Em agenda de campanha em São Carlos (SP) nesta sexta-feira (4/9), o presidenciável Flávio Bolsonaro (PL) afirmou que o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), “está mais interessado em proteger o amigo Alexandre de Moraes do que a própria instituição”. O ataque ampliou a pressão sobre o ministro do Supremo Tribunal Federal, alvo de pedidos de impeachment de apoiadores bolsonaristas, e aprofundou o desgaste entre Legislativo e Judiciário.
A declaração ocorre dois dias depois de Alcolumbre defender publicamente Moraes e rebater críticas do candidato do PL, citando a polêmica captação de R$ 130 milhões junto ao Banco Master para o filme “Dark Horse”. O episódio virou munição recíproca: enquanto o senador cobra explicações sobre a proposta de financiamento, Flávio alega que o “problema real” está na relação da instituição financeira com Lula e com o próprio ministro do STF.
Atrito entre Senado e Supremo ganha novo capítulo
Flávio classificou como “equívoco” a reunião prolongada que Alcolumbre manteve na terça-feira com Moraes. “Ele perdeu uma grande oportunidade de resgatar a credibilidade do Senado”, afirmou, insinuando que a conversa teria servido para alinhar estratégias de defesa do magistrado contra pedidos de afastamento apresentados por parlamentares bolsonaristas.
O comentário reforça a ofensiva da campanha do PL contra Moraes, relator de inquéritos que miram aliados do presidente Jair Bolsonaro. Para Flávio, o ministro “não tem a menor condição de continuar no Supremo” e deveria ser investigado pelo plenário da Corte, argumento repetido em sucessivos atos políticos desde o início de agosto.
Resposta de Alcolumbre expõe bastidores do caso “Dark Horse”
Na quarta-feira, Alcolumbre reagiu à artilharia bolsonarista lembrando que o próprio Flávio buscou empresários para bancar o longa-metragem “Dark Horse”, centrado em feitos da atual gestão federal. Disse ainda que os mesmos interlocutores agora são usados para imputar supostas irregularidades a Moraes. “Todo mundo esqueceu que pediram R$ 130 milhões para fazer um filme e, agora, o culpado só é o ministro”, cutucou o amapaense.
Flávio rebateu nesta sexta. “Não há nada de ilegal no projeto. Diferente do que vemos na relação do Banco Master com o Lula e com algumas personalidades próximas a Alexandre de Moraes; lá, sim, há indícios de crime e isso precisa ser apurado”, garantiu. Até o momento, nem o Ministério Público nem a Polícia Federal formalizaram investigação sobre a proposta cinematográfica ou sobre a vinculação entre o banco e o ministro.
Como nasceu a polêmica do financiamento
- Em 2023, produtores ligados ao entorno bolsonarista procuraram o dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, para levantar capital privado a fim de viabilizar o filme.
- O orçamento estimado girava em torno de R$ 130 milhões, valor considerado alto para padrões brasileiros de produção audiovisual.
- Ao expor o fato, Alcolumbre apontou “contradição” entre o discurso ético de Flávio e a busca de recursos junto a um mesmo agente financeiro mencionado em ataques ao ministro do STF.
Inquérito das fake news: “luz no fim do túnel”
No mesmo evento em São Carlos, Flávio saudou como “sinal positivo” a manifestação do presidente do STF, Edson Fachin, favorável ao encerramento do inquérito das fake news. Para ele, o procedimento, conduzido por Moraes desde 2019, extrapolou limites constitucionais e transformou o magistrado em “parte interessada” nos processos.
Apesar das críticas dirigidas a Moraes, o candidato reforçou que “defende o STF como instituição”. Segundo disse, o tribunal vem sofrendo desgaste público justamente pelo “comportamento político” do ministro. “Quando o próprio presidente da Corte indica que é hora de acabar com o inquérito, vemos uma luz no fim do túnel”, avaliou.

Imagem: Internet
Impacto eleitoral do embate
- A retórica de enfrentamento com o Judiciário tornou-se pilar do discurso de campanha bolsonarista e mobiliza a base mais ideológica.
- Para o Senado, a polêmica pressiona Alcolumbre internamente: alas oposicionistas cobram análise de pedidos de impeachment de Moraes, enquanto a cúpula se esforça para evitar choque institucional.
- No STF, ministros avaliam que a estratégia de atacar Moraes busca desacreditar decisões futuras que possam afetar Jair Bolsonaro ou aliados em ano eleitoral.
Agenda de campanha no interior paulista
Acompanhado do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), que tenta a reeleição, e dos candidatos ao Senado por São Paulo Guilherme Derrite (PP) e André do Prado (PL), Flávio percorreu o Hub de Inovação de São Carlos. O grupo discutiu investimentos em tecnologia, agronegócio de precisão e parcerias com universidades locais.
Os compromissos em São Carlos integram roteiro pelo interior paulista projetado para consolidar o eleitorado bolsonarista fora da capital. Na avaliação de estrategistas da campanha, o estado — que concentra o maior colégio eleitoral do país — será decisivo para forçar um segundo turno. Saiba mais sobre a corrida presidencial.
Próximos passos
Depois de São Carlos, a comitiva segue para Ribeirão Preto, onde Flávio participará de encontro com lideranças do setor sucroalcooleiro. Assessores indicam que o tema Alexandre de Moraes continuará no centro do discurso, inclusive em agendas transmitidas por redes sociais, reforçando a tentativa de manter a militância mobilizada contra o ministro.
Enquanto isso, no Senado, adversários de Alcolumbre articulam para que a Casa instale, ainda em setembro, a Comissão de Constituição e Justiça destinada a analisar pedidos de impeachment de ministros do STF. A expectativa é que o presidente da Casa resista a pautar o assunto, acentuando o clima de confronto entre bolsonaristas e a cúpula do Congresso.
No Judiciário, interlocutores próximos a Moraes relatam confiança de que o STF formará maioria para manter o ministro no caso das fake news e rejeitará tentativas de afastamento. Eles veem a investida de Flávio como parte de uma estratégia eleitoral “calculada”, destinada a desviar atenções sobre suspeitas envolvendo o entorno do candidato e o financiamento do longa “Dark Horse”.
Com o calendário eleitoral avançando, o embate promete se arrastar nas próximas semanas, elevando a temperatura política em Brasília e testando os limites do diálogo entre os Três Poderes.
