A gravação de uma câmera oculta colocou luz sobre o momento exato em que a professora Simone Marques da Silva, 46 anos, entrega um pacote volumoso ao então secretário especial de Juventude de Ipojuca, Diego Fernandes de Oliveira Araújo, o “Diego Araçá”. Horas depois dessa cena, registrada em 2025, a educadora seria alvejada a tiros, crime que transformou uma apuração de corrupção em caso de possível queima de arquivo.
As imagens, anexadas ao inquérito da Polícia Civil de Pernambuco, reforçam a suspeita de que Simone participava do esquema de desvio de emendas parlamentares que sangrou R$ 27 milhões dos cofres municipais. Ao mesmo tempo, indicam que ela passou a chantagear políticos e operadores quando percebeu que as investigações avançavam.
Imagens revelam rotina de repasses em espécie
No vídeo obtido com exclusividade pela investigação, Simone aparece de camisa azul e calça branca entrando em uma das salas da Secretaria de Juventude. Nas mãos, carrega um embrulho verde, descrito pelos peritos como compatível com maços de cédulas. Na porta, é recebida por Diego Araçá, que fecha a porta logo em seguida. Para delegados que conduzem a Operação Alvitre, a cena reforça relatos de ex-funcionários sobre remessas frequentes de dinheiro vivo vindas de entidades contratadas.
A reportagem tentou localizar Araçá, que não ocupa mais cargos na prefeitura, mas não obteve retorno. O espaço permanece aberto para manifestação.
Assassinato que mudou o rumo do caso
A morte de Simone Marques, em outubro de 2025, provocou uma guinada na Operação Alvitre. Dois dias antes de ser morta, ela procurara a Delegacia de Porto de Galinhas para falar sobre as fraudes, alegando ter gravações de áudio e vídeo que “derrubariam gente grande”. O depoimento foi remarcado pelo delegado Ney Luiz Rodrigues para a manhã seguinte. Simone não voltou: foi executada pouco depois de sair de casa.
Ao investigar o assassinato, policiais descobriram que a professora também lucrava com o esquema. A Associação Cultural Social e Recreativa MUDART, fundação que ela presidia desde 2012, só entre 2017 e 2024 recebeu R$ 1,2 milhão em recursos públicos. Mesmo obtendo parte do dinheiro, Simone teria ameaçado divulgar as gravações caso não fosse mantida no circuito das propinas, hipótese que hoje sustenta a linha de “queima de arquivo”.
Como funcionava a engrenagem de fraudes
Entidades de fachada
Relatórios do Tribunal de Contas de Pernambuco mostram que as verbas saíam da Câmara e da Prefeitura de Ipojuca para ONGs de fachada. A MUDART funcionava em uma residência simples, sem funcionários fixos nem estrutura para projetos sociais. Mesmo assim, saltou de uma média anual de R$ 100 mil entre 2017 e 2019 para R$ 518 mil somente em 2024.
Outra entidade investigada, a M. A. da Silva Festas, declarada como empresa de eventos, recebeu R$ 480 mil para tocar programas comunitários batizados de “Sopro de Esperança” e “Buscando Talentos”. Em vistoria, os investigadores encontraram apenas cadeiras empilhadas e documentos espalhados, sem qualquer sinal de atividade social.

Imagem: Internet
Emendas concentradas na Secretaria de Juventude
Grande parte dos repasses de 2024 saiu de emendas parlamentares impositivas e foi liberada diretamente pela Secretaria de Juventude chefiada por Diego Araçá. Somente naquele ano, a pasta destinou R$ 480 mil à MUDART, verba carimbada por três vereadores: Flávio Henrique do Rêgo Souza (Emenda nº 16/2024), Genival Ferreira da Silva (nº 024/2024) e Gilmar Costa da Silva (nº 68/2024). O mesmo modelo irrigou o Centro de Promoção à Infância e ao Adolescente (CPIA), que recebeu R$ 338 mil.
A polícia identificou ainda movimentações atípicas de R$ 16 milhões na conta de uma servidora fantasma lotada no gabinete de Gilmar Costa. O dinheiro circulava por contas de advogados, contadores e operadores que, a cada etapa, retinham porcentagens antes de devolver parte aos próprios políticos.
Trajetória política e histórico violento de Diego Araçá
Servidor efetivo do estado como professor desde 2017, Diego Araçá tornou-se figura influente na articulação política de Ipojuca. Foi assessor especial na Câmara entre 2014 e 2017, concorreu a vereador em 2012 e comandou a Secretaria de Juventude em 2020, retornando ao cargo entre 2021 e 2024. Sua carreira, porém, está marcada por episódios de violência na família.
O pai de Diego, Antônio Fernandes de Araújo, é réu por homicídio qualificado na Paraíba e foi apontado como executor, em 2003, do assassinato de Cristiane de Lima Santos, supostamente a mando do ex-vereador José Apolinário de Oliveira, o “Bobinha”, avô de Diego. A genealogia conflagrada reforça, para os investigadores, o potencial de retaliação dentro do clã.
As três fases da Operação Alvitre
- 1ª fase – Outubro de 2025: cumpriu mandados de prisão contra três envolvidos e tornou Simone Marques testemunha-chave. Foi quando surgiram as primeiras provas de entidades sem capacidade técnica.
- 2ª fase – Novembro de 2025: o então presidente da Câmara, Flávio do Cartório (PSD), e o vice, Professor Eduardo (PSD), foram flagrados com maços de dinheiro em um supermercado de Boa Viagem. Ambos perderam os cargos.
- 3ª fase – Setembro de 2026: 13 mandados de busca e apreensão atingiram os atuais presidente e vice da Câmara, Irmão Genival (PSD) e Gilmar Costa (Republicanos). Houve bloqueio de bens, mas nenhuma nova prisão.
Mesmo após três etapas, a polícia e o Ministério Público continuam rastreando o destino final dos R$ 27 milhões. Relatórios de inteligência permanecem sob sigilo, mas peritos já identificaram imóveis, veículos e investimentos que podem ter sido adquiridos com o dinheiro das emendas.
A expectativa é de que novas denúncias sejam oferecidas até o fim do ano. Paralelamente, a Delegacia de Homicídios de Ipojuca mantém aberto o inquérito sobre o assassinato de Simone Marques, considerado o elo mais sensível da trama de corrupção que abalou a política local.
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