Jared Kushner e Steve Witkoff, emissários escolhidos por Donald Trump, devem pousar em Moscou neste sábado (5) e, poucas horas depois, seguir para Kiev. A missão, segundo o presidente norte-americano, carrega uma “ideia para a paz” capaz de encerrar a guerra que já ultrapassa quatro anos. “Há boa chance de sucesso”, disse Trump, sem detalhar o conteúdo do plano.
O envio dos dois empresários, ambos próximos do republicano, inaugura a mais ousada iniciativa diplomática de Washington desde a volta de Trump à Casa Branca, em janeiro de 2025. O movimento reacende expectativas – e ceticismo – após rodadas anteriores que travaram diante de exigências territoriais da Rússia e da recusa ucraniana em ceder terra em troca de cessar-fogo.
Itinerário relâmpago
De acordo com a agenda revelada por assessores da Casa Branca, Kushner e Witkoff terão reunião no Kremlin já na tarde de sábado com o presidente Vladimir Putin e gente do alto escalão da chancelaria russa. No domingo (6), a dupla deve atravessar a fronteira rumo à capital ucraniana, onde será recebida pelo presidente Volodymyr Zelensky no palácio Mariyinsky.
Será a primeira visita de ambos a Kiev desde o início da invasão, em fevereiro de 2022, fato simbólico numa cidade cicatrizada por bombardeios quase diários. Moscou, ao contrário, é terreno conhecido para os dois enviados, que estiveram lá em janeiro passado sondando “condições mínimas” para um pacto, segundo fontes diplomáticas.
Cessar-fogo temporário sugerido por Zelensky
Antecipando eventuais sinais de boa-vontade, Zelensky propôs que Rússia e Ucrânia suspendam ataques aéreos durante todo o fim de semana. “Não lançaremos nenhum míssil, e esperamos tratamento equivalente”, declarou na noite de sexta-feira. Ele também ordenou às Forças Armadas que se mantenham em “postura defensiva”, mas prontas para reagir se Moscou não aderir ao descanso das armas.
O Kremlin, até a madrugada de sábado, não havia confirmado a chegada dos americanos nem respondido ao apelo ucraniano. Poucas horas depois do pedido de trégua, um míssil russo atingiu a cidade de Kamianske, na região de Dnipropetrovsk, matando pelo menos quatro civis e ferindo outros cinco, segundo autoridades locais. O ataque foi interpretado em Kiev como sinal de que a contra-parte não pretende aquietar os céus.
Bastidores em Washington e Moscou
A viagem de Kushner e Witkoff acontece logo após a presença, considerada incomum, do diretor da CIA, John Ratcliffe, em Moscou na semana passada. O Kremlin confirmou apenas encontros “técnicos” com serviços de inteligência, enquanto Trump minimizou o deslocamento chamando-o de “semirrotineiro”. Analistas em Washington veem correlação direta: Ratcliffe teria levado esboços preliminares do que agora se converte em proposta oficial.
Desde que reassumiu o Salão Oval, Trump tem buscado protagonismo no conflito euro-asiático. Ele autorizou ao menos três esforços de mediação: o primeiro, em fevereiro de 2025, parou quando Kiev recusou debatê-lo na véspera das eleições legislativas; o segundo, em novembro, ruiu depois que Moscou exigiu reconhecimento da anexação definitiva de Donetsk e Lugansk; o terceiro, em abril de 2026, não ganhou tração por divergências internas no Conselho de Segurança da ONU.
O que pode estar sobre a mesa
- Zona desmilitarizada de 30 km ao longo das linhas atuais de frente;
- Garantia de neutralidade da Ucrânia fora de alianças militares por período determinado;
- Reconstrução internacional financiada por consórcio que incluiria Estados Unidos, União Europeia e Arábia Saudita;
- Consulta popular supervisionada por organismos da ONU em áreas ocupadas, ainda sem data definida.
Nenhum desses pontos foi confirmado oficialmente, mas diplomatas europeus relatam que esboços circulam discretamente entre capitais do G7.
Escalada bélica recente
Nesta sexta-feira (4), Kiev voltou a ser sacudida por um drone kamikaze que atingiu o prédio sede do Serviço de Segurança da Ucrânia (SBU), em pleno centro histórico. A aeronave não tripulada, segundo Zelensky, mirava o gabinete do chefe da agência, Vasyly Poklad, que não se encontrava ali no momento do impacto. Quinze pessoas ficaram feridas.

Imagem: Internet
O atentado reforça a tendência de Moscou de concentrar fogo em alvos simbólicos da infraestrutura ucraniana. Só nas últimas três semanas, foram registradas mais de 60 incursões de drones e mísseis contra Kiev, Kharkiv e Odessa, alternando bombardeios diurnos e noturnos para manter a população em permanente alerta aéreo.
Resposta ucraniana atinge o interior da Rússia
A Ucrânia, por sua vez, expandiu o raio de alcance de seus próprios drones. Instalações de logística militar em Voronej, depósitos de combustível em Kursk e torres de radar em Belgorod sofreram danos significativos em julho e agosto. Zelensky afirmou, nesta semana, que “o espaço aéreo russo deixou de ser seguro”, declaração que Putin classificou de “terrorista”.
A troca de acusações transbordou para organismos multilaterais: Kiev notificou formalmente a Organização da Aviação Civil Internacional (OACI) sobre a nova zona de risco, enquanto Moscou exigiu que a entidade “condene” a suposta intimidação ucraniana.
Pressão doméstica sobre Trump
Internamente, o republicano sente a tensão de um ano eleitoral para a Câmara dos Representantes. Pesquisas apontam que, embora a maioria da opinião pública apoie esforços pela paz, menos de 40% confia que Trump possa manter equilíbrio entre os interesses de Kiev e Moscou. Parlamentares democratas questionam a escolha de enviados sem cargo oficial no governo – Kushner é genro do presidente e investidor imobiliário; Witkoff, também do ramo, foi doador de campanha.
Aliados do mandatário argumentam que a informalidade pode, ao contrário, facilitar acordos explorando a relação pessoal de Kushner com o príncipe saudita Mohammed bin Salman e o trânsito de Witkoff entre magnatas russos do setor de energia. A Casa Branca, contudo, não divulgou qualquer cronograma de acompanhamento posterior às conversas deste fim de semana.
O que esperar dos próximos dias
Especialistas em resolução de conflitos apontam que, mesmo que Putin e Zelensky aceitem um cessar-fogo temporário, a etapa crítica envolverá verificação em campo e garantias de longo prazo. Para a Ucrânia, o desafio será assegurar que pausa das armas não congele a linha de frente em condições desfavoráveis. Para a Rússia, o risco é conceder tréguas sem arrancar reconhecimento político dos territórios que controla.
Caso a rodada engrene, fontes próximas à ONU cogitam convocar conferência em Genebra ainda em setembro. Se falhar, a expectativa é de recrudescimento da guerra durante o inverno, período em que a Rússia historicamente intensifica ataques à infraestrutura energética ucraniana.
Agenda prevista
- Sábado, 5/9 – Reunião Kushner/Witkoff-Putin no Kremlin
- Domingo, 6/9 – Encontro Kushner/Witkoff-Zelensky em Kiev
- Segunda, 7/9 – Retorno dos enviados a Washington para relatório a Trump
- Sexta, 11/9 – Esperada sessão de emergência do Conselho de Segurança da ONU
Até lá, todas as atenções permanecem voltadas para a capital russa e a ucraniana, onde o silêncio — ou o estrondo — das próximas 48 horas servirá de termômetro para a viabilidade do novo plano de paz idealizado pela Casa Branca.