Diageo lança selo digital com IA para garantir autenticidade de destilados no Brasil

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    A onda de intoxicações por metanol registrada em 2025, que deixou vítimas fatais em diversas regiões do país, provocou uma corrida da indústria de bebidas por mecanismos de segurança. A mais recente resposta vem da Diageo, dona de rótulos como Johnnie Walker, Tanqueray e Smirnoff, que estreia nas prateleiras brasileiras o Selo Drink Seguro, um identificador digital validado por inteligência artificial.

    A novidade permite que qualquer consumidor aponte a câmera do celular para o selo e receba, em segundos, a mensagem “verificado” caso a garrafa seja autêntica. Caso contrário, o aplicativo direciona o usuário para um formulário de denúncia. O sistema foi desenvolvido para funcionar como barreira adicional ao mercado clandestino, que hoje representa 4,7% das vendas de destilados no país, segundo pesquisa da Euromonitor International encomendada pela Associação Brasileira de Bebidas Destiladas (ABBD).

    Como funciona a impressão digital da garrafa

    Cada garrafa das principais marcas da Diageo passa a receber uma “impressão digital” invisível a olho nu, criada pela Securetrace — a mesma fornecedora dos hologramas da cédula de R$ 100 e das películas de segurança do passaporte brasileiro. O padrão gráfico, único para cada unidade, gera mais de 27 trilhões de combinações possíveis.

    No momento da verificação, a câmera do smartphone captura esse padrão e o envia, via aplicativo, a um algoritmo de inteligência artificial hospedado em nuvem. O sistema confere o código com a base da fabricante e libera a confirmação em tempo real. Se o código não for identificado, o consumidor é convidado a relatar local de compra, lote e características visuais do produto suspeito, alimentando um banco de dados que pode ser utilizado em investigações futuras.

    Por que a IA é necessária?

    De acordo com engenheiros da Securetrace, o volume de combinações e a variação de luz, ângulo e reflexo tornam inviável a leitura tradicional por QR Code ou código de barras. O algoritmo aprende a reconhecer distorções típicas das imagens capturadas em ambientes como bares e restaurantes, elevando o índice de acerto e dificultando a clonagem do selo.

    Resposta direta à crise do metanol

    A contaminação por metanol registrada no ano passado expôs vulnerabilidades na cadeia de bebidas. Levantamento do Ministério da Saúde aponta 73 casos de intoxicação associados a destilados adulterados em 2025, com 25 mortes confirmadas. Entre janeiro e agosto de 2026, outras 17 ocorrências foram reconhecidas oficialmente e 23 estão sob investigação.

    “A tragédia mostrou que falsificar bebidas não é crime patrimonial comum, mas questão de saúde pública”, afirma Paula Lindenberg, presidente da Diageo Brasil. Segundo a executiva, o Selo Drink Seguro foi acelerado justamente após os episódios de contaminação para restaurar a confiança do consumidor e reforçar o combate ao mercado informal.

    Alcance inicial e próximos passos

    A companhia planeja estampar o novo recurso em 49 itens do portfólio ainda em 2026, abrangendo uísques, gim, vodca, tequila, licor e rum. Rótulos de Ypióca e produtos prontos para consumo, como Smirnoff Ice, ficam fora da primeira fase. Embora a campanha de comunicação comece em 15 de setembro, algumas garrafas com o selo já circulam em pontos de venda desde agosto.

    Para adotar o sistema, bares, supermercados e distribuidores não precisam de equipamento especial; basta orientar funcionários e clientes a utilizar o smartphone. A Diageo não revelou quanto investiu no projeto nem pretende, por ora, repassar o custo ao preço final.

    Meta é o fim do ano

    Segundo Lindenberg, o cronograma prevê que todas as linhas programadas recebam a impressão digital até dezembro. “Parte da produção nacional já sai com o selo. No caso de importados, estamos adaptando as linhas nos países de origem”, explica a executiva.

    Diageo lança selo digital com IA para garantir autenticidade de destilados no Brasil - Imagem do artigo original

    Imagem: Paula Lindenberg

    Impacto no mercado e desafios legais

    A ABBD, entidade que reúne gigantes como Pernod Ricard, Bacardi Martini, Beam Suntory e Brown-Forman, acompanha o projeto. Compartilhar a tecnologia com concorrentes, porém, não é prioridade imediata. “Cada empresa deve escolher o formato que melhor se encaixa no seu portfólio”, pontua Lindenberg, ressaltando que o setor apoia a adoção de qualquer ferramenta que reduza riscos ao consumidor.

    A presidente da Diageo defende, contudo, que a etiqueta digital precisa vir acompanhada de leis mais duras. Ela argumenta que os falsificadores contam com punições brandas e investigações lentas, o que mantém o negócio lucrativo. “A tecnologia é um passo; o outro é enquadrar a prática como crime grave, com sanções proporcionais ao dano causado”, diz.

    Panorama regulatório

    No Congresso, tramitam propostas que endurecem penas para adulteração e contrabando de bebidas, mas o debate avança lentamente. Enquanto isso, estados recorrem a fiscalizações pontuais, nem sempre eficazes. Especialistas ouvidos pelo setor apontam que, sem rastreabilidade digital, a fiscalização depende de lacres físicos fáceis de burlar.

    Quem está por trás do projeto

    Fundada em Londres em 1997, a Diageo faturou US$ 20,2 bilhões em 2025 e detém algumas das marcas de destilados mais vendidas no planeta. A Securetrace, parceira tecnológica, atua há duas décadas em sistemas antifraude para documentos, moedas e produtos de alto valor agregado.

    Para o diretor-geral da Securetrace, a experiência com a cédula de R$ 100 foi crucial. “O princípio é o mesmo: criar um elemento praticamente impossível de reproduzir fora do ambiente controlado da fábrica”, resume. Como na nota de dinheiro, a verificação cotidiana é simples, mas a engenharia reversa requer parque industrial caro e conhecimento técnico avançado.

    Expansão global em estudo

    Embora o Brasil seja o primeiro mercado a receber o Selo Drink Seguro, a Diageo analisa expandir o modelo para outros países latino-americanos com altos índices de falsificação. A decisão dependerá de resultados locais e de negociação com autoridades fiscais de cada região.

    Consumidor no centro da estratégia

    Com a etiqueta digital, a empresa espera transformar o comprador em “fiscal voluntário”. Cada leitura bem-sucedida gera estatísticas sobre região, horário e tipo de produto, permitindo mapear eventuais focos de adulteração. O app, que não exige cadastro, coleta apenas dados anônimos.

    Além de proteger a saúde pública, a Diageo aposta que a iniciativa fortalece a imagem de suas marcas premium, muitas vezes alvo preferencial de falsificadores. “Segurança e qualidade andam juntas. Num momento em que o consumidor quer transparência, oferecer um canal de verificação é quase obrigatório”, conclui Lindenberg.

    Rafael Oliveira é criador de conteúdo digital e editor com foco em entretenimento, reality shows e notícias do mundo dos famosos. Seu trabalho é voltado para levar informações rápidas, atualizadas e relevantes sobre os principais acontecimentos da TV e das redes sociais.