Deserções em cascata transformam turnê de Ed Sheeran em batalha política sobre Palestina e antissemitismo

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    A série de megashows que Ed Sheeran promove neste semestre, inclusive com datas no Brasil, virou campo de embate político depois que o rapper norte-americano Macklemore foi retirado do line-up por defender a causa palestina no palco. Desde então, Finneas O’Connell, Lukas Graham, Aaron Rowe e o grupo irlandês Beoga também anunciaram que não farão mais as aberturas, alegando censura e pressão financeira de empresários ligados aos estádios que recebem a turnê.

    O efeito dominó deixou o astro britânico no centro de uma crise pública: acusado de concordar com o afastamento de Macklemore, ele se viu cobrado por liberdade de expressão por colegas e, simultaneamente, pressionado por patrocinadores que classificam o protesto do rapper como discurso antissemita. Às vésperas de apresentações lotadas em cidades dos Estados Unidos e da passagem por São Paulo em dezembro, Sheeran tenta equilibrar interesses artísticos, contratos milionários e sensibilidades políticas que extravasam o universo da música.

    Como a tensão começou

    A faísca foi acesa nos dias 4 e 5, quando Macklemore subiu ao palco em Nova Jersey para cantar “Hinds Hall”, faixa lançada como protesto contra a ofensiva israelense em Gaza. Antes de encerrar o show, o rapper ergueu o punho e bradou as palavras “Palestina livre”, enquanto telões exibiam imagens de destruição em Gaza e manifestações em Nova York. A ação foi imediatamente criticada por entidades como a Liga Antidifamação, que enxergaram na canção acusações de genocídio e incentivaram uma campanha para retirá-lo da “Loop Tour”.

    Poucos dias depois, representantes dos estádios da rota – entre eles o Gillette Stadium, em Massachusetts, controlado pelo bilionário Robert Kraft – comunicaram à equipe de Ed Sheeran que não aceitariam mais a presença de Macklemore. O cantor relatou em rede social que recebeu a notícia diretamente de Sheeran, que teria alegado “exigência dos locais” para mantê-lo fora dos palcos.

    Robert Kraft entra em cena

    Dono do New England Patriots e financiador de iniciativas pró-Israel, Kraft confirmou ter barrado o rapper em Boston. Na nota, argumentou que não forneceria “plataforma para ódio” e mencionou um “histórico de imagens ofensivas” associado a Macklemore – referência a uma fantasia usada pelo artista em 2014, com nariz adunco e barba, que foi interpretada como estereótipo antissemita. O músico pediu desculpas na ocasião, mas o episódio voltou a circular nas redes.

    A reação dos artistas convidados

    Assim que a saída de Macklemore se tornou pública, nomes que fariam as aberturas passaram a cancelar. O primeiro foi Finneas, irmão e produtor de Billie Eilish, escalado para abrir as apresentações no Allianz Parque, em 5 e 6 de dezembro. “Artistas não podem ser silenciados quando defendem oprimidos”, escreveu, declarando apoio ao povo palestino.

    Na sequência, o cantor dinamarquês Lukas Graham, o compositor irlandês Aaron Rowe e a banda de folk Beoga comunicaram desistência semelhante. Rowe lembrou a história da Irlanda com fome e ocupação, afirmando que não ficaria “de braços cruzados enquanto bilionários tornam muda qualquer voz que denuncia assassinato de crianças”. Graham criticou o “poder do dinheiro para limitar o debate” e encerrou o post com emojis de melancia, símbolo da causa palestina. Já o Beoga classificou a situação como “silenciamento promovido por lobbies sionistas”.

    Macklemore responde com doação milionária

    Nesta quarta-feira (16), o rapper anunciou que doará integralmente o cachê de US$ 1 milhão recebido pelos shows já realizados. O montante será destinado a entidades de ajuda humanitária na Faixa de Gaza, segundo ele. Não satisfeito, desafiou Robert Kraft a desembolsar o dobro – US$ 2 milhões – para as mesmas instituições, revelando que o pedido havia partido de Ed Sheeran antes mesmo da polêmica vir a público.

    Kraft respondeu em sua conta no X (antigo Twitter) que considerava a ideia antes do desafio do rapper, mas não especificou para onde direcionaria a verba. A troca de recados colocou Sheeran em posição delicada: embora tente se dissociar da decisão de dispensar Macklemore, agora seu nome está vinculado tanto à cobrança por doações quanto à acusação de censura.

