Os bolsos dos turistas brasileiros voltaram a se abrir no exterior. Entre janeiro e junho, as despesas somaram US$ 12,61 bilhões, alta de 22,5% sobre igual período de 2025 e o maior montante para um primeiro semestre desde que o Banco Central iniciou a série histórica, em 1995.
O avanço coincide com a valorização do real frente ao dólar: mesmo com oscilações diárias, a moeda norte-americana acumula queda de quase 7% em 2026, aliviando passagens, hospedagens, compras e serviços cotados lá fora. O movimento reaquece o setor de turismo internacional e altera o balanço das contas externas.
Turismo ganha fôlego com câmbio favorável
O câmbio mais baixo ajuda a explicar o apetite renovado dos brasileiros por viagens internacionais. Passagens aéreas emitidas em dólares e diárias de hotéis ficam relativamente mais baratas quando o real se fortalece, ampliando o poder de compra fora do país. A cotação encerrou a última segunda-feira a R$ 5,11, avanço pontual de 0,60%, mas distante dos picos recentes: no acumulado do ano, o recuo ainda é de 6,87%.
Analistas atribuem a valorização do real principalmente ao fluxo de divisas gerado pelas exportações de commodities, em especial petróleo. Como grande produtor, o Brasil se beneficia de preços firmes, enquanto tensões geopolíticas no Oriente Médio levantam dúvidas sobre o abastecimento global. O resultado é maior entrada de dólares no país e, consequentemente, câmbio mais favorável para o turista.
Crescimento econômico também pesa
Além do câmbio, o desempenho da atividade interna influencia o planejamento de viagens. Mesmo em ritmo mais lento, a economia brasileira continua crescendo, sustentando renda e emprego em patamar suficiente para estimular o consumo de serviços de turismo e lazer. Combinado à percepção de que o dólar está “barato”, esse ambiente incentiva antecipação de viagens e aumento do ticket médio no exterior.
Impacto sobre as contas externas
O salto de gastos de brasileiros fora do país aparece no balanço de transações correntes, indicador que mede a diferença entre o que o Brasil paga e recebe em comércio, serviços e rendas. No primeiro semestre, o déficit nessa conta foi de US$ 27,47 bilhões, diminuição de 16,3% em relação ao rombo de US$ 32,85 bilhões apurado um ano antes.
A melhora se deveu, principalmente, ao bom desempenho da balança comercial, alimentada por exportações de commodities agrícolas e minerais. Essas vendas compensaram parcialmente o aumento nas despesas de viagens internacionais, mantendo o déficit em nível considerado administrável pelos economistas.
Componentes da transação corrente
- Balança comercial: diferença entre exportações e importações de bens físicos.
- Serviços: inclui turismo, transporte, seguros, aluguel de equipamentos e serviços profissionais.
- Rendas primárias: remessas de lucros, dividendos e juros pagos a investidores estrangeiros.
Quando a economia ganha tração, costuma importar mais bens e demandar mais serviços externos, pressionando o déficit. No ciclo atual, o vigor das exportações tem contrabalançado o maior consumo de serviços no exterior.
Investimento direto cobre o déficit
O Banco Central destacou ainda o aumento do Investimento Direto no País (IDP). Entre janeiro e junho, empresas e investidores estrangeiros injetaram US$ 47 bilhões na economia brasileira, ante US$ 35,4 bilhões no mesmo intervalo do ano passado. O volume foi suficiente para cobrir com folga o déficit em transações correntes, garantindo conforto ao financiamento externo.
Por que o capital estrangeiro está voltando?
As razões apontadas por especialistas incluem:

Imagem: Internet
- Taxa de juros real elevada, que torna ativos brasileiros atraentes.
- Perspectiva de estabilização fiscal com a nova âncora orçamentária.
- Demanda global por commodities, favorecendo empresas nacionais do setor.
- Protocolos de transição energética, que abrem espaço para investimentos em produção de energia limpa no Brasil.
O fluxo de capital produtivo, diferentemente do investimento em carteira (ações e títulos), tende a permanecer no país por prazos mais longos, reduzindo a volatilidade cambial e fortalecendo reservas.
Setor de viagem já sente os reflexos
Companhias aéreas, operadoras de turismo e redes de hotéis relatam aumento nas reservas e na procura por destinos internacionais desde o início do ano. Agências on-line registram picos de buscas para Estados Unidos, Europa e América do Sul, com destaque para Argentina e Chile, destinos favorecidos pela proximidade e pelo real em posição vantajosa frente às moedas locais.
Dados preliminares de companhias aéreas mostram expansão de dois dígitos na venda de passagens internacionais na comparação anual. Parte do movimento é explicado pela normalização dos voos depois da pandemia; porém, executivos do setor apontam que o câmbio mais comportado é o principal gatilho para converter intenção em compra efetiva.
Viagens corporativas recuperam ritmo
Além do turismo de lazer, as viagens a trabalho voltaram a ganhar tração. Empresas que haviam reduzido deslocamentos internacionais para cortar custos durante os anos de dólar alto retomam agendas presenciais, impulsionando gastos com hospedagem e alimentação fora do país.
Riscos no radar
Ainda que o cenário atual seja favorável ao viajante, economistas lembram que a trajetória do dólar depende de variáveis internas e externas. Escalada de conflitos geopolíticos, mudanças na política monetária de grandes economias ou frustrações fiscais domésticas podem inverter a direção do câmbio e devolver parte dos ganhos do real.
Outro ponto de atenção é a inflação de serviços no exterior, que subiu acima da média global em alguns destinos muito procurados por brasileiros. Mesmo com dólar em queda, a alta de preços lá fora pode neutralizar parte da economia obtida no câmbio.
O que esperar para o segundo semestre
Se o câmbio permanecer perto dos patamares atuais, agentes de mercado projetam novo recorde de gastos em viagens até dezembro, batendo a marca alcançada em 2014, antes da recessão e da pandemia. A demanda aquecida deve sustentar o setor aéreo e empresas de turismo, mas também pressiona a conta de serviços no balanço de pagamentos.
Para o Banco Central, o fluxo robusto de investimento estrangeiro segue crucial para equilibrar as contas externas. Caso se confirme a expectativa de juros menores nos Estados Unidos e a manutenção de taxas reais atrativas no Brasil, o ingresso de capital produtivo tende a continuar cobrindo o déficit, mantendo o mercado de câmbio em relativa estabilidade.
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