeu a namorada num atentado e exportou essas memórias para o musculoso agente Doron. A simbiose ajudou a primeira temporada a furar a bolha internacional, mesmo sob a acusação de propaganda. Israelenses e palestinos surgiam com dilemas morais equivalentes, o que manteve viva a tensão até o segundo ano; os capítulos seguintes, porém, diluíram essa ambiguidade e chegaram a insinuar a morte dos heróis.
O ataque de 7 de Outubro, que deixou quase 1.200 mortos e 251 sequestrados, voltou a embaralhar cartas. Internamente, o país viveu um abalo comparado apenas à Guerra do Yom Kippur, em 1973. Dramaturgicamente, ofereceu à série um novo motor narrativo, ainda que doloroso. Raz e Issacharoff reabriram o caderno de roteiros e localizaram a ação em 2025, quando lembranças do massacre seguem frescas e a vingança contamina todas as relações.
Quando o set se confunde com o front
O realismo nunca pesou tanto. Parte da equipe precisou trocar Marselha por Budapeste após ameaças antissemitas, enquanto as cenas do 7 de Outubro foram gravadas em comunidades israelenses idênticas às que sofreram a invasão. O Hamas, vale lembrar, filmou seus próprios crimes; o material bruto funcionou quase como storyboard involuntário. A produção avisa que os episódios 7 e 8 podem ser pulados, tamanho o impacto, mas quem assiste entende por que a dor domina o arco inteiro.
Trama costura luto e desejo de revanche
No roteiro, o elo emocional é Eli, interpretado com intensidade por Yaakov Zada Daniel. O agente perdeu a mulher e os dois filhos no ataque do Hamas e só pensa em eliminar Saeed (Hakim Djaziri), cérebro por trás da ação. A cruzada envolve ainda Salem (Bian Anteer), beduíno que viu o próprio filho sucumbir ao terrorismo, e arrasta Doron até Marselha na tentativa de evitar um acerto de contas suicida que pode detonar nova tragédia.
Como de hábito em “Fauda”, o plano dá errado já no primeiro movimento; cada tropeço revela camadas de motivação, culpas e alianças tortuosas. A consequência é a descoberta de um complô para repetir, em escala menor, o 7 de Outubro em solo europeu. É aqui que a série derrapa: a francesa Anne (Mélanie Laurent) passa rápido demais de jornalista engajada a candidata a mulher-bomba, decisão que exige boa dose de suspensão de descrença.

Imagem: Internet
Encenação crua do massacre redefine a série
A reconstrução do ataque –dos fuzilamentos à rave transformada em carnificina– ocupa longo tempo de tela e recoloca a dor acima de qualquer nuance. A produção não suaviza estupros, incêndios e a perplexidade de um Estado que se acreditava inalcançável em matéria de inteligência. A sequência deixa claro por que os roteiristas se desprendem, depois, de matizes mais delicadas: a raiva é esmagadora e empurra todos à beira do abismo moral.
Raiva encosta nuances, mas reforça impacto dramático
Ao amarrar a história nessa catarata de luto e fúria, “Fauda” assume o risco de parecer unilateral. Questionamentos sobre a devastação imposta a Gaza pela contraofensiva israelense não entram na equação; o foco é o tsunami emocional que varreu as famílias exibidas em tela. Ainda assim, a série não abandona totalmente a ambiguidade: Saeed surge como manipulador frio de ativistas ocidentais que confundem apoio à causa palestina com endosso ao terrorismo, enquanto Doron reconhece que a vingança jamais será antídoto para o vazio.
Vilão educado, dilema ocidental
Saeed consolida-se como antagonista emblemático ao usar a própria suavidade para recrutar cúmplices na França. A escrita aponta menos para maniqueísmo e mais para o descuido europeu diante de células infiltradas –tópico que atravessa os capítulos sem concessão.
Recepção global desafia impopularidade de Netanyahu
Ancorada em Yes Studios e apoiada pela Netflix, a temporada já figura entre as mais vistas em países tão distintos quanto Líbano, Brasil e Estados Unidos, apesar da má reputação internacional do governo de Binyamin Netanyahu. O criador e protagonista Lior Raz não demonstra preocupação com eventuais boicotes: a audiência tem respondido com números robustos e, segundo dados internos da plataforma, ultrapassou a marca da estreia anterior.
Entre méritos e falhas, a nova safra devolve à franquia a relevância que se diluíra. A conjunção de experiência militar real, perdas pessoais e atmosfera de thriller torna inevitável o mergulho num território onde o entretenimento encontra o luto coletivo. “Fauda” talvez nunca tenha sido tão imperfeita –nem tão necessária para quem tenta compreender, ainda que pelo avesso, o impacto do 7 de Outubro.
