A Berkshire Hathaway virou a página na sexta-feira (18) quando Warren Buffett, 96 anos, renunciou à presidência do conselho quase seis décadas depois de assumir o conglomerado. A cadeira de guardião dos valores fica agora com o primogênito Howard Buffett, 71, que assume o posto de presidente não executivo comprometido em manter a cultura que fez da empresa um ícone para investidores globais.
A manobra encerra a participação formal de Buffett pai na gestão cotidiana: ele não será conselheiro ativo do CEO Greg Abel, 64, que comanda o grupo desde janeiro. Com essa configuração, a Berkshire — avaliada em cerca de US$ 1,1 trilhão — aposta em continuidade, evitando choques que possam abalar o portfólio de ferrovias, energia, seguros, varejo e participações em gigantes como Apple, Coca-Cola e American Express.
Uma sucessão preparada em câmera lenta
O desenho da troca de guarda começou muitos anos atrás. Abel ingressou no grupo em 2000, quando a Berkshire comprou a MidAmerican Energy. Em 2018, já dividia a cúpula com Warren Buffett e o vice-presidente Charlie Munger. Howard Buffett, por sua vez, integra o conselho desde 1993, mas sempre atuou de forma discreta, reforçando a ideia de que sua missão seria proteger princípios, não interferir nas operações.
A transição ganhou contornos definitivos quando Buffett pai escreveu aos acionistas elogiando Abel por superar “expectativas altíssimas” e comparando o filho a uma apólice de seguros: “os acionistas possuem e esperam nunca precisar acionar”. O professor Michael Withers, da Universidade de Notre Dame, resume o momento: “o teste será honrar o legado de Warren, ao mesmo tempo que se adapta a um mercado muito diferente daquele que ele dominava”.
Papel de Howard: guardião, não gestor
Howard Buffett chega à presidência não executiva sem histórico de comando em empresa de capital aberto. Agricultor, xerife voluntário e filantropo, ganhou projeção por iniciativas humanitárias em segurança alimentar. Ele próprio minimiza a complexidade da nova função: “A cultura é manter as coisas simples, contar más notícias logo, tratar todos com justiça”, declarou ao Wall Street Journal em 2025.
A ausência de experiência operacional gera ceticismo. Para Cathy Seifert, analista da CFRA Research, a Berkshire perde a chance de repetir outras dinastias familiares em que o herdeiro conhece o dia a dia do negócio. A expectativa de investidores veteranos, porém, é que Howard atue como fiscal das velhas máximas: pouca burocracia, metas de longo prazo, zero tolerância a conflitos de interesse. “Minimizar a corrupção e ampliar a vantagem competitiva que protege os negócios”, resume James Armstrong, presidente da Henry H. Armstrong Associates, acionista de longa data.
Abel herda caixa recorde e manual de Buffett
Enquanto o primogênito observa a cultura, Greg Abel administra um cofre com US$ 364,7 bilhões em caixa — quase o maior nível já visto na holding até 30 de junho. A liquidez oferece margem para novas aquisições, reforço de participações acionárias, recompra de ações ou até a criação de um dividendo, possibilidade historicamente rejeitada por Buffett.

Imagem: Reuters
Até agora, Abel tem seguido o manual do antecessor: discrição, avaliação de riscos antes de cada movimento e ênfase na descentralização. “Novos gestores não têm a mesma intuição que só tempo e experiência trazem, mas Abel vive no ecossistema da Berkshire há tempo suficiente para reduzir essa lacuna”, avalia Brian Mulberry, estrategista da Zacks Investment Management.
Governança reforçada contra choques
A rotatividade no topo não elimina a influência de Warren Buffett. Ele ainda detém mais de 13% do capital, equivalentes a 30% do poder de voto, fatia que encolherá à medida que as ações forem doadas a fundações administradas pelos três filhos. Mesmo assim, o conselho ganha peso: além de Howard, há diretores veteranos capazes de aconselhar a nova dupla.
Para Macrae Sykes, gestor da Gabelli Funds, o afastamento de Buffett pai marca o fim de uma carreira corporativa “monumental”, mas não de sua sombra sobre a Berkshire. Tom Russo, sócio da Gardner, Russo & Quinn, lembra uma lição de 1983, passada a estudantes da Stanford Business School: “não se faz um bom negócio com uma pessoa ruim”. Na avaliação dele, a clareza moral continuará sendo filtro decisivo para aquisições e contratações.
Legado em transição e os próximos testes
A combinação de permanência e renovação busca acalmar o mercado, que não deseja grandes guinadas na companhia. Analistas destacam que a força histórica da Berkshire nasce justamente de sua aversão a mudanças bruscas e da confiança quase religiosa nos princípios de Buffett.
Ao mesmo tempo, o conglomerado encara um cenário competitivo diferente daquele de 1965, quando Warren assumiu a antiga fabricante de têxteis para transformá-la em gigante multissetorial. Taxas de juros mais altas, digitalização acelerada e demandas socioambientais pressionam resultados e obrigam revisões periódicas de estratégia. Se Howard e Abel conseguirão equilibrar inovação e ortodoxia é a grande pergunta que paira sobre Omaha. Por ora, investidores aceitam a aposta — mas, como observou o veterano Tom Russo, “este é um território novo”.
