As equipes de resgate contabilizam 85 cidadãos dos Estados Unidos entre as 4.200 pessoas ainda sem localização conhecida depois da série de enchentes e deslizamentos que devastou o norte do Nepal. Desde quarta-feira, quando o rompimento de uma geleira provocou a cheia do rio Lende Khola, mais de 900 corpos foram retirados dos escombros de vilarejos arrastados pela água.
Com o caos no acesso por estradas e trilhas, as autoridades nepalesas lutam para chegar às áreas isoladas enquanto familiares nos EUA aguardam notícias. O Departamento de Estado confirma ter retirado nove americanos, mas admite que a falta de comunicação em regiões montanhosas impede saber com precisão quem conseguiu escapar.
Colapso glaciar detonou série de tragédias em cadeia
O gatilho para a catástrofe foi o colapso de uma geleira situada próxima à fronteira sino-nepalesa. O desprendimento de milhares de toneladas de gelo e rocha desceu pela encosta, represou o Lende Khola por alguns minutos e, na sequência, gerou uma onda de lama que rompeu barreiras naturais e artificiais.
Quando a massa d’água ganhou velocidade, comunidades inteiras foram atingidas sem aviso suficiente. Casas de madeira, pontes pênseis e estradas estreitas simplesmente desapareceram. Especialistas do Serviço Geológico do Nepal apontam que o fenômeno se enquadra na categoria de “enchente por ruptura de lago glaciar” – ocorrência que tem se tornado mais frequente com o avanço do degelo no Himalaia.
Peregrinos no caminho do monte Kailash
A maioria dos americanos desaparecidos viajava em pequenos grupos turísticos que seguiam rotas de peregrinação até o monte Kailash, pico sagrado de 6.638 metros reverenciado por hindus, budistas, jainistas e adeptos do bön tibetano. No calendário religioso, agosto marca um dos períodos de maior fluxo de devotos, atraindo visitantes de todos os continentes.
Jitendra Patel, 72, estava em uma excursão organizada por uma agência de Chicago quando a enchente varreu o vilarejo onde ele e cerca de 30 companheiros pernoitavam. “Meu coração afundou ao saber da notícia”, relatou o filho Sunny Patel, que tenta informações de Katmandu.
Em outra caravana, o empresário Venus Rajnikant Patel, 45, sumiu após o grupo perder contato por rádio. A amiga e colega de faculdade Jolene Gosha mantém a esperança: “Só esperamos que, por algum acaso, ele tenha conseguido chegar a um terreno mais alto”.
Famílias multiplicam redes de busca
A montanhosa província de Karnali, epicentro do desastre, tem sinal intermitente de telefone e internet. Diante disso, parentes nos EUA formam redes informais para cruzar listas de abrigados. A texana Shreya Ahuja tenta falar com os pais, Deepak e Madju Ahuja, ambos empresários que participavam da peregrinação. “Mando mensagens, ligo o dia todo e nada”, contou à emissora pública NPR.
Shekhar Agrawal, radicado em Nova Jersey, também espera por notícias de duas parentes — uma delas adolescente — que viajavam rumo a um posto de imigração próximo à fronteira com o Tibete quando o contato foi interrompido.
Agências relatam número crescente de sumidos
A Himalayan Glacier, operadora conhecida no circuito de trekking tailandês e norte-americano, informou ter perdido contato com oito clientes dos EUA. Já a organização Isha Foundation, que promove retiros espirituais, declarou 22 peregrinos ilhados ou sem comunicação, entre eles Mary Sorenson, avó de 68 anos, moradora do estado da Geórgia.
Embora os nomes não tenham sido divulgados oficialmente, as embaixadas dos EUA em Katmandu e Pequim confirmam que as duas listas foram adicionadas ao banco de dados compartilhado com o governo nepalês para cruzamento com registros de hospitais, abrigos temporários e necrotérios.
Dificuldades logísticas desafiam socorristas
Helicópteros do Exército do Nepal e de empresas privadas realizam voos diários, mas a altitude elevada, chuvas intermitentes e neblina constante limitam a janela de operação a poucas horas por dia. Em terra, colunas de voluntários precisam escavar encostas instáveis com retroescavadeiras improvisadas, já que máquinas pesadas não conseguem avançar pelas trilhas estreitas.

Imagem: Internet
Segundo o Centro Nacional de Gestão de Riscos, 42 pontes desabaram e cerca de 180 quilômetros de estradas rurais estão intransitáveis. “A prioridade é abrir corredores humanitários até as aldeias mais isoladas, onde há relatos de falta de água potável”, disse o diretor do órgão, Mahendra Rai.
EUA enviam pacote emergencial de US$ 3,6 milhões
Em Washington, o porta-voz do Departamento de Estado Tommy Pigott anunciou auxílio inicial de US$ 3,6 milhões, valor destinado à compra de mantimentos, kits de higiene e abrigo temporário para até 10 mil famílias. “Nossa prioridade absoluta é a segurança dos americanos afetados, mas também estamos comprometidos em apoiar a população local”, declarou.
As primeiras remessas desembarcaram no aeroporto internacional de Katmandu no fim de semana: 500 cobertores térmicos, 500 mosquiteiros, 500 placas isolantes e quase três toneladas de alimentos não perecíveis. A distribuição é coordenada com o Ministério do Interior do Nepal, que liberou comboios para seguir por terra até a região de Humla assim que as condições permitirem.
Cooperação entre embaixadas e governo nepalês
Além do suporte logístico, diplomatas norte-americanos baseados em Katmandu e em Pequim mantêm linha direta com autoridades de fronteira para acelerar o tráfego de helicópteros cargueiros que sobrevoam espaço aéreo chinês. A manobra reduz em até 40 minutos o tempo de voo entre o aeroporto militar de Lhasa e as comunidades nepalesas mais atingidas.
Paralelamente, representantes consulares recolhem material genético de familiares nos Estados Unidos para alimentar o banco de DNA do Departamento de Identificação de Desastres do Nepal. O objetivo é acelerar a confirmação de vítimas que não portavam documentos no momento da enchente.
Trauma nacional e debate sobre mudanças climáticas
Para o governo nepalês, o episódio figura entre as piores tragédias naturais desde o terremoto de 2015. No parlamento, parlamentares cobram a atualização do plano de emergência para lagos glaciais e criticam a lentidão na liberação de recursos para a instalação de sistemas de alarme antecipado.
Ambientalistas reforçam que o degelo acelerado no Himalaia, atribuído ao aquecimento global, amplia o risco de rompimento de barreiras naturais formadas por gelo e sedimentos. O Instituto Internacional para Mudanças Climáticas do Sul da Ásia calcula que o número de lagos glaciais “em situação crítica” dobrou na última década.
Enquanto isso, busca por sobreviventes continua
No povoado de Yari, onde apenas a torre de uma antiga gompa budista permaneceu de pé, voluntários utilizam cães farejadores para tentar localizar pessoas soterradas. O trabalho avança lentamente: a lama misturada a detritos atinge em alguns pontos quatro metros de profundidade.
Para quem aguarda notícias, cada minuto parece eterno. “Sei que as chances diminuem a cada dia, mas preciso acreditar que meu pai está em algum lugar esperando por ajuda”, diz Sunny Patel, olhando o celular à espera de uma ligação que interrompa o silêncio angustiante.
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