Mato Grosso do Sul foi apresentado, na noite desta quinta-feira (30), como um “hub natural” para a circulação de mercadorias entre o agronegócio do Centro-Oeste e os grandes centros consumidores do país. A avaliação partiu do secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Dario Durigan, que se reuniu com lideranças empresariais na sede da Federação das Indústrias de Mato Grosso do Sul (FIEMS), em Campo Grande.
Ao lado do ministro dos Transportes, George Santoro, e de representantes do governo estadual, Durigan ressaltou que a combinação de logística favorável, proximidade com o Sudeste e vínculos diretos com mercados latino-americanos coloca o estado “no radar” de investidores interessados em ampliar cadeias produtivas. O dirigente também admitiu que taxas de juros ainda altas e o custo do crédito limitam a velocidade dessa expansão.
Um estado “integrador” entre o agronegócio e os grandes centros
No encontro com industriais, parlamentares e secretários estaduais, Dario Durigan frisou que a localização geográfica de Mato Grosso do Sul cria um corredor de exportação para a produção agrícola do país. “É um território que dialoga, ao mesmo tempo, com o coração do agronegócio de Mato Grosso e com o mercado consumidor de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais”, pontuou, lembrando que rotas rodoviárias, ferrovias e a hidrovia Paraguai-Paraná encurtam custos logísticos.
Segundo o secretário, o governo federal pretende “potencializar” essa vocação para atrair fábricas de processamento de alimentos, polos de bioenergia e centros de distribuição, setores que complementam as atividades rurais já consolidadas. Ele citou ainda a fronteira com Paraguai e Bolívia como “porta de entrada” para acordos comerciais que envolvem outros países da América do Sul.
Logística favorecida acelera atração de capital
Os executivos presentes na FIEMS defenderam a necessidade de novos investimentos em ferrovias e terminais portuários para transformar o discurso em resultado prático. Nesse ponto, o ministro dos Transportes, George Santoro, informou que estuda alianças público-privadas para concluir trechos da Ferronorte e modernizar portos fluviais no estado. “Quando a infraestrutura avança, o capital privado aparece”, observou Santoro.
Sérgio Longen, presidente da FIEMS, destacou que o setor industrial sul-mato-grossense já movimenta mais de R$ 25 bilhões anuais e pode dobrar de tamanho se gargalos logísticos forem resolvidos. “A cadeia da celulose, por exemplo, tem projetos engatilhados que dependem de transporte ferroviário competitivo”, disse Longen.
Obstáculos que ainda travam o crescimento
Durigan não deixou de reconhecer que a conjuntura macroeconômica impõe desafios. A principal queixa dos empresários girou em torno do elevado custo de capital, que encarece planos de ampliação fabril. “A taxa Selic segue alta e isso impacta diretamente a decisão de investir”, reclamou Flávio César, secretário estadual da Fazenda, que pediu mais instrumentos de crédito direcionado.
O representante da Fazenda Federal respondeu que o governo trabalha para reduzir incertezas fiscais, fortalecer a previsibilidade regulatória e ampliar programas de financiamento em parceria com bancos públicos. “Precisamos de um Estado firme no controle de gastos, mas também disposto a criar ambiente de negócios onde a iniciativa privada se sinta segura”, disse Durigan.
Custo do crédito e juros altos
Durante a coletiva, o secretário foi questionado sobre o efeito do chamado “tarifaço” – aumento de preços administrados que pressiona a inflação. Ele garantiu que a equipe econômica monitora o tema para evitar perda de competitividade. “Vamos intensificar o diálogo com o setor produtivo e avaliar medidas compensatórias que preservem empregos”, afirmou.
Analistas presentes lembraram que, enquanto a Selic não recuar de forma consistente, o spread bancário se mantém elevado, tornando o crédito corporativo mais caro no estado. Durigan reforçou que qualquer mudança significativa passa por “coordenação entre Ministério da Fazenda e Banco Central”.

Imagem: Internet
Federalismo de cooperação na pauta de Durigan
Outro ponto sublinhado pelo secretário-executivo foi a necessidade de sintonia entre União, estados e municípios, conceito que ele chamou de “federalismo de cooperação”. A tese é de que políticas públicas ganham eficiência quando governos locais se alinham a estratégias nacionais, sobretudo em temas como infraestrutura, educação profissional e incentivos fiscais.
Ele citou como exemplo a Reforma Tributária em discussão no Congresso, que deverá instituir o Imposto sobre Bens e Serviços (IBS). “A reforma só dará certo se cada ente federativo participar da construção das regras de transição”, avaliou.
Agenda intensa em Campo Grande
A passagem de Durigan por Mato Grosso do Sul continua nesta sexta-feira (31). Pela manhã, ele participa de um café na Secretaria de Estado da Fazenda e, em seguida, discute detalhes da implementação do IBS com técnicos locais. Haverá ainda encontro com o governador Eduardo Riedel e um almoço que reunirá a bancada federal, dirigentes de bancos públicos e representantes de entidades do setor produtivo.
A visita encerra-se no início da tarde com um tour pelo Bioparque Pantanal, complexo turístico que o governo estadual pretende transformar em vitrine de sustentabilidade e inovação. A comitiva usará o local para reforçar o discurso de que o estado combina preservação ambiental com oportunidades industriais.
Com as agendas em Campo Grande, o Ministério da Fazenda sinaliza que pretende descentralizar o debate econômico e aproximar-se de polos regionais onde o agronegócio e a indústria caminham juntos. Mato Grosso do Sul aparece, nesse roteiro, como modelo de território capaz de integrar fronteiras agrícolas, logística multimodal e mercados externos.
Durigan encerrou a fala destacando que, embora a conjuntura exija cautela, “o momento é propício” para quem está disposto a investir em cadeias de valor ligadas a proteína animal, celulose, bioenergia e tecnologia verde. “Se a gente combinar infraestrutura, juros mais civilizados e cooperação federativa, o estado terá condição de liderar a próxima onda de crescimento brasileiro”, concluiu.
Leia também: análise sobre a reforma tributária e o impacto nas empresas de MS.
