Com 32% das intenções de voto e folga de 20 pontos sobre os principais rivais, o senador Cleitinho Azevedo (Republicanos) colocou as rodovias mineiras no centro da sua campanha ao Palácio Tiradentes. Longe dos estúdios de Belo Horizonte, ele distribui adesivos de pára-brisa, grava lives entre caminhões e cumpre roteiro que replica a fórmula vitoriosa ao Senado em 2022, agora turbinada por uma máquina digital mais robusta.
Enquanto Alexandre Kalil (PDT) e Patrus Ananias (PT) concentram agendas na capital, Cleitinho percorre cidades médias, feiras agropecuárias e trechos da BR-262, onde carros formam fila à beira do asfalto para exibir o rosto do candidato. O deslocamento permanente é visto por aliados como antídoto contra a sensação de que o governo estadual pertence apenas à Região Metropolitana.
Adesivaços e carreatas: o asfalto como palanque
A primeira semana oficial de campanha ilustrou a prioridade. Em 19 de agosto, Cleitinho transmitiu ao vivo do quilômetro 480 da BR-262, entre Nova Serrana e Bom Despacho. Munido de um rolo de adesivos, o próprio candidato decorava automóveis, parava para selfies e repetia o bordão: “Nossa estrutura é adesivo, celular e estrada”. A equipe não divulga quantas ações semelhantes já ocorreram, mas confirma passagens por São Sebastião do Oeste, Itaúna, Formiga e Leandro Ferreira, todas no Centro-Oeste mineiro.
Segundo a coordenação, voluntários recebem orientação para respeitar regras de trânsito e evitar bloqueios. A Polícia Rodoviária Federal e a concessionária que administra o trecho afirmam não ter registrado intercorrências, mas monitoram a movimentação. Internamente, o comitê defende que a presença física reverte dois sentimentos fortes no interior: abandono e desconfiança em relação a políticos que só pedem voto pela internet.
A força dos pequenos municípios
Minas Gerais tem 853 cidades e pouco mais de metade do eleitorado mora fora das 60 maiores, um dado que embasa a rota de Cleitinho. No sábado, 29 de agosto, ele subiu a um palanque improvisado em Frei Gaspar, no Vale do Mucuri, ao lado da prefeita Jackeliny Nascimento (PT), que ignorou a orientação da direção petista e declarou apoio ao senador. No dia seguinte, seguiu para Pirapora, Brasília de Minas e Montes Claros, ampliando o raio de atuação para o Norte do estado.
Lives diárias e picos de busca na internet
Se a estrada rende contato “olho no olho”, o celular garante capilaridade. Relatório interno de engajamento mostra que a campanha transmite ao menos uma live por dia, sempre com o slogan “ao vivo com o povo”. O formato mescla bastidores, depoimentos de eleitores e trechos de discursos, gerando clipes reutilizados no TikTok, no Reels e em grupos de WhatsApp.
Dados do Google Trends indicam que as buscas pelo nome do candidato saltaram no fim de julho e começo de agosto, período em que ele anunciou a retirada da pré-candidatura, chorou em vídeo, invadiu a convenção nacional do Republicanos para reverter a decisão e saiu de lá cabeça de chapa. O vaivém, que alimentou memes e debates, serviu de gatilho para novos seguidores.
Dramaturgia política como estratégia
Para o professor Roberto Andrés, da UFMG, “a produção de fatos, muitas vezes carregados de emoção, é combustível para o algoritmo”. Segundo ele, Cleitinho alia essa dramaturgia a uma engrenagem analógica – carros de som, estruturas alugadas em feiras e o apoio de prefeitos – o que faz a mensagem chegar a eleitores de baixa conectividade.
Capital só no momento certo
Até agora, a campanha manteve distância calculada de Belo Horizonte. As únicas aparições ocorreram em 16 de agosto, no debate da TV Bandeirantes, e em 19 de agosto, para reuniões fechadas. O primeiro grande ato na cidade foi marcado para 6 de setembro, na região do Barreiro, reduto operário onde Cleitinho pretende repetir o formato de adesivaço, mas com reforço de lideranças evangélicas alinhadas ao Republicanos.
Assessores argumentam que retardar a entrada na capital evita “desperdício de munição” antes de a disputa ganhar temperatura máxima e, ao mesmo tempo, impede que os adversários o rotulem como candidato do interior apenas. “Ele chega a BH com aura de favorito, não como quem precisa se apresentar”, resume um auxiliar.

Imagem: Internet
Números que alimentam a confiança
O Datafolha de 21 de agosto retrata o cenário: Cleitinho soma 32% das intenções de voto; Kalil e Patrus aparecem empatados em 12%. A margem de erro é de três pontos percentuais para mais ou para menos. Entre os entrevistados que moram em cidades com menos de 50 mil habitantes, a vantagem do senador ultrapassa 25 pontos, segundo a planilha da pesquisa.
No QG pedetista, o diagnóstico é de que o líder se beneficia do recall de 2022 e do vácuo deixado pelo governador Romeu Zema (Novo) na articulação sucessória. Já o PT sustenta que sua votação tende a crescer quando a campanha presidencial avançar, embora a costura dependa do desempenho de Lula no estado.
Kalil e Patrus reagem
- Kalil intensificou agendas na Grande BH, reuniu-se com o deputado Aécio Neves (PSDB) e passou a explorar a crise financeira do estado, discurso que dominou sua passagem pela prefeitura de Belo Horizonte.
- Patrus, lançado às pressas após a desistência de Reginaldo Lopes, busca colar a imagem ao governo federal e reativar sua histórica base nos movimentos sociais.
Ambos, contudo, reconhecem em caráter reservado que a pulverização de municípios dificulta compensar a vantagem do adversário.
Por que o modelo pode funcionar
A especialista em marketing eleitoral Ana Cláudia Pimenta lembra que Minas concentra 10% do eleitorado brasileiro, mas não possui um grande polo populacional único, como São Paulo ou Rio de Janeiro. “Quem monta palanque itinerante ganha visibilidade local sem perder o alcance estadual, especialmente quando converte cada parada em conteúdo digital”, explica.
Nesse sentido, Cleitinho recria o método de Romeu Zema em 2018, porém com maior densidade nos aplicativos. A diferença é que o senador dispõe de verba partidária mais robusta, fruto da aliança com o Republicanos, e de uma rede de prefeitos dispostos a disputar cargos federais sob sua sombra.
Riscos no horizonte
Analistas alertam, contudo, para dois pontos frágeis: a sobreexposição – qualquer gafe viraliza na mesma proporção que os acertos – e a necessidade de apresentar propostas além do discurso antipolítica que o elegeu senador. Ainda assim, o cronograma até outubro prevê mais 40 cidades, novo giro pelo Triângulo Mineiro e, por fim, mergulho nas periferias de Belo Horizonte, etapa considerada decisiva para fechar o ciclo.
Até lá, a campanha segue no asfalto. Na manhã desta quarta-feira, Cleitinho acordou em Curvelo, colou adesivos diante de uma borracharia e encerrou a live com a promessa de sempre: “Se Deus quiser e o povo ajudar, a gente vira Minas de ponta-cabeça”. A frase resume a aposta do candidato: misturar religiosidade, proximidade e conexão 4G para manter a dianteira que, por ora, parece inabalável.
