A direção nacional do Podemos enviou nesta segunda-feira (24) uma manifestação oficial ao Supremo Tribunal Federal negando que tenha qualquer participação na definição de emendas ao Orçamento. O documento foi entregue depois de o ministro Flávio Dino fixar, no domingo, prazo para que a sigla explicasse se seus dirigentes interferem na destinação de verbas, sob pena de multa diária de R$ 100 mil.
Além de rechaçar a hipótese de “cotas partidárias”, o partido atribuiu o atraso na resposta a um equívoco processual durante o recesso do Judiciário e solicitou que a penalidade seja revogada. Com a petição, todas as legendas intimadas pelo Supremo — entre elas Solidariedade — já apresentaram esclarecimentos.
Como surgiu a cobrança do Supremo
A ordem de Dino foi motivada por investigações da Polícia Federal que encontraram indícios de indicações ilegais de emendas por pessoas sem mandato parlamentar, como o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, e o ex-deputado Eduardo Cunha. Para conter a prática, o ministro determinou que Câmara e Senado considerem nulos documentos que atribuam poder de indicação a presidentes de partido ou ex-congressistas.
Na decisão, Dino destacou que a prerrogativa de propor emendas é “personalíssima” dos parlamentares e estabeleceu prazo de 24 horas para que Podemos e Solidariedade informassem se seus dirigentes exerciam controle sobre o dinheiro público. O descumprimento acarretaria multa diária de R$ 100 mil e possível intimação pessoal dos presidentes das siglas.
Defesa do Podemos: prerrogativa é do mandato, não do partido
No documento assinado pelos advogados da legenda, o Podemos sustenta que a presidência nacional “não dispõe de cotas, reservas financeiras, limites orçamentários ou listas prévias de destinatários” que envolvam o Orçamento. Segundo a peça, o poder de indicar recursos pertence exclusivamente ao mandato de cada deputado ou senador, nos mesmos termos previstos pela Constituição e pela Lei de Diretrizes Orçamentárias.
Argumentos centrais apresentados ao STF
- Inexistência de qualquer mecanismo formal ou informal que concentre emendas na cúpula partidária.
- A presidente nacional, deputada Renata Abreu, só dispõe das emendas individuais impositivas inerentes ao seu próprio mandato, em igualdade com os demais congressistas.
- Nenhum outro dirigente ou filiado sem mandato tem poder de indicar ou redirecionar recursos federais.
A sigla também explicou que as emendas individuais impositivas — parte do Orçamento cuja execução é obrigatória pelo governo federal — são definidas diretamente no sistema interno do Congresso, sem mediação partidária.
Pedido para suspender a multa e reconhecimento de cumprimento
Ao justificar o atraso, os advogados informaram que a intimação eletrônica chegou durante o recesso judiciário. Como o aviso de recebimento (AR) ainda não constava no processo, a defesa entendeu que o prazo não havia começado a correr. A legenda afirmou ter protocolado a resposta “tão logo” percebeu o engano.
Solicitações endereçadas ao ministro Flávio Dino
- Reconhecimento de que a determinação foi cumprida integralmente.
- Dispensa da necessidade de intimação pessoal da presidente Renata Abreu.
- Revogação da multa diária de R$ 100 mil anteriormente fixada.
Se atender ao pedido, Dino encerrará a fase de esclarecimentos em relação ao partido. A avaliação do ministro ainda não foi divulgada.
Contexto mais amplo no Congresso
O debate sobre a destinação de emendas ganhou fôlego nos últimos anos após revelações de que parlamentares e dirigentes partidários negociavam verbas em troca de apoio político. A prática ficou conhecida como “orçamento secreto” e levou o Supremo a estabelecer regras mais rígidas de transparência.

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A decisão recente de Flávio Dino segue a mesma linha e busca impedir que siglas concentrem recursos em mãos de dirigentes sem mandato, o que desvirtua a finalidade constitucional das emendas. Ao frisar que só congressistas podem indicar os valores, o Supremo tenta delimitar responsabilidade individual e facilitar a fiscalização de possíveis desvios.
Repercussão entre lideranças partidárias
Nos bastidores, dirigentes de outras siglas afirmam que a medida atinge principalmente partidos com presidentes que não se elegeram deputado ou senador, mas continuam influentes no Congresso. A exigência de comprovar que não existe interferência direta pode levar bancadas a rever práticas internas de distribuição de recursos, sobretudo nos casos em que lideranças políticas atuam como cabos eleitorais em seus estados.
Situação das demais legendas notificadas
O Solidariedade protocolou manifestação semelhante à do Podemos, assegurando que seu presidente não controla verbas orçamentárias. Com isso, todas as siglas intimadas já enviaram explicações, e o Supremo deverá se pronunciar nos próximos dias sobre a manutenção ou não das multas.
Enquanto aguarda a palavra final de Flávio Dino, o Congresso continua a liberar emendas referentes ao exercício atual. A área técnica da Câmara informa que qualquer indicação fora dos parâmetros constitucionais será automaticamente rejeitada pelo Sistema Integrado de Administração Financeira (Siafi), em cumprimento à ordem do STF.
Próximos passos
Se o Supremo acolher a tese do Podemos, a corte sinalizará que o partido agiu dentro da legalidade e afastará a penalidade. Caso contrário, pode manter a multa e até ampliar a fiscalização sobre documentos internos da sigla. O encaminhamento escolhido servirá de parâmetro para futuras disputas judiciais envolvendo outras legendas e poderá influenciar a tramitação de projetos que tentam reformular o modelo de execução orçamentária no país.
Para o Tribunal de Contas da União e a Controladoria-Geral da União, que acompanham os desdobramentos, o resultado no STF definirá o alcance da responsabilização de dirigentes que não detêm mandato. Ambos os órgãos já examinam relatórios preliminares da Polícia Federal sobre possíveis irregularidades na alocação de emendas de anos anteriores.
Independentemente do desfecho, a manifestação do Podemos reforça a tese de que só deputados e senadores, no exercício pleno do mandato, podem influir sobre valores do Orçamento. A posição é hoje majoritária no Supremo e tende a consolidar um novo balizamento para a relação entre partidos, bancadas e recursos públicos.
