Em uma longa conversa com Pedro Bial exibida na noite de terça-feira (15), Fausto Silva, 76, encerrou especulações sobre um eventual retorno aos estúdios. “Não tenho nada mirabolante”, resumiu, explicando que seus planos se resumem a viajar, dedicar tempo à esposa Luciana Cardoso e aos filhos — Lara, João Guilherme e Rodrigo — e concluir a recuperação de uma série de cirurgias que, segundo ele, beiram o milagre.
Desde 2023, o apresentador passou por quatro transplantes — um coração, dois rins e um fígado — e acumulou longas internações. Ainda em reabilitação, ele faz fisioterapia, musculação e tai chi chuan para recuperar fôlego e massa muscular. “Fui adestrado a ter paciência”, brincou, referindo-se ao período em que esteve ligado a aparelhos enquanto aguardava um doador compatível.
Quatro transplantes em menos de dois anos
Urgência cardíaca
O primeiro procedimento decisivo ocorreu em agosto de 2023, quando exames apontaram falência cardíaca irreversível. Acompanhado do cardiologista Fernando Bacal, presente na gravação com Bial, Faustão foi internado na UTI do Hospital Israelita Albert Einstein como paciente prioritário. Dependente de bombas de infusão e assistência mecânica, ele esperou pouco mais de um mês até receber o novo coração, “no bico do corvo”, como descreveu.
Rim e fígado na sequência
Complicações decorrentes da própria doença cardíaca e dos medicamentos imunossupressores levaram a novos impasses. Entre o fim de 2023 e o primeiro semestre deste ano, o apresentador passou por dois transplantes de rim e, posteriormente, por um de fígado. Cada cirurgia exigiu nova adaptação de medicação e reforçou o calendário de sessões de fisioterapia.
A rotina de reabilitação
Hoje, o ex-comandante do Domingão intercala caminhadas leves com musculação, exercícios respiratórios e práticas orientais para equilíbrio. Ele destaca que a disciplina física se tornou parte da vida. “Não é heroísmo; é necessidade”, afirmou. O plano é alcançar autonomia plena para viagens internacionais ainda em 2027, quando pretende comemorar 80 anos longe dos hospitais.
A defesa da doação de órgãos
Durante o programa, Bacal esclareceu que a fila de transplantes no Brasil é única e gerenciada pelo Ministério da Saúde, obedecendo a critérios de compatibilidade sanguínea, gravidade clínica e tempo de espera. Apenas 45% das famílias autorizam a retirada de órgãos de parentes falecidos. O ideal, segundo o médico, seria ao menos 80% para zerar a fila de cerca de 50 mil pessoas que dependem de um órgão.
Faustão usou seu caso para reforçar a campanha: “Um único doador pode salvar até seis vidas. É a maior prova de amor que existe”. O apresentador disse acreditar que seu histórico público ajuda a demonstrar a seriedade do sistema nacional e pode convencer quem ainda hesita sobre o tema.
Carreira revisitada no sofá de casa
Estilo irreverente desde o primeiro minuto
Bial conduziu uma retrospectiva que começou pelo Perdidos na Noite, na Band, e avançou até o Domingão. Eles relembraram a estreia de 1989 na Globo, quando, em menos de um minuto, Faustão soltou seu primeiro palavrão em rede nacional, sob o olhar de Bussunda na plateia. Antes de entrar no ar, conta ele, fez questão de avisar Roberto Marinho: “Quando digo ‘pentelho’, é adjetivo, não substantivo”. O empresário não fez objeções.
Incêndio no palco e bordões eternos
Imagens de arquivo mostraram o dia em que uma churrasqueira comandada por controle remoto pegou fogo ao vivo, originando o clássico “tá pegando fogo, bicho”. Episódios polêmicos como o “sushi erótico”, de 1997, ficaram de fora, mas a conversa relembrou bastidores que consolidaram a combinação de improviso e agilidade que marcou o dominical durante 32 anos.

Imagem: Internet
Legado de formação profissional
Ao ser questionado sobre a herança que deixa na televisão, Faustão apontou para os ex-produtores que hoje ocupam cargos de direção na emissora. “Criar um ambiente bom de trabalho não é bondade; é inteligência”, disse. Ele lembrou ainda que, nos tempos de Perdidos na Noite, o Centro de Valorização da Vida relatava queda nas ligações de pessoas em crise enquanto o programa estava no ar — um dado que, para ele, prova o alcance social do humor e do entretenimento.
Vida pós-estúdio: família, tela e controle remoto
Longe dos holofotes, o apresentador revela rotina simples: assiste a programas esportivos, noticiários, séries e filmes. “Trabalhei 62 anos sem férias de verdade. Agora, quero recuperar o tempo”, afirmou. A convivência diária com os filhos e a possibilidade de viajar sem correria profissional são, segundo ele, o maior ganho depois de quase ter morrido.
Questionado por Bial se sente falta da adrenalina do palco, respondeu com um aceno negativo. “Quando você visita o outro lado e volta, muda a prioridade. Hoje, a graça é acordar, não é dar audiência.”
Repercussão na comunidade médica e na TV
Fernando Bacal concluiu a participação exaltando o impacto da história do paciente famoso sobre a opinião pública. Para ele, a visibilidade de Faustão pode acelerar campanhas de conscientização. “Ter alguém com esse histórico bem-sucedido mostra que o programa de transplantes brasileiro é sólido e estimula as famílias a doarem.”
Dentro da Globo, a entrevista foi vista como o encerramento definitivo de um capítulo iniciado em 1989. Sem convite formal para novos projetos e com o próprio apresentador afirmando que não voltará aos estúdios, a emissora se concentra agora em manter viva a memória de quadros e bordões que atravessaram gerações.
O futuro sem roteiro
Enquanto organiza documentos médicos e agendas de fisioterapia, Faustão não descarta apenas uma coisa: a vontade de permanecer anônimo no dia a dia. “Depois de tudo, percebi que ter tempo é mais valioso que ter programa. Quero estar vivo para ver meus netos, se Deus quiser.” Para os fãs, resta acompanhar as redes sociais do filho João Guilherme, que vez ou outra exibe vídeos do pai nos treinos de recuperação — prova de que, fora da tela, o veterano continua inquieto, porém focado em outra missão: celebrar o simples fato de respirar sem ajuda de máquinas.
