Briga de trânsito no Paraguai entrega brasileiro foragido por triplo homicídio há quase quatro décadas

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    Uma discussão de trânsito em Assunção, capital do Paraguai, acabou revelando a localização de Luciano Pampado Casquel, 68 anos, condenado por um triplo homicídio ocorrido em 1987 em São Manuel (SP). Foragido havia 39 anos, ele vivia no país vizinho com documentos falsos e quase foi preso no próprio local da briga, depois de apontar uma pistola para um caminhoneiro diante de dezenas de testemunhas.

    Graças às imagens gravadas por moradores e repassadas à polícia paraguaia, a identidade real do brasileiro veio à tona. Agora, a Polícia Civil paulista, em parceria com a Interpol, desencadeia o processo para que o condenado cumpra no Brasil a pena de 14 anos de prisão em regime fechado que permanece pendente.

    Momento de tensão gravado em área escolar

    O confronto aconteceu em 28 de agosto, no bairro Mbocayaty, zona urbana da capital paraguaia. Segundo relato de testemunhas, um caminhão avançava lentamente por uma rua estreita quando foi fechado pelo carro dirigido por Casquel — que utilizava naquela ocasião a identidade de Luciano Pereira Castelo. Irritado, ele desceu armado e passou a exigir passagem, apontando uma pistola para o motorista do caminhão.

    Um morador registrou a cena com o celular. O vídeo viralizou nas redes locais, causando indignação extra por ter ocorrido próximo a uma escola, justamente em horário de saída de alunos. Tamanho barulho levou militares da Direção-Geral de Material Bélico (DGMB), órgão que fiscaliza armamentos no país vizinho, a identificar o agressor poucas horas depois.

    Do flagrante à busca domiciliar

    • Equipes da DGMB localizaram o suspeito em Lambaré, município contíguo a Assunção.
    • Na casa, Casquel entregou espontaneamente duas pistolas; uma delas, segundo os agentes, seria a usada na ameaça.
    • Ele prestou depoimento ao Ministério Público paraguaio e, como não havia flagrante nem ordem internacional confirmada naquele instante, saiu em liberdade provisória.

    A vida sob nome falso no Paraguai

    Registros da polícia paraguaia indicam que o brasileiro vivia no país ao menos desde o início dos anos 2000. Documentos apreendidos mostram que ele se apresentava como comerciante do ramo de transportes e utilizava número de identidade local autêntico, obtido com certidão de nascimento adulterada.

    Não foi a primeira vez que Casquel entrou no radar das autoridades paraguaias. Em 2010, uma investigação sobre possível lavagem de dinheiro e uso de identidade falsa chegou ao nome de Luciano Pereira Castelo, mas o inquérito acabou arquivado por falta de provas. A suspeita de que se tratava de um brasileiro nunca foi totalmente descartada, porém nenhum mandado de prisão internacional aparecia nas bases consultadas na época.

    Como a farsa ruiu

    1. Após a briga, a DGMB consultou a base de dados da Interpol para verificar a procedência das armas.
    2. O nome “Castelo” não retornou alertas, mas as impressões digitais coletadas durante o depoimento foram enviadas ao banco internacional.
    3. Menos de 48 horas depois, peritos brasileiros confirmaram tratar-se de Luciano Pampado Casquel, condenado no Brasil pelo triplo homicídio de São Manuel.

    O crime de 1987 que ficou sem punição

    Em 13 de setembro de 1987, três homens foram mortos a tiros num sítio em São Manuel, região de Botucatu, interior paulista. De acordo com os autos, a execução foi motivada por disputa de terras. Casquel era uma das partes interessadas; segundo a acusação, ele orquestrou a emboscada e participou diretamente dos disparos.

    O Tribunal do Júri o sentenciou por homicídio qualificado. Após recursos, o Superior Tribunal de Justiça reduziu a punição para 14 anos em regime fechado, mantendo a qualificadora de motivo fútil. Antes da expedição definitiva do mandado de prisão, porém, o réu sumiu. Naquele tempo, o controle sobre fronteiras era menor, facilitando o passo rumo ao Paraguai.

    Papel da Polícia Civil de Botucatu

    Com a confirmação de que o homem filmado em Assunção era o foragido, a Delegacia Seccional de Botucatu acionou a Justiça Federal para pedir a extradição. O processo inclui:

    • Emissão de ordem de prisão internacional por intermédio da Interpol.
    • Envio de cópia da sentença condenatória traduzida oficialmente para o espanhol.
    • Solicitação de captura preventiva ao Ministério do Interior paraguaio.

    Próximos passos até a transferência

    Especialistas em cooperação jurídica ouvidos pela reportagem explicam que, embora Brasil e Paraguai mantenham tratado bilateral de extradição, o procedimento pode levar de alguns meses até mais de um ano. A defesa de Casquel ainda pode apresentar recursos na Suprema Corte paraguaia, alegando tempo decorrido do crime ou eventual prescrição segundo as leis locais.

    Por outro lado, o fato de ele ter sido condenado e ter fugido do cumprimento da pena reduz consideravelmente as chances de êxito desses recursos. Quando a extradição for autorizada, agentes da Polícia Federal brasileira viajarão a Assunção para escoltá-lo até São Paulo, onde será recolhido a um presídio de regime fechado.

    Possíveis acusações adicionais

    Além do homicídio já julgado, Casquel pode responder a novos delitos:

    • Uso de documento falso tanto no Paraguai quanto no Brasil.
    • Porte ilegal de arma de fogo em território estrangeiro.
    • Falsidade ideológica para obtenção de benefícios migratórios.

    Dependendo do entendimento das autoridades paraguaias, essas infrações podem ser julgadas localmente antes da entrega ao Brasil, retardando o retorno do condenado.

    Impacto do caso na cooperação regional

    A localização de um foragido histórico graças a um vídeo de celular ressalta o avanço da troca de informações criminais entre Brasil e Paraguai. Segundo fontes da Polícia Civil, a integração de sistemas biométricos com a base da Interpol foi decisiva para o desfecho rápido do caso. Em situações semelhantes ocorridas nos anos 1990, a confirmação de identidade podia levar semanas; desta vez, bastaram dois dias.

    Autoridades paraguaias afirmam que pretendem reforçar o controle sobre concessão de documentos nacionais a estrangeiros, sobretudo em zonas de fronteira. Já a polícia de São Paulo aponta para a importância de manter mandados de prisão antigos devidamente atualizados em plataformas internacionais.

    Alerta para outros fugitivos

    O episódio reacende o debate sobre a quantidade de brasileiros condenados que se refugiam em países vizinhos. Relatórios oficiais estimam mais de 600 procurados vivendo na faixa fronteiriça do Cone Sul. Para o delegado responsável pelo caso, a repercussão pública do flagrante de Casquel pode desencorajar alguns deles ou, no mínimo, facilitar novas identificações a partir de pequenas ocorrências cotidianas.

    Rafael Oliveira é criador de conteúdo digital e editor com foco em entretenimento, reality shows e notícias do mundo dos famosos. Seu trabalho é voltado para levar informações rápidas, atualizadas e relevantes sobre os principais acontecimentos da TV e das redes sociais.