Antes mesmo do nascer do sol em Cubatão, no litoral de São Paulo, uma bicicleta carregada de garrafas térmicas e copos de 120 ml já disputa espaço no trânsito. O veículo é conduzido por Kelleby Pietro, 18 anos, que transformou a magrela em um drive-thru de café capaz de lhe render a principal fonte de renda — e, de quebra, fazê-lo viralizar na internet com mais de 50 mil seguidores.
O que começou como um teste para escapar do baixo salário de lavador de carros virou rotina de jornada dupla: venda a céu aberto pela manhã e à tarde, aulas à noite. Entre um semáforo e outro, o rapaz revela faturar quantias que surpreendem muita gente nas redes, onde também exibe o preparo das bebidas e a interação com clientes que pagam via “Pix da confiança”.
A alvorada do negócio
Rotina de 16 horas da cozinha à calçada
Às 4h30, a cozinha da casa de Kelleby ganha cheiro de café fresco. Ele enche termos com três variedades: puro adoçado, puro sem açúcar e com leite. Tudo vai para dois coolers acoplados na parte dianteira da bicicleta, que ainda guarda garrafas de água para complementar as vendas.
Por volta das 6h, o jovem já ocupa a Avenida Nove de Abril, principal artéria do centro de Cubatão. Ali ele estabelece o ponto fixo matinal até o fluxo de carros reduzir. Depois volta para casa, almoça e repete o processo para um segundo turno, muitas vezes em outras localidades de grande movimento, como filas de postos de saúde ou largadas de corridas de rua. Somado ao período escolar noturno, o expediente pode ultrapassar 16 horas.
Cardápio enxuto, preço fixo
O copo único de 120 ml simplifica estoque e serviço. Cada unidade sai por R$ 4, valor escolhido após pesquisar quanto os moradores costumam pagar por um expresso em padarias da região. A opção de volume reduzido permite que o cliente consuma a bebida ainda quente, evitando desperdício. Quando a temperatura sobe, a demanda cai; se esfria no fim de tarde, as garrafas se esgotam em minutos, segundo o vendedor.
Das ruas para as telas
Um vídeo e cem mil visualizações
A guinada digital ocorreu sem planejamento. Um motorista gravou o rapaz servindo café no semáforo e publicou no TikTok, ultrapassando 100 mil visualizações em poucas horas. A repercussão fez Kelleby investir em suporte de celular, ring light portátil e conteúdo diário. Hoje ele mostra do preparo à contagem do caixa, o que alimenta curiosidade de seguidores e atrai novos clientes em busca do “café do TikTok”.
Pix da confiança evita fila
Para reduzir o tempo de parada dos carros, Kelleby imprime um QR Code no próprio copo. O motorista paga depois, sem necessidade de comprovar o depósito no ato. A tática demanda acreditar na honestidade alheia, mas o ambulante garante que poucas pendências ficam sem quitação. Segundo ele, a maioria dos fregueses, empolgada com a novidade, acaba enviando valores acima do preço tabelado — gratificações que já chegaram a R$ 100 e compensam eventuais calotes.

Imagem: Internet
Obstáculos e aprendizados
Desconfiança inicial
No primeiro dia de vendas, os vidros dos carros se fechavam assim que o jovem se aproximava. Para quebrar a barreira, ele ofereceu degustação gratuita até que os motoristas percebessem a higiene do processo e a qualidade do café. A estratégia funcionou: a clientela passou a recomendar o serviço e até a se filmar enquanto comprava, gerando conteúdo espontâneo nas redes.
Calotes versus generosidade
A confiança estendida ao público nem sempre é retribuída. Há registros de quem bebeu e não pagou, mas o balanço é positivo. “O calote de um se converte em gorjeta de outro”, resume. Quando chove ou faz calor excessivo, a renda diminui; porém, o tráfego virtual costuma aumentar, já que Kelleby faz transmissões ao vivo preparando as garrafas extras que serão vendidas quando o clima melhorar.
Planos e influência
Orientando novos ambulantes
A caixa de entrada do Instagram vive cheia de dúvidas sobre como começar algo parecido: preço de garrafas térmicas, tempo de conservação do café, melhores pontos de venda. Kelleby responde a maioria e diz que se sente na obrigação de devolver o incentivo que recebeu. Alguns seguidores relatam ter iniciado negócios de caldo de cana ou suco seguindo as recomendações do barista sobre rodas.
Expansão sem perder a essência
Apesar do sucesso, o jovem não pensa, por enquanto, em abandonar a bicicleta. O investimento planejado é trocar as garrafas por modelos de maior capacidade e adquirir uniforme para reforçar a identidade da marca. Futuramente, cogita um carrinho elétrico que permita cobrir distâncias maiores sem perder a mobilidade que virou sua assinatura.
Enquanto isso, a cena se repete a cada madrugada: a luz da cozinha acende, a água ferve e Cubatão desperta ao aroma do drive-thru mais inusitado da cidade, agora famoso no asfalto e nas telas dos celulares.
