O presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, afastou publicamente a possibilidade de a vereadora cearense Priscila Costa integrar a chapa de Flávio Bolsonaro como vice-presidente, classificando a especulação como “bobagem”. A declaração foi feita à GloboNews, a menos de uma semana do encerramento das convenções partidárias, ampliando a pressão interna sobre o pré-candidato, que ainda não definiu o nome que o acompanhará na disputa pelo Palácio do Planalto.
Com o calendário eleitoral correndo, a fala de Valdemar acentua duas frentes de tensão: de um lado, a preferência de Flávio por uma mulher que ajude a reduzir sua rejeição entre o eleitorado feminino; de outro, a tentativa do comando do PL de equilibrar interesses regionais, alianças estaduais e a influência da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, principal fiadora da candidatura de Priscila Costa dentro do partido.
Bastidores do veto e pressão do calendário
O prazo final para registro de chapas termina em 5 de agosto. Até lá, Flávio Bolsonaro precisa conciliar preferências pessoais, pesquisas internas e acordos partidários. Nos corredores do PL, dirigentes admitem que o plano original era apresentar a chapa completa ainda em julho, mas a resistência de legendas convidadas — especialmente Republicanos e União Brasil — e as divergências nos palanques regionais adiaram o anúncio.
A exclusão sumária do nome de Priscila Costa ocorre apesar de a vereadora ter sido, segundo integrantes do núcleo de campanha, testada em levantamentos qualitativos encomendados pelo partido. Os números mostraram bom desempenho entre evangélicos e no eleitorado feminino do Nordeste, credenciais consideradas estratégicas. Ainda assim, Valdemar avaliou que a indicação fragilizaria acordos costurados no Ceará, onde o PL selou aliança com Ciro Gomes (PSDB) para o Senado, preterindo a própria Priscila.
Ficou a mágoa no Ceará
- Priscila Costa é vice-presidente nacional do PL Mulher e buscava candidatura ao Senado pelo estado.
- A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro atuou nos bastidores a favor da aliada, mas perdeu a queda de braço para Valdemar e para Flávio, que defenderam o nome de Alcides Fernandes em aliança com Ciro.
- O episódio provocou ruído entre Michelle e o enteado, que tentou contemporizar, agradecendo publicamente à madrasta, mas mantendo a decisão.
Outros cotados: Daniella Marques e Rogério Marinho
Sem Priscila no páreo, duas alternativas permanecem sobre a mesa. A favorita de Flávio é Daniella Marques, ex-presidente da Caixa Econômica e atual assessora econômica da campanha. Ela discursou ao lado do pré-candidato na convenção do PL, no último sábado, sinalizando que a articulação avançou. A barreira, contudo, é política: Daniella é filiada ao Republicanos, cujas lideranças negociam contrapartidas em estados como Mato Grosso e Sergipe para liberar apoio nacional.
Enquanto Marcos Pereira, presidente do Republicanos, consulta suas bancadas regionais, o senador Rogério Marinho (PL-RN) surge como carta de segurança. Conhecido por seu trânsito entre parlamentares e por ter boa avaliação no setor produtivo, Marinho agrada ao núcleo duro do partido, mas não resolve o desafio de ampliar o apelo junto às mulheres, ponto sensível monitorado pelos estrategistas de comunicação.
Tempo de televisão na balança
Além do perfil do vice, pesa na decisão a quantidade de segundos de propaganda eleitoral que cada sigla pode agregar. O Republicanos oferece cerca de 30 segundos diários, tempo considerado precioso num cenário em que a Federação União Progressista (União Brasil+PP) e o MDB optaram pela neutralidade. Caso Flávio feche com um nome puro-sangue do PL, sua coligação perderia exposição em cadeia nacional, dificultando a tarefa de reduzir desvantagens nas pesquisas.
Atuação de Michelle Bolsonaro
Embora Valdemar tenha minimizado a hipótese de Priscila Costa, a influência de Michelle Bolsonaro na campanha permanece, sobretudo na interlocução com igrejas evangélicas. A ex-primeira-dama encabeça caravanas, grava vídeos de apoio e participa de lives direcionadas a mulheres. Assessores relatam que, sem um vice identificado com esse segmento, o ex-presidente Jair Bolsonaro — principal cabo eleitoral do filho — teme erosão de base numérica que foi crucial em 2022.
