Debaixo de um calor que transformou o palco Mundo em caldeirão, Dave Grohl não precisou de mais de três músicas para ficar encharcado de suor e provar que o Foo Fighters voltou a soar perigoso. Principais atrações da sexta-feira (4), abertura da edição 2026 do Rock in Rio, os norte-americanos entregaram um show enxuto, feroz e repleto de surpresas, que manteve o Parque Olímpico preso até altas horas da madrugada de sábado (5).
O vigor extra tem nome: Ilan Rubin. O baterista, ex-Paramore e Nine Inch Nails, assumiu as baquetas deixadas por Josh Freese — que, por sua vez, substituíra o icônico Taylor Hawkins, morto em 2022. Com pegada explosiva e participação nos backing vocals, Rubin injetou nova vida na engrenagem, encurtou jams que antes soavam burocráticas e recolocou a banda em diálogo direto com o público.
Nova formação renova energia
A diferença saltou aos ouvidos logo na abertura. A sequência All My Life, The Pretender e Times Like These veio sem respiro, impulsionada pelas viradas afiadas de Rubin. Se Freese era elogiado pela precisão, o novato acrescentou dinâmica e balanço mais próximos do estilo que consagrou Hawkins, inclusive assumindo trechos de voz que pertenciam ao antigo parceiro de Grohl.
Mesmo tímido nos intervalos das canções, Rubin deixou clara a química com os novos companheiros. Grohl, sorridente, não poupou palavras: “Esse cara está salvando nossas noites”, disparou antes de apresentar a primeira raridade da noite.
Setlist focado em clássicos
Embora tenha lançado recentemente o álbum Your Favourite Toy, o Foo Fighters preferiu jogar seguro para a plateia carioca. Quase todo o repertório veio dos anos 1990 e 2000 e do celebrado Wasting Light (2011). Entre uma pedrada e outra, My Hero e Learn to Fly ergueram um coral que se estendeu até a área de bares, enquanto rodas de bate-cabeça se formavam perto da grade.
Do trabalho novo, apenas Window ganhou espaço. Grohl tentou ensinar o refrão, mas o coro soou tímido — contraste gritante com o mar de vozes que tomou conta de Best of You no bis. Outra exceção mais fria foi The Sky Is a Neighborhood, single de 2017 que rendeu poucos pulos.
Clássicos mantidos e ajustes estratégicos
- Hits obrigatórios: All My Life, The Pretender, Times Like These, My Hero, Everlong.
- Espaço para baladas: sequência de These Days, Walk e Wheels deu fôlego ao público.
- Jam sessions: reduzidas a respiros de poucos compassos, sem exibicionismo.
Raridades que surpreenderam fãs antigos
Grohl mostrou apreço pelos “old school”, como se referiu a quem acompanha a banda desde o início. Foi quando apareceram pérolas esquecidas: Marigold, composta nos tempos em que ele ainda tocava bateria no Nirvana, recebeu apresentação carinhosa; Stacked Actors, Breakout e Monkey Wrench incendiaram a massa.
Mas o momento realmente especial veio com Exhausted. Lançada em 1995 e jamais tocada em solo brasileiro, a faixa encerrou um bloco dedicado às origens do Foo Fighters. Já Aurora surgiu como tributo declarado a Taylor Hawkins, provocando aplausos prolongados e celulares iluminando a escuridão do parque.

Imagem: Internet
Interação efusiva com o público
A cada pausa, Grohl conversava com os fãs. Pediu que quem não soubesse a letra de My Hero se guiasse pelo “cara de 50 anos do lado”. Em retribuição, recebeu um mar de vozes que abafou a banda. A sintonia se manteve até o fim, quando dezenas de milhares ainda pulavam ao som de Everlong, já depois da meia-noite.
Para um festival conhecido por plateias que se dispersam em busca de ativação de marca, ver tanta gente permanecer até os acordes finais foi sinal do impacto do show. Nenhum outro artista da primeira noite conseguiu tamanho engajamento.
Comparação com passagens anteriores
A última visita do Foo Fighters ao Brasil, em 2023, durante o The Town, dividira opiniões. O show longo demais, recheado de improvisos, chegou a ser taxado de entediante. Três anos depois, a banda parece ter ouvido as críticas: encurtou o tempo total para algo próximo de duas horas e substituiu exibições de virtuosismo por serventia às canções.
O contraste também se percebeu na disposição de Grohl. Aos 57 anos, ele correu a extensão completa da passarela frontal, distribuiu palhetas e fez caretas para as câmeras que projetavam sua imagem nos telões laterais, enquanto o guitarrista Pat Smear mantinha o sorriso constante que o acompanha desde os tempos de Nirvana.
Fecho com hits incontornáveis
Quando Best of You explodiu nos alto-falantes, parecia impossível aumentar o volume do coro — até que veio Everlong. A dupla selou o melhor e mais vibrante espetáculo do dia, deixando a tradição do Rock in Rio preservada: o headliner da sexta-feira precisa fazer história. Missão cumprida.
Na dispersão, ainda se ouviam refrões ecoando pelos corredores do Parque Olímpico. Para quem já contabiliza mais de 15 passagens pelo país — e tem retorno marcado para estádios de São Paulo e Belo Horizonte em 2027 —, alcançar tamanha renovação é façanha rara. Com Ilan Rubin fixado na bateria e um repertório que equilibra nostalgia e frescor, o Foo Fighters prova que ainda sabe surpreender multidões.
