Quase um terço das armas de CACs está com registro vencido, revela Anuário da Segurança 2026

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    O Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) constatou que 30% do arsenal pertencente a Caçadores, Atiradores e Colecionadores (CACs) circula hoje com certificados expirados. O dado faz parte do Anuário da Segurança Pública 2026 e equivale a aproximadamente 480 mil armas cujo paradeiro já não é conhecido com precisão pelos órgãos de controle.

    Especialistas alertam que a falha na atualização de registros abre brechas para desvios, repasses informais e até a migração de armamentos para a criminalidade. A lacuna ocorre justamente no segmento que mais expandiu a posse de armas nos últimos anos: entre 2021 e 2022, auge da flexibilização, mais de meio milhão de novos registros foi autorizado.

    Registros ativos e certificados vencidos

    O Brasil encerrou 2025 com 2,1 milhões de cadastros de armas de fogo em situação regular, distribuídos entre pessoas físicas e jurídicas. Desse total, 1 milhão refere-se a certificados de CACs, que concentram um arsenal de 1,6 milhão de unidades. Quando se somam as armas cujas licenças estão fora da validade, chega-se a 480 mil exemplares sem rastreamento eficaz – praticamente três para cada dez em poder desse grupo.

    Troca de guarda na fiscalização

    Até julho de 2025, a fiscalização sobre CACs cabia ao Exército. A partir dessa data, a Polícia Federal assumiu a responsabilidade, recebendo um acervo de 1,5 milhão de armas já registradas. A migração, porém, ocorreu sem que parte dos proprietários atualizasse seus certificados, criando imediatamente um passivo de registros vencidos.

    Como o arsenal civil cresceu

    Grande parte da expansão ocorreu entre 2019 e 2022, período em que o governo federal publicou decretos que afrouxaram critérios para aquisição e porte. Só em 2022, último ano da gestão Jair Bolsonaro (PL), mais de 580 mil novas armas foram licenciadas no país. Nesse intervalo, a pistola 9 mm deixou de ser peça rara em clubes de tiro para se tornar o modelo mais popular entre civis, superando o tradicional calibre .380 em poder de fogo e capacidade de disparo.

    Impacto da flexibilização

    • Redução de idade mínima para ingressar como atirador esportivo.
    • Aumento do limite de armas por pessoa nas categorias CAC.
    • Menos exigências de justificativa para aquisição de munição.

    A combinação dessas medidas incentivou a corrida às lojas especializadas e estandes de tiro, mas o controle estatal não acompanhou o salto numérico, segundo o FBSP.

    Riscos de rastreamento falho

    David Marques, gerente de programas do Fórum, ressalta que as estatísticas de certificados vencidos expõem um vácuo de informação. “Quando o registro perde a validade, o Estado perde a capacidade de saber se a arma foi vendida, extraviada, furtada ou empregada em crime”, observa. Para ele, regularizar o banco de dados é condição mínima para qualquer política de desarmamento ou de segurança baseada em evidências.

    Possíveis destinos para armas irregulares

    1. Comércio informal entre colecionadores, sem registro de transferência.
    2. Roubo ou furto de residências, clubes de tiro ou transporte.
    3. Desvio intencional para organizações criminosas.
    4. Extravio por perda ou abandono sem comunicação às autoridades.

    Embora seja impossível quantificar quantas armas de CACs já tenham migrado para o crime, o próprio Anuário mostra que as polícias estaduais apreenderam 108.786 armas em 2025, número 5,4% maior que em 2024. Parte desse material tem origem legal, mas passa a abastecer atividades ilícitas após desvios.

    Outros destaques do Anuário 2026

    Violência de gênero em alta

    Os feminicídios romperam um triste recorde: foram quatro mulheres mortas por dia, mesmo com a queda geral dos homicídios. Violência psicológica, perseguição (stalking) e descumprimento de medidas protetivas também cresceram, indicando que o ambiente doméstico segue sendo palco de risco elevado.

    Menor taxa geral de assassinatos desde 2012

    Com 40.775 vítimas, o país atingiu a menor marca de mortes violentas letais em 13 anos. A taxa nacional caiu para 19,1 por 100 mil habitantes, a primeira vez abaixo de 20 desde o início da série histórica. Santa Catarina despontou como o estado mais seguro (7,6 por 100 mil), superando São Paulo, líder desse ranking por quase uma década.

    Atuação policial: letalidade sobe, vitimização cai

    Os óbitos causados por policiais aumentaram 5%, enquanto o número de agentes mortos caiu 3%. A assimetria reforça o debate sobre protocolos de uso da força e programas de proteção à vida de profissionais de segurança.

    Juventude em conflito com a lei

    O total de adolescentes cumprindo medidas socioeducativas despencou 54% em nove anos, chegando a 12,2 mil jovens. Ainda assim, o perfil permanece inalterado: maioria negra (74%), masculina (93%) e entre 16 e 18 anos (76%). Roubo (29%) e tráfico de drogas (28%) lideram os atos infracionais.

    Sistema prisional perto do limite

    Com 964 mil pessoas atrás das grades, o Brasil pode superar a marca de 1 milhão de presos já em 2027 se mantiver o ritmo atual de crescimento (6% ao ano). O dado reforça alertas sobre superlotação, reincidência e custo para os cofres públicos.

    Desafios à frente

    O FBSP defende urgência na revisão das políticas de armas para estancar o avanço de registros vencidos e recuperar a capacidade de rastreamento. Entre as sugestões estão mutirões de recadastramento, prazos mais curtos de validade e integração plena de bancos de dados entre Polícia Federal, Exército, Receita e secretarias estaduais de segurança.

    Sem um inventário confiável, argumenta o Fórum, qualquer tentativa de reduzir crimes contra a vida, ampliar a responsabilização de autores ou garantir que armas permaneçam sob posse de proprietários idôneos ficará comprometida. A fotografia de 2026 mostra que, embora o país exiba progresso em vários indicadores de violência, o controle do arsenal civil ainda é um ponto cego que pode comprometer ganhos recentes.

    Rafael Oliveira é criador de conteúdo digital e editor com foco em entretenimento, reality shows e notícias do mundo dos famosos. Seu trabalho é voltado para levar informações rápidas, atualizadas e relevantes sobre os principais acontecimentos da TV e das redes sociais.