Na mesma terça-feira em que exaltou o endurecimento penal de El Salvador, o senador Flávio Bolsonaro voltou a minimizar as suspeitas que cercam o financiamento do documentário “Dark Horse”, bancado por Daniel Vorcaro — ex-dono do extinto Banco Master e pivô do maior escândalo financeiro do país. Em entrevista à TV Record, o parlamentar disse estar “tranquilo” e tratou o caso como “página virada”, apesar de ter prometido, há mais de três meses, divulgar todos os detalhes em 30 dias.
Horas antes, num hotel no centro de São Paulo, Flávio reuniu-se com Gustavo Villatoro, ministro da Justiça e Segurança Pública do presidente Nayib Bukele. O encontro serviu para que o filho do ex-mandatário brasileiro elogiasse o regime de exceção salvadorenho — onde garantias constitucionais estão suspensas, 100 mil pessoas estão presas entre 6,4 milhões de habitantes e denúncias de tortura se acumulam — e justificasse sua tese de que “no Brasil tem pouco preso”.
Financiamento do documentário continua nebuloso
No estúdio da Record, Flávio repetiu que “não houve dinheiro público” no patrocínio de “Dark Horse”. A produção aborda bastidores da campanha do ex-presidente Jair Bolsonaro, mas chamou atenção pelo aporte milionário de Vorcaro, atualmente encarcerado. O banqueiro enriqueceu de forma meteórica com aportes de recursos desviados de órgãos estatais, segundo o Ministério Público, tornando-se protagonista de um episódio descrito por investigadores como o maior rombo financeiro já visto no país.
Em fevereiro, pressionado por reportagens que ligavam o financiamento a possíveis favores políticos, o senador prometeu apresentar, em até 30 dias, documentos que dissipariam qualquer suspeita. Já se passaram 100 dias; nada foi divulgado. Na conversa de ontem, limitou-se a dizer que “a Justiça que decida” e sugeriu que a sociedade deveria encerrar o assunto.
Quem é Daniel Vorcaro
- Ex-controlador do Banco Master, liquidado pelo Banco Central após sucessivos prejuízos.
- Acusado de comprar apoio político por meio de investimentos públicos em suas empresas.
- Preso preventivamente, aguarda julgamento sem data marcada.
Flávio afirma não ver problema em ter recebido recursos de Vorcaro. Contudo, a combinação de silêncio prolongado e proximidade com o empresário deixou arestas no discurso anticorrupção que lhe rendeu votos. Mesmo assim, pesquisas internas indicam que o senador já recuperou a popularidade abalada no início do escândalo, reforçando a estratégia de evitar novos pronunciamentos.
Elogio ao “modelo Bukele”
Horas antes da entrevista televisiva, Flávio foi ao encontro de Gustavo Villatoro. O ministro salvadorenho, peça-chave do governo Bukele, viaja a vários países latino-americanos para promover a política de “tolerância zero” contra o crime. O senador saiu da reunião afirmando que El Salvador “implementou um dos maiores e mais eficazes resgates de soberania” e que “devolveu a segurança pública para o povo deles”. Segundo ele, o número de presos no Brasil é “baixo” por causa de uma “legislação frouxa”.
Encontro reservado em São Paulo
O evento no centro da capital paulista não foi aberto à imprensa. Participaram empresários e políticos alinhados à direita, interessados em conhecer detalhes da chamada “guerra contra as gangues” conduzida por Bukele desde 2022. Não houve anúncio de acordos formais, mas Flávio declarou que pretende “levar lições” do país centro-americano para o debate legislativo brasileiro.

Imagem: Internet
Comparação com a realidade brasileira
O discurso do senador esbarra em números oficiais. Segundo o Anuário do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o Brasil abriga cerca de 965 mil pessoas privadas de liberdade — a terceira maior população carcerária do planeta. A taxa de crescimento é de 3,3% ao ano desde 2010, e 28% dos presídios operam acima da capacidade.
Já El Salvador, com 6,4 milhões de habitantes, prende aproximadamente 100 mil indivíduos, proporção inédita no continente. O país vive sob um regime de exceção renovado sucessivamente pelo Congresso, que retirou direitos básicos como a necessidade de mandado judicial e o acesso pleno à defesa. Organizações humanitárias relatam casos de tortura, mortes em custódia e detenções por mera suspeita.
Dados contestam narrativa de “cadeias vazias”
Ao dizer que “tinha que ter mais preso” no Brasil, Flávio ignora não só a superlotação real, mas também os alertas sobre o impacto financeiro e social de ampliar o encarceramento sem reformar o sistema. Ainda assim, o modelo salvadorenho se tornou vitrine para pré-candidatos conservadores na América Latina, na expectativa de capitalizar a popularidade interna de Bukele — eleito em 2019 e agora autorizado pela Justiça local a buscar reeleições indefinidas.
Nos corredores da política externa, a admiração declarada por líderes como Donald Trump e, agora, por figuras do bolsonarismo, reforça a imagem de El Salvador como uma “miragem autoritária”: alta aprovação popular, segurança aparente e, nos bastidores, recuos democráticos. A aproximação vocalizada por Flávio Bolsonaro adiciona pressão sobre o debate brasileiro, onde o tema da segurança costuma render dividendos eleitorais, mas raramente avança em reformas estruturais.
No ponto em que os dois assuntos se cruzam — o patrocínio suspeito de “Dark Horse” e o afago ao regime de exceção — permanece a estratégia de comunicação do senador: falar apenas o indispensável, evitar contradições e confiar na falta de apetite de parte da imprensa para perguntas que exijam explicações detalhadas. Até agora, funcionou. Resta saber se o silêncio seguirá blindado pela pauta da lei e da ordem ou se, em algum momento, o caso Vorcaro voltará ao centro da discussão pública.
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