Advogados de Flávio Bolsonaro protocolaram nesta terça-feira (28) no Supremo Tribunal Federal um aditivo à notícia-crime já existente contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. No novo documento, o senador do PL sustenta que Lula voltou a vincular adversários a “traidores da pátria” e, ao evocar o enforcamento histórico de Joaquim Silvério dos Reis, estaria incentivando fisicamente a morte de oponentes políticos — entre eles o próprio Flávio.
Para a defesa, o chefe do Executivo não comete “lapsos retóricos isolados”, mas recorre de forma “deliberada e sistemática” à incitação de violência como instrumento de disputa eleitoral. O material agora anexado menciona declarações feitas por Lula durante a convenção do PDT que oficializou apoio à sua candidatura à reeleição, reforçando o pedido para que o STF abra investigação por possível crime de instigação ao homicídio.
O que motivou o novo pedido
No centro do aditivo está um trecho do discurso de Lula na convenção pedetista. Na ocasião, o presidente afirmou que, “antigamente, traidor era enforcado”, e classificou como “muito grave” a atitude de quem, segundo ele, teria recorrido aos Estados Unidos para pressionar economicamente o Brasil. Sem mencionar nomes, Lula atribuiu a articulação à família Bolsonaro.
Segundo os advogados, ao se referir a supostos “traidores” no plural e indicar que o castigo histórico para esse tipo de conduta seria o enforcamento, Lula teria reiterado a mesma conduta descrita na petição original, apresentada meses atrás. A lógica jurídica explicitada no pedido é descrita em três etapas:
- Traidores devem ser enforcados;
- Flávio Bolsonaro seria, na visão de Lula, um traidor da pátria;
- Conclui-se, portanto, que ao senador caberia o enforcamento.
“Estratégia perigosa”
Para a defesa, o tom reiterado do presidente “coloca em risco não apenas a integridade física do noticiante, mas a higidez do processo democrático”. Os advogados classificam a postura como “estratégia tão grave quanto perigosa” em um ambiente de crescente tensão política no país.
As falas citadas por Flávio Bolsonaro
Além da menção a Joaquim Silvério dos Reis, os representantes do senador incluíram na petição trechos completos da convenção do PDT. Lula declarou que o campo progressista “não tem o direito de perder essas eleições” e que não permitiria o retorno do “negacionismo” e do “fascismo” ao Palácio do Planalto. Em seguida, afirmou:
“Nesse país, antigamente, traidor era enforcado. Porque trair a pátria é uma coisa muito grave. E hoje nós temos não um, mas vários traidores que vão aos Estados Unidos pedir para os Estados Unidos impor punição ao Brasil.”
O presidente ainda ironizou a possibilidade de a oposição receber apoio internacional: “Se o senador americano Marco Rubio quiser vir apoiar o meu adversário, que venha. A gente vai derrotar todos em nome da defesa da democracia”.
Acusação de uso eleitoral do discurso
No entendimento dos advogados, Lula utilizaria a retórica para “obter vantagem no pleito de 2026”, associando o adversário direto a um ato extremo de deslealdade nacional. O documento alega que a fala não pode ser reduzida a metáfora histórica ou linguagem inflamada própria do debate político.
Tramitação no Supremo
O aditivo foi encaminhado ao relator do caso, que já analisa a notícia-crime inicial. Caberá ao ministro responsável decidir se os novos elementos justificam a abertura de inquérito ou quaisquer outras providências, como pedido de informações à Procuradoria-Geral da República.

Imagem: Internet
Até a noite desta terça, o STF não havia se manifestado publicamente. A decisão pode envolver desde o arquivamento sumário até a autorização para que o Ministério Público Federal investigue formalmente a conduta presidencial.
Contexto político
O embate entre Lula e a família Bolsonaro vem se intensificando desde o início da pré-campanha para 2026. Flávio, escolhido para herdar a vaga do pai na disputa pelo Planalto, tenta consolidar o eleitorado bolsonarista, enquanto o petista busca renovar a base de apoio que lhe garantiu o terceiro mandato.
A retórica bélica entrou no radar de entidades que monitoram violência política. Relatórios recentes apontam aumento de ameaças e confrontos físicos entre militantes, o que levou o Tribunal Superior Eleitoral a criar grupo de trabalho voltado à segurança de candidatos.
Reação do Planalto
Até o fechamento deste texto, o Palácio do Planalto não havia se pronunciado sobre o aditivo, mas interlocutores próximos a Lula costumam sustentar que o presidente faz “uso de linguagem figurada” quando recorre a referências históricas. Na queixa anterior, a Advocacia-Geral da União argumentou que não havia qualquer incitação concreta à violência e que o discurso estava protegido pela liberdade de expressão no âmbito político.
Possíveis desdobramentos
Especialistas em direito penal explicam que a mera apresentação da notícia-crime não faz de Lula investigado automaticamente. Caso o relator entenda que há indícios mínimos, ele enviará os autos para parecer da Procuradoria-Geral da República, que poderá requerer diligências ou manifestar-se pelo arquivamento. Se o inquérito for instaurado, Lula terá direito a prestar esclarecimentos ou responder por escrito.
Do ponto de vista eleitoral, a ofensiva jurídica de Flávio busca colar em Lula o estigma de fomentador de violência, narrativa que dialoga com segmentos conservadores e visa fragilizar o discurso de pacificação adotado pelo petista em 2022. Já o Planalto aposta em reforçar a imagem de que a família Bolsonaro teria atuado contra interesses nacionais ao solicitar sanções estrangeiras ao Brasil.
Violência política em foco
O Brasil registrou, de 2019 a 2023, mais de 1.200 casos de ameaças ou agressões a agentes públicos, segundo levantamento da ONG Justiça Global. O período coincide com a escalada de discursos radicais no Congresso e nas redes sociais. O STF, por sua vez, tem sido instado a intervir sempre que autoridades eleitas trocam acusações que extrapolam o padrão do debate civil.
Com as novas peças apresentadas, o tribunal volta ao centro de uma disputa que transcende o caso concreto: a definição dos limites entre liberdade de expressão, retórica política e apologia à violência — tema que deve ganhar ainda mais relevância à medida que se aproximam as convenções partidárias do próximo ano.
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