Uma sucessão de processos cíveis em São Paulo e Minas Gerais tenta cobrar valores que, segundo credores, nunca foram pagos pela empresária e lobista Roberta Luchsinger, herdeira do banco Credit Suisse e investigada pela Polícia Federal. Prestadores de serviço e um investidor de cinema relatam perdas que incluem desde móveis reformados a uma fazenda dada em garantia de empréstimo. Nos autos, oficiais de Justiça afirmam ter dificuldade para localizar bens ou a própria devedora.
Nos mesmos processos, Luchsinger declarou não ter recursos para arcar com as custas judiciais e requereu gratuidade em pelo menos duas ações, alegando “hipossuficiência financeira”. Os credores contestam, citando viagens ao exterior e fotos em eventos de luxo publicadas pela empresária nas redes sociais.
Calote em projeto de filme e perda de fazenda
O maior rombo apontado envolve um projeto cinematográfico orçado em US$ 4 milhões. Segundo o empresário mineiro Lauro Vallejo, Roberta e uma sócia o convenceram a bancar um empréstimo-ponte de US$ 300 mil até que, supostamente, um fundo do Bahrein liberasse o financiamento principal. Para assegurar a operação, Vallejo colocou como garantia uma fazenda no interior de Minas Gerais. O dinheiro nunca foi ressarcido e a propriedade acabou executada pelo credor financeiro.
“Não era só a terra, era o sonho de toda uma vida”, lamenta Vallejo nos autos. Ele cobra a devolução integral da quantia mais indenizações por perdas e danos. A defesa de Luchsinger ainda não se manifestou nesse processo específico.
Dificuldade para penhora
Oficiais de Justiça que tentaram cumprir mandados de penhora em endereços de Roberta em São Paulo relataram ausência de bens de valor, veículos ou saldos bancários. Tentativas de bloqueio pelo sistema BacenJud também retornaram sem êxito. Uma decisão de primeira instância chegou a apontar “indícios de ocultação patrimonial”, mas não houve avanços porque não foram localizados ativos em nome da empresária.
Trabalho de tapeceiro também ficou sem pagamento
Outro caso em tramitação desde 2011 parte do tapeceiro Nilton Cézar Pires, contratado para reformar móveis por R$ 61 mil. Segundo ele, todo o serviço foi entregue, mas nenhuma parcela foi quitada. “De sofá a cama, fizemos tudo. Só restou procurar a Justiça”, disse o profissional em depoimento anexado ao processo. Sentença favorável ao tapeceiro reconheceu o crédito, mas, novamente, não houve bens suficientes para satisfazer a execução.
Ponte com o poder político e investigações da PF
Além das dívidas, Luchsinger está na mira da Operação Sem Desconto, que apura suposto esquema de descontos irregulares no INSS estimado em R$ 6,3 bilhões entre 2019 e 2024. A empresária é investigada pela movimentação de recursos e constituição de companhias que, segundo a PF, serviriam para lavar dinheiro do lobista Antônio Carlos Camilo Antunes, o “Careca do INSS”, preso desde setembro de 2025.
Relatórios policiais mostram que a RL Consultoria e Intermediações Ltda., pertencente a Roberta, recebeu cerca de R$ 1,5 milhão de empresa apontada como de fachada do grupo de Antunes. Em dezembro de 2025, mandados de busca e apreensão recolheram documentos e computadores em endereços ligados à empresária. Até o momento, ela não foi denunciada formalmente, mas permanece como investigada.
Relação com Lulinha e citações a Lula
O caso ganhou caráter político porque Roberta é apontada como amiga de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho mais velho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Em conversa interceptada pela PF, ela afirma ter apresentado Lulinha ao grupo de Antunes. Mensagens obtidas pela revista Veja também mostram a empresária relatando diálogos com o próprio presidente, a quem atribui a pergunta: “Onde você quer ficar?”, sinalizando interesse em cargo no governo.

Imagem: Internet
Durante sabatina à TV Globo, Lula declarou desconhecer Luchsinger. Perguntado sobre eventual envolvimento do filho, o presidente reiterou que não protegerá nenhum parente caso se comprove ilícito. “Se meu filho errou, pagará como qualquer cidadão brasileiro”, disse.
De herdeira suíça a candidata petista
Filha do ex-acionista do Credit Suisse, Jorge Luchsinger, Roberta ganhou projeção em 2017 ao anunciar uma doação milionária à campanha de Lula, então preso na Operação Lava Jato. No ano seguinte, concorreu a deputada estadual pelo PT em São Paulo, mas somou pouco mais de 6 mil votos e não se elegeu.
Nos bastidores de Brasília, circula há anos como lobista em setores como defesa, telecomunicações e agora cannabis medicinal, foco da investigação que envolve Lulinha. Fotos publicadas em 2022 mostram encontros com Lula durante a corrida eleitoral; em uma delas, Roberta escreveu “foto da esperança” na legenda.
Pedido de gratuidade sob contestação
A estratégia de pleitear justiça gratuita espantou parte dos credores, que anexaram postagens da empresária em viagens internacionais e festas de luxo. Em um dos processos, o juiz indeferiu o benefício ao concluir que o “padrão ostentado nas redes sociais contradiz a alegação de carência financeira”. Mesmo assim, a cobrança não avançou por falta de bens identificados.
Próximos passos nos tribunais
Os processos seguem em fases distintas. Em Minas Gerais, Lauro Vallejo tenta rescindir a execução da fazenda para reaver a propriedade ou obter indenização equivalente. Já em São Paulo, o tapeceiro Nilton aguarda nova tentativa de bloqueio online após recentes mudanças na legislação que ampliaram o cruzamento de bases de dados fiscais.
Na esfera criminal, a PF deve concluir até o fim do ano o inquérito sobre o esquema no INSS. Dependendo das conclusões, Roberta pode ser denunciada por lavagem de dinheiro e associação criminosa. Advogados consultados lembram, porém, que provar participação ativa é mais complexo do que responsabilizar quem apenas empresta contas ou razão social, ponto que a defesa de Luchsinger deve explorar.
Silêncio da defesa
A reportagem enviou questionamentos à assessoria jurídica de Roberta Luchsinger sobre os processos cíveis e a investigação federal, mas não obteve resposta até o fechamento deste texto. O espaço permanece aberto para futuras manifestações.
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