O aumento repentino das encomendas vindas do exterior desde que o Imposto de Importação para compras de até US$ 50 foi zerado reacendeu o debate dentro do governo. O ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou que a equipe econômica acompanha “dia a dia” os números e pode recomendar ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva que o tributo, apelidado de “taxa das blusinhas”, volte a ser cobrado.
Segundo Durigan, a desoneração foi concebida como um período de amostragem, mas o movimento acima do esperado já levanta dúvidas sobre seu efeito na produção nacional. Caso fique comprovado desequilíbrio competitivo, disse o ministro, a Fazenda defenderá a retomada da cobrança.
Crescimento das encomendas preocupa Fazenda
Dados preliminares da Receita Federal mostram um salto significativo na quantidade de pacotes que entram no país após a edição da Medida Provisória que, em maio, reduziu a alíquota de 20% para zero nas compras internacionais de baixo valor. A pasta não divulga números absolutos, mas admite que a procura explodiu desde então.

Foto: Divulgação
Ao conceder entrevista a uma emissora de rádio pernambucana, Durigan explicou que a revogação temporária do imposto atende a uma estratégia de “captar o comportamento do mercado”. Porém, reforçou que a meta central permanece sendo a isonomia tributária: “se houver distorção em prejuízo da indústria local, o cenário volta a ser discutido com o presidente”, enfatizou.
Medida Provisória tem prazo apertado
A MP publicada no Diário Oficial da União produziu efeitos imediatos, mas precisa do aval do Congresso Nacional para se manter válida por mais de 120 dias. Deputados e senadores têm, portanto, até setembro para decidir se mantêm, alteram ou derrubam o texto. Nesse intervalo, diferentes segmentos do varejo e do comércio eletrônico intensificam articulações em Brasília.
Impacto na arrecadação
A Fazenda ainda estima quanto o fim da taxa representará em renúncia fiscal. Embora o tributo fosse concentrado em itens de pequeno valor, a soma de milhares de remessas gerava receita relevante. Técnicos do Ministério alertam que, caso a isenção vire regra permanente, será preciso buscar compensações para fechar a conta do Orçamento.
Pressão do varejo nacional
Empresas brasileiras com forte presença em lojas físicas atribuem parte da queda das vendas de junho ao avanço de plataformas estrangeiras sem imposto. Um levantamento interno do Instituto para Desenvolvimento do Varejo (IDV), que reúne nomes como Magazine Luiza, Renner, Americanas e Casas Bahia, projeta retração em setores variados, dos eletroeletrônicos ao vestuário.
O IDV divulgou nota em que associa o benefício nas importações à redução de empregos e investimentos no mercado interno. A organização sustenta que a cobrança deve ser igual para produtos semelhantes, independentemente da origem, e que a disparidade pode aprofundar a já acirrada concorrência no comércio.
Frentes parlamentares convergem
Quatro frentes do Congresso – Comércio e Serviços, Ambiente de Negócios, Pelo Brasil Competitivo e Defesa da Propriedade Intelectual e Combate à Pirataria – publicaram manifesto defendendo a reposição do imposto ou uma alternativa que garanta paridade. Para os parlamentares, “baixar para o estrangeiro” sem fazer o mesmo para o brasileiro cria assimetria contrária à legislação tributária.
Tecnologia e marketplaces pedem cautela
No extremo oposto, a Associação Brasileira de Mobilidade e Tecnologia (Amobitec), que reúne gigantes do e-commerce global – entre elas Alibaba, Amazon e Shein –, considera “natural” a forte demanda inicial. A entidade argumenta que consumidores anteciparam compras tão logo souberam da isenção, movimento que tenderia a se estabilizar nos próximos meses.

Imagem: Internet
Especialistas contratados pela Amobitec defendem que uma janela mínima de seis meses seja observada antes de concluir se o crescimento será permanente. O grupo valoriza ainda o impacto social da isenção, por ampliar o acesso a itens de moda e tecnologia mais baratos, sobretudo aos brasileiros de menor renda.

Imagem ilustrativa
Para a associação, reinstaurar o imposto no curto prazo traria insegurança jurídica, afastaria investidores e comprometeria a previsibilidade do ecossistema de comércio internacional em plataformas on-line. “A medida favorece a democratização do consumo e movimenta a economia”, sustenta o comunicado divulgado pela entidade.
Produtores locais e importadores na Justiça
Além da disputa política, o fim da taxa também chegou ao Judiciário. Fabricantes instalados no país estudam ações coletivas para obrigar a cobrança imediata, sob argumento de violação à concorrência leal. Do lado oposto, importadores avaliam recorrer caso o tributo retorne, alegando quebra de expectativa legítima após a MP.
Próximos passos do governo
Nos bastidores, técnicos da Receita Federal analisam a evolução do volume de pacotes, o tíquete médio das compras e o impacto na arrecadação de ICMS estadual. O objetivo é municiar Durigan com relatórios semanais que embasarão qualquer sugestão de mudança a Lula. Segundo apurou a reportagem, ainda não há data para uma eventual decisão.
Integrantes da equipe econômica projetam três cenários: manter a isenção e compensar a perda de receita em outra rubrica; restabelecer a alíquota cheia de 20%; ou adotar modelo híbrido, com uma taxa reduzida que preserve parte do estímulo ao consumo. Seja qual for a escolha, o tema deve ganhar corpo nas discussões sobre a reforma tributária, prevista para avançar no segundo semestre.
Peso político
Lula, que anunciou a isenção em meio a pressões de consumidores nas redes sociais, agora enfrenta a tarefa de equilibrar o compromisso social com a necessidade de proteger a indústria nacional. Dentro do Palácio do Planalto, auxiliares ponderam que reverter integralmente o benefício pode desgastar o governo junto à base popular, mas mantê-lo sem ajustes pode custar apoio de empresários e parlamentares da chamada “bancada do varejo”.
Enquanto a definição não chega, compradores correm contra o relógio para garantir produtos livres de imposto. Importadores reforçam estoques, e os Correios relatam sobrecarga nos centros de distribuição. O resultado desse período de incerteza servirá de base para o governo bater o martelo sobre o futuro da polêmica taxa das blusinhas.