    Pressão sobre Ed Sheeran

    Sheeran domina rankings de streaming e conduz uma das turnês mais lucrativas do planeta, atributos que dependem de parcerias corporativas robustas. Desde que a controvérsia explodiu, fãs e críticos perguntam por que o cantor não bancou a permanência de Macklemore, algo que poderia implicar multas contratuais e cancelamentos de shows em arenas privadas. Pessoas ligadas à produção, porém, alegam que a retirada partiu “exclusivamente dos proprietários dos estádios”.

    Deserções em cascata transformam turnê de Ed Sheeran em batalha política sobre Palestina e antissemitismo - Imagem do artigo original

    Imagem: Internet

    O cantor britânico até agora não deu entrevista formal sobre o caso. Nos bastidores, assessores reforçam que ele “lamenta a situação” e que “jamais tentaria calar colegas”. Ainda assim, organizações judaicas seguem questionando se ele concorda com conteúdo considerado antissemita no discurso de Macklemore, enquanto ativistas pró-Palestina enxergam omissão.

    Discurso de ódio ou liberdade de expressão?

    Para a Liga Antidifamação e o Conselho Israelense-Americano, a letra de “Hinds Hall” – que acusa Israel de práticas genocidas após o ataque do Hamas em 2023 – ultrapassa o limite da crítica política e cai no antissemitismo. Juristas, por outro lado, lembram que as leis norte-americanas protegem manifestações artísticas, mesmo quando consideradas ofensivas por parte da sociedade. A controvérsia alimenta o debate sobre o papel de patrocinadores privados na definição do que pode ou não ser dito em ambientes culturais.

    Próximas datas e incertezas

    O prognóstico imediato é de tensão. A próxima apresentação está marcada para sábado, no Lincoln Financial Field, na Filadélfia. Até o momento, não há anúncio oficial de novos artistas para substituir os que saíram, o que acende alertas logísticos. Organizações comunitárias locais prometem protestos tanto contra quanto a favor da retirada de Macklemore.

    Quanto às passagens internacionais, inclusive no Brasil, produtores ainda divulgam Finneas como atração de abertura nos materiais promocionais. A equipe que cuida das datas sul-americanas afirma “reavaliar o formato” caso não haja acordo de última hora. Enquanto isso, fãs brasileiros especulam se Sheeran optará por um set estendido para suprir a ausência de convidados ou se buscará nomes locais, longe da controvérsia.

    Impacto financeiro em jogo

    Especialistas em entretenimento calculam que a substituição de openers tem custo relativamente baixo frente à bilheteria média de cada show – estimada em mais de US$ 5 milhões. O dano maior recai sobre a imagem da turnê, que pode afastar patrocinadores tradicionais avessos a polêmicas de cunho político ou religioso. As redes do cantor passaram a exibir picos de comentários negativos e, ao mesmo tempo, mensagens de apoio, refletindo uma polarização que se intensificou no mundo da música pop após a guerra iniciada em 2023.

    Memória recente e repercussões

    Não é a primeira vez que disputas sobre Israel e Palestina reverberam na indústria do entretenimento. Em 2021, o fenômeno se manifestou em festivais europeus que cancelaram artistas israelenses, enquanto, nos Estados Unidos, astros como Roger Waters viram patrocínios evaporar por críticas ao governo de Israel. A diferença agora é o tamanho comercial de Ed Sheeran: grandes arenas, contratos publicitários globais e integração direta com plataformas de streaming, onde a repercussão pública influencia algoritmos e, portanto, receita.

    Para analistas, a reação em cadeia na “Loop Tour” inaugura um capítulo inédito: músicos de abertura – geralmente em posição frágil nas negociações – mobilizam audiências próprias e provocam baixas que repercutem mais do que qualquer trecho do show principal. Resta saber se Sheeran conseguirá manter a agenda intacta ou se novos rompimentos ocorrerão, caso outros palcos repitam o veto a vozes pró-Palestina.

    Rafael Oliveira é criador de conteúdo digital e editor com foco em entretenimento, reality shows e notícias do mundo dos famosos. Seu trabalho é voltado para levar informações rápidas, atualizadas e relevantes sobre os principais acontecimentos da TV e das redes sociais.