A quatro semanas do primeiro turno, a mais recente pesquisa Datafolha expôs um retrato de equilíbrio que acelerou o passo dos dois principais concorrentes ao Planalto. Presidente e candidato à reeleição, Lula (PT) aparece com 39% das intenções de voto, enquanto o senador Flávio Bolsonaro (PL) soma 36%. Com a margem de erro de dois pontos, o desenho é de empate técnico – e, por isso, ambas as campanhas decidiram apertar o cerco sobre o chamado voto útil para tentar encerrar a disputa em 4 de outubro.
Na prática, petistas e bolsonaristas miram o eleitorado de candidaturas menores: quem vote em autores, governadores ou empresários que somados atingem 15% no levantamento. A lógica difundida nos quartéis-generais é simples: convencer esses eleitores de que sua escolha original não tem fôlego e que a transferência de votos poderia definir a eleição sem necessidade de segundo turno.
Pesquisa reforça clima de decisão antecipada
Além dos números de primeiro turno, o Datafolha testou um eventual confronto direto. Lula marca 46% contra 44% de Flávio, diferença ainda dentro da margem de erro. Considerados apenas os votos válidos — método oficial que desconsidera brancos e nulos — o petista alcança 43%, o senador, 39%, e os demais postulantes, 16%. O instituto apurou também um contingente de 3% de indecisos, visto por marqueteiros como reserva estratégica para quem demonstra maior “chance de vitória”.
Estratégia petista: estabilidade, comparação e indecisos
Manutenção da dianteira
Aliados do presidente celebraram a manutenção da vantagem e a ausência de danos eleitorais provocados pela crise entre Executivo e Supremo. O ministro das Relações Institucionais, José Guimarães, divulgou nota dizendo que o cenário “mostra o país pronto para seguir avançando”.
Peso da rejeição do adversário
Assessores admitem que o teto de Lula é limitado pelo fato de todos os adversários situarem-se à direita. Portanto, o plano envolve duas frentes simultâneas: minar a imagem de Flávio como suposta “versão piorada do pai” e reforçar propostas sociais, como o reajuste do Bolsa Família anunciado nesta quinta-feira.
Direcionamento para a militância
Coordenador de comunicação do PT, Edinho Silva solicitou aos candidatos proporcionais e influenciadores que comparem programas de governo nas ruas e redes. O recado interno é evitar ataques duros a Augusto Cury ou Ronaldo Caiado, em busca de possíveis pontes para um eventual segundo turno, mas deixar claro que somente Lula teria condições de derrotar o bolsonarismo.
Plano de Flávio: onda de virada e mobilização digital
“Vamos resolver no 1º turno”
No lado do PL, o discurso ganhou tom de virada. Um novo jingle repete “virou, virou, virou” enquanto peças no Instagram pedem que o eleitor “não deixe para o segundo turno o que pode fazer no primeiro”. Flávio divulgou áudio no WhatsApp com o mesmo mantra a seus contatos.
Apelo a eleitores de direita dispersa
A meta principal é absorver o eleitorado que hoje vota em Cury (6%), Renan Santos, Caiado e Romeu Zema. Coordenadores bolsonaristas argumentam que, se metade desses votos migrar, o senador ultrapassa Lula ainda na largada.
Crise institucional como combustível
Dirigentes do centrão que flertam com o PL avaliam que a tensão entre Supremo e Planalto devolveu protagonismo ao discurso de “rompimento do sistema” encampado pelo bolsonarismo. Alguns líderes, porém, preferem manter distância até a urna ser aberta, repetindo a estratégia de 2022.

Imagem: Internet
O eleitor em disputa: perfis e motivações
- Augusto Cury (Avante): reúne voto antipolítica, sobretudo entre jovens e evangélicos, mas parte desse grupo indica simpatia por Lula em eventual segundo turno.
- Ronaldo Caiado (PSD): concentra-se no Centro-Oeste agrário e tem ligação histórica com o bolsonarismo rural.
- Romeu Zema (Novo): cresce em nichos empresariais de Minas e São Paulo, eleitorado que rejeita PT mas também teme radicalismo.
- Renan Santos (Missão): se apoia em discurso anticorrupção e capturou voto de baixa renda insatisfeito com a Brasília tradicional.
Analistas observam que nenhum deles ultrapassa a barreira dos 10% isoladamente, o que aumenta a percepção utilitarista sobre seus votos.
Sentimento de vitória e batalha das narrativas
Pesquisas qualitativas encomendadas pelos dois comitês mostram Lula na frente quando o entrevistado é questionado sobre “quem vai ganhar”. Para reverter esse sentimento, o marketing de Flávio passou a divulgar enquetes internas, visitas lotadas e depoimentos de celebridades, tentando construir um clima de virada inevitável.
O PT, por sua vez, intensificou aparições do presidente em grandes capitais, sempre cercado pelos governadores aliados. A orientação é transmitir imagem de estabilidade institucional, contrapondo-se ao tom de “ruptura” associado ao clã Bolsonaro.
Impacto da agenda econômica
Embora o Datafolha não tenha medido diretamente a repercussão das novas medidas, atores do mercado político afirmam que o reajuste do Bolsa Família pode render dividendos imediatos ao petista. Paralelamente, o Planalto desenha pacote de renegociação de dívidas que deve ser lançado antes do próximo levantamento — mais um estímulo para acentuar o voto útil no campo governista.
Sinais do centrão e cenário em aberto
No tabuleiro da Câmara, líderes de partidos médios mantêm postura de “esperar para ver”. Nas palavras de um deputado do Republicanos, “quem chegar aos 45% no Datafolha da véspera leva toda a direita moderada de brinde”. O mesmo interlocutor admite, porém, que “qualquer tropeço, seja novo vazamento do caso Master ou pancada na economia, muda tudo em 48 horas”.
Com a pesquisa indicando disputa embolada e 21% de eleitores ainda suscetíveis a mudança — índice obtido na pergunta sobre possibilidade de troca de voto —, petistas e bolsonaristas trabalham contra o relógio. Cada subida ou queda de um ponto percentual pode redefinir alianças subterrâneas, orçamentos de campanha e o próprio humor do eleitor flutuante.
