O holandês Loek Hartog trocou a ambição de vencer por um ato de heroísmo na primeira etapa do China GT em Xangai, sábado (5/9). Vinte minutos depois da largada, ele ignorou a bandeira vermelha, estacionou o Porsche que guiava e correu com um extintor na mão para retirar o britânico Ollie Millroy de uma Ferrari envolta em fogo após um choque em cadeia. O rival, com múltiplas fraturas, foi levado ao hospital consciente e atribuiu a sobrevivência à rapidez do colega.
O resgate, presenciado por equipes e câmeras do circuito de Xangai, colocou em xeque os protocolos de segurança do campeonato. Enquanto Hartog agia, não havia fiscais ou bombeiros no local imediato do acidente, fato que gerou críticas da AAI Motorsports, equipe de Millroy, e levantou dúvidas sobre a permanência do time na competição.
Choque em cadeia e bola de fogo
A partir da 20ª volta, o norte-americano Neil Verhagen disputava posição com o chinês David Chen quando os carros se tocaram na zona de alta velocidade que antecede a reta oposta. Ambos perderam controle, atravessaram a pista molhada pelos restos de borracha e acertaram a lateral da Ferrari 488 GT3 pilotada por Millroy. O impacto desprendeu o tanque auxiliar, provocando vazamento instantâneo de combustível e gerando a labareda que tomou o carro vermelho em poucos segundos.
Os comissários acionaram imediatamente a bandeira vermelha, interrompendo a prova. Ainda assim, os primeiros segundos foram cruciais: com a cabine isolada pelo fogo e a porta travada pela pancada, Millroy não conseguia soltar o cinto de seis pontos. Foi o instante em que Hartog, que vinha logo atrás, percebeu que a situação exigia mais do que cautela.
Resgate em segundos
Sem esperar instruções de rádio, o holandês encostou o Porsche 911 GT3 R fora do traçado, saltou sobre a barreira interna e agarrou o extintor de pó químico fixado ali. Ele descarregou o conteúdo no cofre do motor da Ferrari, abriu espaço entre as chamas e alcançou a trava do cinto de Millroy. O piloto britânico, semiinconsciente pela inalação de fumaça, foi puxado pelos ombros até uma área segura, já com o macacão anti-chamas chamuscado.
Depoimento de Hartog
Horas depois, ao visitar o colega no hospital de Xangai, Hartog descreveu a decisão: “Vi uma bola de fogo no meio da pista e entendi que o piloto não sairia sozinho. Parei o carro automaticamente; não houve tempo para pesar consequências”. Ele confessou ter duvidado por instantes se conseguiria destravar o cinto, “mas pensar que poderia ser qualquer um de nós me deu força”.
Estado de saúde de Millroy
Exames apontaram cinco costelas fraturadas, lesões na clavícula, na mão direita e em um dedo, além de contusão pulmonar. Em mensagem nas redes sociais, Millroy disse não lembrar do momento da colisão, mas prometeu jamais esquecer “o ato de coragem que me deu uma segunda chance”. O britânico continuará em observação ao longo da semana, mas os médicos descartam sequelas permanentes.
Segurança do campeonato sob escrutínio
A demora de pessoal especializado agrava o debate sobre infraestrutura no China GT. Yin Yu Chen, copilota da AAI Motorsports e parceira de Millroy, classificou a resposta como “inaceitável” e anunciou que a equipe considera retirar seus carros das próximas etapas. “A segurança de pilotos e mecânicos precisa estar acima de qualquer troféu”, escreveu ela em comunicado.

Imagem: Internet
Organizadores do campeonato divulgaram nota indicando abertura de investigação interna para apurar o intervalo entre a colisão e a chegada do primeiro caminhão de resgate. Eles admitem rever a distribuição de fiscais ao longo dos 5,4 km do traçado de Xangai, sobretudo em pontos cegos onde a visibilidade dos comissários é reduzida. Representantes da Federação Chinesa de Automobilismo também foram chamados para acompanhar a apuração.
Regulamento prevê ações, mas logística falhou
O livro de regras do China GT exige a presença de um posto de bombeiros a cada 500 metros, além de duas ambulâncias em prontidão. Na prática, porém, a quantidade de veículos de emergência disponíveis no fim de semana foi reduzida por causa de restrições de orçamento, segundo fontes do paddock. O episódio reacende discussões que já tinham vindo à tona em 2025, quando outro incêndio – então sem feridos graves – paralisou a etapa de Zhuhai.
Repercussão no paddock e entre fãs
Outros pilotos usaram as redes para elogiar Hartog. O alemão Maximilian Götz definiu o colega como “exemplo de espírito esportivo”; já o brasileiro Sérgio Jimenez afirmou que “aquele segundo de hesitação é o que separa uma história feliz de uma tragédia”. Nas arquibancadas, torcedores exibiram cartazes improvisados com a frase “Thank you, Loek”, exibidos durante a volta de apresentação da corrida 2, disputada no domingo com grid reduzido.
Equipes rivais também uniram esforços. A Audi Sport disponibilizou dois extintores extras a cada box, enquanto a Aston Martin ofereceu treinamento emergencial aos mecânicos interessados antes da segunda prova. A direção do campeonato planeja transformar as medidas extras em protocolo permanente a partir da próxima etapa, em Chengdu.
Calendário ameaçado
Com a possível saída da AAI Motorsports e a pressão pública, patrocinadores já cogitam rever contratos. Um executivo de marca de lubrificantes, sob anonimato, foi direto: “Imagens de carros queimando não combinam com a vitrine de alta tecnologia que vendemos”. Caso não haja garantias concretas, há risco de redução no grid para as corridas finais.
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