O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça avisou reservadamente integrantes do governo Luiz Inácio Lula da Silva de que a ordem do Ministério da Justiça para recolher mais de cem policiais federais cedidos a diferentes órgãos poderá ser enquadrada como tentativa de obstrução de Justiça se atingir a Corte.
Ex-titular da Justiça no governo Jair Bolsonaro, Mendonça conduz no STF dois inquéritos considerados sensíveis: o que investiga o Banco Master e o que apura desvios bilionários em benefícios do INSS. Os processos envolvem parlamentares de vários partidos e, em alguns pontos, alcançam também magistrados da própria Corte. A proximidade das eleições reforçou a preocupação em torno de qualquer interferência externa.
Delegados continuam no tribunal
Atualmente, quatro delegados da Polícia Federal prestam serviço ao STF: dois estão lotados no gabinete de Mendonça, um auxilia Luiz Fux e outro trabalha com Alexandre de Moraes, responsável por investigações que miram o entorno de Bolsonaro, como o inquérito das fake news e a ação penal sobre a suposta trama golpista.
Apesar de mais de 50 órgãos federais já terem sido notificados para devolver servidores da PF, o STF ainda não recebeu ofício semelhante. Com isso, os delegados permanecem em suas funções no tribunal. Nos bastidores, ministros interpretaram a iniciativa do Planalto como possível forma de pressão a menos de três meses do pleito presidencial.
Justificativa oficial não convence STF
O Ministério da Justiça afirma que a medida busca reforçar o combate ao crime organizado. A explicação, porém, não convenceu interlocutores da Corte. Um integrante da PF comparou o argumento a “jogar um copo d’água no Rio Tietê e dizer que isso melhora a qualidade da água”.
Questionado durante café da manhã com a imprensa na sexta-feira (3), o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, disse que ainda não há decisão sobre a retirada dos delegados lotados no Supremo. “Precisamos analisar a posição estratégica”, declarou.
Imagem: Rosinei Coutinho/STF
Pressão sobre caso que envolve filho do presidente
No inquérito que investiga fraudes no INSS, a Polícia Federal apura se Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, teria atuado como sócio oculto de Antônio Camilo Antunes, conhecido como Careca do INSS — hipótese negada pelo empresário. A empresária Roberta Luchsinger, amiga de Lulinha, foi alvo de busca e apreensão e teve sigilo quebrado por ordem de Mendonça. Auxiliares do Planalto defendem o arquivamento da investigação.
Até o momento, o gabinete de André Mendonça não se pronunciou publicamente sobre o eventual recolhimento dos delegados que trabalham no STF.
Com informações de O Globo