Michelle, porém, tem evitado novos choques com Valdemar. O episódio do Ceará, onde não conseguiu sustentar a candidatura de sua protegida, serviu de alerta para que o grupo bolsonarista concentre energia em agendas de rua e redes sociais, deixando a engenharia partidária para o comando do PL.
Por que o martelo ainda não foi batido
- Disputa por espaços regionais: Republicanos exige palanques unificados em ao menos três estados; PL não quer ceder candidaturas bem posicionadas.
- Perfil de vice ideal: Flávio prefere figura feminina, evangélica e do Nordeste; bancadas do PL pedem quadro com experiência administrativa.
- Tempo de TV: Cada segundo conta em campanha curta; legendas médias cobram contrapartidas altas.
- Rejeição feminina: Pesquisas internas apontam diferença de até 15 pontos na intenção de voto entre homens e mulheres; escolha do vice é vista como chance de reduzir a lacuna.
Como fica Priscila Costa
À GloboNews, a vereadora disse que “fica feliz” por ter o nome lembrado, mas reforçou estar focada na candidatura a deputada federal. Segundo ela, não houve convite formal nem consulta sobre desistir da disputa proporcional. Pessoas próximas relatam que Priscila já pediu votos para si nos mesmos eventos em que defendeu Flávio, estratégia considerada incompatível com a função de vice.

Imagem: apoio e chora ao falar do pai
No PL, aliados de Valdemar argumentam que escalar alguém em campanha própria para o cargo majoritário poderia gerar contestação jurídica ou críticas de oportunismo. Ainda assim, o fato de seu nome ter sido testado em pesquisas é interpretado como carta na manga para vagas no ministério, caso Flávio vença.
Efeitos colaterais na base bolsonarista
A não indicação de Priscila pode desanimar parte do eleitorado evangélico nordestino, base que ajudou a empurrar Jair Bolsonaro para o segundo turno em 2022. Por outro lado, dirigentes defendem que a presença de Ciro Gomes na coligação estadual do Ceará tende a compensar o desgaste, oferecendo palanque competitivo ao PL em um estado historicamente adverso para a direita.
Próximos passos e cenário até 5 de agosto
Com o cronômetro eleitoral em contagem regressiva, Valdemar Costa Neto convocou reuniões diárias da executiva para avaliar cenários. A ala política defende costuras de última hora com siglas que possam somar tempo de TV, mesmo que sem participação na vice. Já os estrategistas de marketing sustentam que o anúncio do vice precisa ocorrer no máximo 48 horas antes do prazo final, para evitar impugnações ou desistências de última hora.
Flávio Bolsonaro, por sua vez, tenta equilibrar o pragmatismo de Valdemar com a imagem de “renovação” que deseja projetar. Em conversas reservadas, admite que Daniella Marques seria a escolha “natural”, mas teme ser acusado de ingerência de banqueiros na chapa, rótulo criado por adversários desde a passagem dela pela Caixa.
Independentemente do desfecho, a fala de Valdemar sinaliza que o PL não abrirá mão da autonomia sobre a composição da chapa. Ao rotular a especulação envolvendo Priscila Costa como “bobagem”, o presidente do partido reitera que a decisão final passa por critérios eleitorais e estratégicos, não por apelos pessoais — nem mesmo quando partem de Michelle Bolsonaro.
Repercussão no Congresso
Líderes da bancada do PL na Câmara afirmam que a opção por um vice de fora do partido exigirá compensações, como cargos em eventual governo ou relatorias estratégicas. Já no Senado, parlamentares avaliam que a indicação de Rogério Marinho fortaleceria a bancada, mas reconhecem que o peso eleitoral de uma mulher na chapa é incontestável.
Enquanto o martelo não bate, Valdemar se mantém no centro do tabuleiro, calculando prós e contras de cada nome. A uma plateia de deputados, resumiu: “Vice não ganha voto, mas pode fazer perder. Por isso escolhemos com frieza”. Até 5 de agosto, a temperatura promete subir.
