Corie Walsh, de 40 anos, permaneceu impassível enquanto agentes da polícia de Frankfort, na região metropolitana de Chicago, tentavam descobrir por que o pequeno Barrett, de apenas dois anos, jazia sem vida em casa. No meio das perguntas, a mulher passou a entoar, em voz baixa, “Siga a Estrada de Tijolos Amarelos”, tema do clássico “O Mágico de Oz”. O comportamento inusitado engrossou as suspeitas que já pesavam contra ela: homicídio em primeiro grau, segundo aponta a Promotoria do Condado de Will.
O caso ganhou contornos ainda mais dramáticos quando veio a público o teor das declarações de Walsh. A mãe afirmou aos investigadores que o menino seria o “anticristo” e o “demônio”, alegações que, somadas aos indícios de sufocamento apontados na autópsia, sustentaram a decisão do juiz de mantê-la presa sem fiança por representar “risco concreto” ao marido e aos três filhos sobreviventes, entre eles um bebê de oito meses.
Descoberta trágica feita pelos irmãos
Barrett, carinhosamente chamado de “Bear” pela família, foi encontrado inerte pelos dois irmãos mais velhos em 1º de setembro. Desesperadas, as crianças correram até um vizinho, que acionou o serviço de emergência norte-americano (911) e tentou reanimar o garoto. A tentativa foi em vão: paramédicos confirmaram a morte ainda no local. Documentos judiciais divulgados na última semana revelam que o laudo do Instituto Médico Legal atribuiu o óbito à asfixia.
Quando os policiais entraram na casa, Walsh estava vestida, porém submersa em uma banheira parcialmente cheia. Segundo o relatório, ela apresentava cortes superficiais nos pulsos e sinais de hipotermia, sugerindo uma tentativa de suicídio. A própria suspeita teria dito acreditar que havia “eliminado” os quatro filhos e que, em seguida, morreria em seguida para “salvar o mundo do mal” que, na sua visão distorcida, a família representava.
Obsessão por caso famoso em Massachusetts
Promotores alegam que Walsh vinha demonstrando fixação pelo julgamento de Lindsay Clancy, na época acusada de matar os três filhos em Duxbury, Massachusetts. Horas antes da morte de Barrett, a moradora de Frankfort mandou mensagens a amigas especulando sobre o desfecho do processo de Clancy. Num desses textos, classificou o episódio como “homicídio culposo” e sugeriu que, na verdade, o marido da acusada seria o responsável pelas mortes.
A Promotoria interpretou o interesse fora do comum como possível gatilho para o crime. A defesa rebate. “Não existe imitação premeditada”, sustentou o advogado Robert Kerr durante audiência de custódia. Para ele, a cliente sofre de “doença mental grave” e teria passado por “surto psicótico agudo” na manhã do assassinato. A Justiça determinou avaliação psiquiátrica completa.
Pensamento persecutório e plano contra o marido
Além do homicídio de Barrett, os autos mencionam que Walsh teria confessado intenção de envenenar o marido assim que ele retornasse de viagem de trabalho. A substância não foi especificada; tampouco há indícios de que a tentativa tenha sido concretizada. O homem, cujo nome permanece em sigilo para proteger as crianças, estava fora do estado na data da tragédia e colabora com as investigações, segundo a polícia.
Interrogatório: canto, silêncio e frases desconexas
Trechos da gravação do depoimento, anexados aos autos, mostram que a canção de “O Mágico de Oz” surgiu depois que os agentes questionaram diretamente “como Bear morreu”. Walsh inicia a melodia de forma suave, repete versos (“Follow the Yellow Brick Road”) e, em seguida, alterna entre longos períodos de silêncio e afirmações desconexas sobre demônios. Uma das policiais descreve o momento como “assustador e perturbador”.
Especialistas em comportamento criminal ouvidos pela Promotoria apontam que, em alguns quadros psicóticos, é comum a pessoa recorrer a músicas ou frases externas para tentar organizar o pensamento ou afastar vozes internas. O relatório psiquiátrico preliminar, porém, só deve ser concluído na próxima semana.

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Quadro familiar e medidas de proteção
O bebê de oito meses e os outros dois filhos, todos menores de 10 anos, foram colocados sob tutela provisória de parentes enquanto corre o processo criminal. O Ministério Público pediu ordem de restrição para que Walsh não tenha contato, mesmo por carta, com o trio ou com o marido. “Há risco concreto à integridade física e psicológica dessas vítimas potenciais”, argumentou a promotora Lisa Owens.
Em audiência realizada na última quinta-feira, o juiz John Connor concordou, frisando que a ré “precisa de acompanhamento médico intensivo” antes de qualquer possibilidade de liberdade condicional ser cogitada. A próxima etapa do caso, a audiência preliminar, está marcada para 24 de setembro, quando tribunal avaliará se o conjunto de provas apresentado até agora é suficiente para levá-la a julgamento.
Reação da comunidade
Frankfort, município de pouco mais de 20 mil habitantes, amanheceu em choque. Vizinhos descrevem a família Walsh como “reservada, porém cordial”. Alguns relataram ter notado mudanças no comportamento de Corie nos meses que antecederam a tragédia, citando “expressões de medo” e “falas sobre maldições”. A polícia confirmou ter sido chamada à residência em julho para verificar possível briga conjugal, mas nada indicava risco imediato às crianças naquele momento.
Discussão sobre saúde mental materna
O caso reacende o debate sobre transtornos mentais no puerpério e na primeira infância. Pesquisas do National Institute of Mental Health estimam que até 20% das mulheres podem desenvolver depressão pós-parto ou quadros de ansiedade intensa. Em situações extremas, podem ocorrer episódios psicóticos, ainda mais raros, mas potencialmente perigosos, como apontam psiquiatras consultados pela reportagem.
Advogados de defesa já sinalizaram que devem adotar a tese de insanidade, recurso que obriga o júri a avaliar se a ré tinha, ou não, discernimento sobre a ilicitude do ato. Se considerada inimputável, Walsh pode ser encaminhada a hospital de custódia por período indeterminado em vez de cumprir pena em presídio comum.
Críticas à falta de suporte
Organizações locais de prevenção à violência familiar aproveitaram a comoção para cobrar políticas públicas de acompanhamento psicológico gratuito para mães em situação de vulnerabilidade. “Quando saúde mental é negligenciada, tragédias como essa deixam de ser estatística e viram manchete”, afirmou, em nota, a ONG Safe Kids Illinois.
Linha do tempo resumida
- 1º de setembro – Irmãos encontram Barrett sem sinais vitais; vizinho chama o 911.
- Mesma data – Polícia localiza Corie Walsh na banheira; presa em flagrante.
- 2 de setembro – Autópsia confirma asfixia como causa da morte.
- 3 de setembro – Promotoria apresenta denúncia por homicídio em primeiro grau.
- 12 de setembro – Trechos do interrogatório com a música de “O Mágico de Oz” vêm a público.
- 24 de setembro – Audiência preliminar agendada.
Onde buscar ajuda
Casos que envolvem violência doméstica e ideação suicida demandam intervenção especializada. No Brasil, o Centro de Valorização da Vida (telefone 188) oferece atendimento gratuito, 24 horas por dia. Há ainda Centros de Atenção Psicossocial (Caps) espalhados pelo país, além de serviços de acolhimento municipais e estaduais.