Dias depois do colapso de uma geleira na fronteira entre o Nepal e o Tibete, escavadeiras seguem rasgando a montanha em busca de centenas de operários encurralados em túneis de uma usina hidrelétrica. A avalanche de gelo, lama e pedras, ocorrida na quarta-feira (26), já provocou pelo menos 903 mortes em solo nepalês e deixou 4.247 pessoas desaparecidas, segundo balanço oficial divulgado nesta segunda-feira (31).
As autoridades veem as próximas horas como decisivas: seis galerias permanecem completamente bloqueadas por detritos, transformando cada metro avançado numa disputa direta contra o tempo, o cansaço e o clima instável do Himalaia.
Resgate sob pressão de gelo, lama e rochas
Militares e engenheiros civis do Nepal dividem espaço com contingentes vindos do Tibete e da Índia em um canteiro de obras que virou cenário de guerra. Holofotes improvisados iluminam as frentes de escavação durante toda a madrugada, enquanto pás mecânicas retiram camadas de terra compactada com gelo. A maior preocupação é manter acesso seguro às galerias sem provocar novos desabamentos.
Entraves mecânicos e naturais
- Lama espessa e rochas de grande porte se acumulam nas entradas, exigindo maquinário pesado e trabalho manual simultâneo.
- Terreno instável: vibrações dos equipamentos podem deslocar ainda mais material, obrigando as equipes a alternar breves paradas técnicas para avaliação de risco.
- Altura do Himalaia aumenta a fadiga dos socorristas, que precisam de pausas regulares para adaptação à menor disponibilidade de oxigênio.
“Uma grande quantidade de detritos foi depositada, o que dificulta muito a abertura dos túneis”, explicou o porta-voz do Exército nepalês, Raja Ram Basnet, resumindo o desafio. Ele afirma que engenheiros testam perfurações laterais como rota alternativa, mas qualquer avanço depende da remoção segura de toneladas de material que selam as passagens originais.
Balanço de vítimas ultrapassa 900 mortos
No Nepal, a contagem oficial já soma 903 mortos, número que pode crescer à medida que as equipes alcançam vales isolados e vilarejos soterrados. Do lado chinês da fronteira, no condado tibetano de Gyirong, as autoridades locais confirmaram 16 óbitos e relataram 546 desaparecidos. O cenário exibe filas de moradores à espera de notícias e helicópteros sobrevoando encostas em busca de sinal de vida.
As perdas humanas concentram-se, sobretudo, em comunidades que viviam abaixo das geleiras desmoronadas. Casas de madeira e pedra foram esmagadas pelo deslizamento, enquanto pontes suspensas — essenciais para o deslocamento regional — simplesmente desapareceram com a força da enxurrada lamacenta.
Ameaça permanente de novos deslizamentos
O colapso da geleira abriu também uma cratera que hoje retém cerca de 2,5 milhões de metros cúbicos de água. Especialistas alertam que, se esse reservatório ceder, pode desencadear efeito em cascata, transbordando lagos localizados rio abaixo e repetindo a tragédia em outros povoados. Monitoramento realizado por cientistas chineses identificou pelo menos oito pontos ao longo do mesmo curso d’água classificados como de risco geológico iminente.
Pesquisadores baseados em Lhasa e Katmandu vêm relacionando a instabilidade das geleiras do Himalaia ao aquecimento global. Segundo eles, o aumento da temperatura média acelera o derretimento, forma bolsões de água no interior do gelo e favorece rupturas súbitas como a que ocasionou a avalanche da semana passada.
Mobilização inédita de recursos
O primeiro-ministro nepalês, Balendra Shah, descreveu o episódio como “um desastre natural devastador e sem precedentes” e destacou que quase 21 mil integrantes das forças de segurança, além de voluntários civis, estão em campo. A logística envolve estradas destruídas, comunicações intermitentes e previsão de chuvas que podem agravar ainda mais o cenário.
Do lado chinês, o presidente Xi Jinping declarou que Pequim está “fazendo todos os esforços possíveis” para encontrar sobreviventes. A China enviou mais de 2.100 socorristas à região, além de cerca de 220 milhões de yuans — o equivalente a US$ 33 milhões — para financiar operações de busca, atendimento médico e abastecimento de itens de primeira necessidade.

Imagem: Internet
Tensão sobre troca de dados climáticos
Apesar da cooperação no resgate, autoridades nepalesas reclamam da falta de transparência chinesa. Integrantes do governo de Katmandu afirmam que Pequim não repassou dados detalhados sobre o comportamento das geleiras, descumprindo acordo assinado no início do ano. Para o Nepal, acesso a informações sobre variações de temperatura e volume dos lagos glaciais poderia ter ajudado a emitir alertas mais cedo e salvar vidas.
Questionados, diplomatas chineses na capital nepalesa não comentaram publicamente a acusação, mas fontes militares envolvidas na operação dizem que o foco imediato segue sendo “procurar cada pessoa ainda viva”.
Imagens que chocaram o país
Filmagens divulgadas por emissoras locais e redes internacionais mostram a força do desastre: blocos de gelo do tamanho de ônibus descendo a montanha, máquinas engolidas pela lama e comunidades inteiras olhando incrédulas para o vazio onde antes havia ruas e plantações. Entre os trabalhadores presos, relatos indicam que muitos ficaram encurralados enquanto executavam manutenção de rotina nos dutos da hidrelétrica.
Para manter as famílias informadas, as autoridades abriram centros de acolhimento em três cidades do noroeste do Nepal. Lá, telões exibem atualizações em tempo real e voluntários organizam doações de alimentos, cobertores e roupas de frio para quem perdeu tudo com a enxurrada.
Próximos passos na luta por sobreviventes
As equipes de engenharia afirmam que, se o tempo permanecer estável, será possível chegar às principais câmaras dos túneis ainda esta semana. A estimativa de sobrevivência em ambientes subterrâneos frios, mas abrigados, alimenta a esperança de que grupos de operários tenham resistido graças a bolsões de ar e suprimentos emergenciais.
Ao mesmo tempo, geólogos monitoram minuto a minuto o lago que se formou na cratera da geleira. Caso o nível suba abruptamente, sirenes instaladas provisoriamente em vilarejos vizinhos devem disparar, orientando uma evacuação em massa antes que nova onda de lama e pedras se desprenda morro abaixo.
Entre imprensa, autoridades e moradores, a palavra que rege cada passo agora é urgência. Na montanha, qualquer centímetro de rocha removido pode significar a diferença entre encontrar vida ou apenas contabilizar mais vítimas.