Ao oficializar sua candidatura à Presidência da República pelo PSD, neste domingo (26), o governador de Goiás, Ronaldo Caiado, afirmou que a corrupção não tem coloração ideológica e que políticos flagrado em desvios de verbas públicas, seja à esquerda ou à direita, “são simplesmente ladrões”. A declaração foi feita durante a convenção nacional do partido, em São Paulo, e serviu como resposta a uma pergunta sobre a possibilidade de Flávio Bolsonaro (PL) monopolizar o campo conservador nas eleições de 2026.
Diante de correligionários e do presidente nacional da sigla, Gilberto Kassab, Caiado sustentou que chegará ao segundo turno mesmo aparecendo com 4 % na última pesquisa Datafolha, que traz Lula (PT) com 40 % e Flávio Bolsonaro com 32 %. O goiano aposta nos debates televisivos para se diferenciar dos adversários e reforça que a disputa entre petistas e bolsonaristas “se retroalimenta” sem oferecer soluções concretas para o eleitorado.
Candidato aposta em debates para quebrar polarização
O presidenciável do PSD argumenta que os confrontos ao vivo permitirão expor o que chama de “falta de resultados” das administrações petistas e bolsonaristas. Segundo ele, a discussão direta dos programas de governo mostrará quem tem propostas viáveis para saúde, educação e segurança pública. “Quando começarem os debates, a população vai enxergar o diferencial”, disse, confiante de que sua performance desidrataria a dianteira de Lula e o aproximaria do eleitor conservador atualmente vinculado a Bolsonaro.
Apesar da distância nas pesquisas, Caiado cita um “clima favorável” identificado em viagens de pré-campanha, especialmente nas regiões Sul, Sudeste e em parte do Nordeste. O goiano avalia que o desencanto de eleitores nordestinos após sucessivos mandatos petistas abrirá espaço para reduzir a vantagem do ex-presidente Lula na região, considerada reduto histórico do PT.
Discurso mira corrupção e credibilidade
Ao igualar corruptos de qualquer espectro ideológico, Caiado reforça uma linha discursiva que pretende afastá-lo da chamada “velha política”. Para o governador, o eleitor deve rejeitar candidatos que “passam mais tempo explicando a própria vida do que defendendo o interesse público”. A fala é vista como crítica indireta tanto a Lula, condenado e posteriormente absolvido nos processos da Lava Jato, quanto a Flávio Bolsonaro, investigado por suposto esquema de rachadinhas na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro.
Kassab defende palanques independentes
Ao lado do cabeças-de-chapa, Gilberto Kassab usou a convenção para reiterar que o PSD pretende disputar o Planalto sem se alinhar ao chamado centrão bolsonarista nem ao núcleo petista. Segundo ele, siglas tradicionalmente classificadas como de centro “já estão comprometidas” com um dos dois polos, enquanto o PSD busca manter independência tanto no discurso quanto nos palanques estaduais.
O dirigente garante que a legenda oferecerá estrutura para Caiado em todos os 26 estados e no Distrito Federal. Como exemplos de cenários alinhados, citou Rio Grande do Sul, Paraná, Santa Catarina, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais e a capital federal. Em locais onde a coligação estadual abriga apoiadores de outros presidenciáveis — caso de São Paulo, Rio de Janeiro e Pernambuco — Kassab minimizou divergências e disse confiar que Caiado vencerá no voto majoritário.
Situações regionais
- São Paulo – Tarcísio de Freitas (Republicanos) apoia Flávio Bolsonaro, mas o PSD projeta vitória de Caiado no estado, apostando no eleitorado urbano e no agronegócio paulista.
- Rio de Janeiro – O prefeito do Rio, Eduardo Paes (PSD), dará palanque múltiplo, inclusive a Lula, mas Kassab sustenta que a população fluminense “precisa” de Caiado no Planalto para que o país não repita problemas locais.
- Pernambuco – Raquel Lyra (PSDB), apoiada pelo PSD no governo estadual, congrega eleitores de vários presidenciáveis; ainda assim, a executiva nacional aposta em dobradinha com Caiado.
Números das pesquisas e projeções de segundo turno
O levantamento mais recente do Datafolha, divulgado na semana passada, mostra Lula na liderança com 40 %, seguido por Flávio Bolsonaro (32 %) e, mais atrás, Ronaldo Caiado (4 %). Mesmo ainda fora dos dois primeiros lugares, o goiano acredita que seu histórico de gestor — foi senador, deputado federal e está no segundo mandato à frente do governo de Goiás — demonstrará capacidade de execução superior à dos rivais.
Na simulação de segundo turno entre Lula e Caiado, o instituto aponta 47 % para o petista e 40 % para o candidato do PSD, diferença que a campanha considera “reversível” graças à margem de eleitores indecisos e à possibilidade de migração de votos de centro-direita.
Experiência como trunfo
Durante a convenção, aliados citaram programas estaduais de saúde e investimentos em segurança pública em Goiás como prova de que Caiado entrega resultados concretos. O próprio candidato destacou a expansão do atendimento médico regionalizado e a queda de indicadores de criminalidade no estado para defender que possui condições de replicar políticas bem-sucedidas em âmbito nacional.
Estrategistas miram eleitor órfão de terceira via
Embora a expressão “terceira via” tenha perdido força após o colapso de candidaturas de centro em 2022, marqueteiros de Caiado enxergam um contingente significativo de eleitores cansados da polarização. O goiano pretende investir em agendas econômicas liberais, manutenção de programas sociais e endurecimento contra o crime organizado, posições que, segundo a campanha, dialogam com perfis de classe média urbana e produtores rurais que rejeitam radicalismos.

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A estratégia inclui manter distância de pautas de costumes que mobilizam a base bolsonarista, concentrando o debate em eficiência administrativa. Para interlocutores de Caiado, casos de corrupção envolvendo figuras de ambos os polos reforçam a necessidade de uma opção que “não carrega processos às costas”.
Agenda nacional e próximos passos
Nos próximos 45 dias, o candidato percorrerá intensivamente a região Nordeste, considerada crucial para reduzir a vantagem de Lula. Também estão programados atos nos maiores colégios eleitorais do Sudeste, onde a equipe pretende explorar o discurso anticorrupção e apresentar resultados da gestão goiana. A campanha deve enfatizar ainda propostas de ampliação do acesso à internet de alta velocidade e incentivos à indústria de transformação.
PSD vê espaço para crescer no Congresso
Kassab projeta que a candidatura própria à Presidência impulsionará chapas proporcionais e permitirá ao PSD ampliar a bancada na Câmara e no Senado. O dirigente pretende usar o tempo de televisão do partido para exibir Caiado como “símbolo de probidade” e relacionar essa imagem a candidatos a deputado e senador.
Segundo cálculos internos, a sigla pode saltar das atuais 42 cadeiras na Câmara para algo próximo de 60, o que, aliado a uma eventual vitória no Planalto, transformaria o PSD em força hegemônica do centro político.
Desafios no tabuleiro político
A despeito do otimismo, analistas apontam obstáculos. O primeiro é romper a barreira de intenção de voto já consolidada em torno dos polos petista e bolsonarista. Outro desafio será administrar palanques onde aliados locais priorizam relações com Lula ou Flávio Bolsonaro em troca de recursos federais. Sem coligações robustas, Caiado depende de desempenho pessoal nos debates e de forte presença nas redes sociais para ampliar a visibilidade.
Mesmo assim, a oficialização da candidatura com apoio unânime da executiva nacional do PSD sinaliza que a legenda está disposta a bancar um projeto de médio prazo, ainda que o resultado em 2026 não seja imediatamente vitorioso.
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