Num comício à beira-mar de Copacabana neste domingo (16), primeiro dia oficial da corrida presidencial, o senador Flávio Bolsonaro (PL) lançou sua candidatura ao Palácio do Planalto prometendo um “tesouraço” em impostos, burocracia e corrupção já no início de 2027. Diante de apoiadores, o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro focou ataques ao governo Luiz Inácio Lula da Silva, a quem acusa de endividar o país e abandonar a segurança pública.
“Eu vou organizar essas contas e tirar o Brasil do vermelho”, anunciou, classificando o atual presidente como “o caloteiro da esperança” e afirmando que 80 milhões de brasileiros vivem endividados. O discurso reuniu ainda homenagens frequentes ao pai, menções a cortes orçamentários nas Forças Armadas, projetos para educação, saúde, Supremo Tribunal Federal e política externa, além de endurecer o tom contra facções criminosas.
Promessa de cortes amplos a partir de 2027
O “tesouraço” apresentado por Flávio contempla três frentes. Ele promete reduzir impostos logo no primeiro mês de mandato e simplificar processos que, segundo ele, travam o empreendedorismo. “É corte na burocracia e na corrupção”, resumiu. Para defender o pacote, o senador argumenta que o atual governo “gasta demais, arrecada demais e empurra a conta para o consumidor”, provocando inflação e encolhimento de produtos nas prateleiras.
Segundo o candidato, o plano se sustentará mediante auditoria nas contas públicas, venda de ativos improdutivos e substituição de dirigentes em estatais que “voltaram a dar prejuízo”. Ele citou cifras de R$ 35 bilhões de perdas em empresas federais durante a gestão Lula, contrapondo-as ao lucro de R$ 18 bilhões registrado no mandato do pai, Jair Bolsonaro.
Dívida das famílias no centro do discurso econômico
Para exemplificar o que chama de “drama cotidiano”, Flávio descreveu o cenário de um carrinho de supermercado que chega ao caixa sem dinheiro suficiente para itens básicos. “A realidade é devolução de biscoito e Danoninho, porque o salário não acompanha o preço”, disse, responsabilizando o Planalto pela escalada de preços e pelo avanço do crédito caro.
Segurança pública e combate ao crime
Em tom mais veemente, o senador declarou que o país perdeu “soberania sobre o celular, o carro e a própria vida” e prometeu classificar PCC, Comando Vermelho e milícia como organizações terroristas. Entre as medidas de endurecimento penal, citou pena mínima de oito anos para furto ou roubo de celular e prisão prolongada para agressores de mulheres. Violadores sexuais, afirmou, “só saem depois de castração química”.
Flávio também criticou o corte de R$ 4,2 bilhões no orçamento das Forças Armadas, alegando que a redução fragiliza o controle de fronteiras e facilita a entrada de armas e drogas. “Quem tem soberania no Complexo do Alemão? O governo ou o Comando Vermelho?”, questionou, associando inação estatal à expansão do crime organizado.
Alfredo Gaspar reforça chapa e discurso anticorrupção
O candidato apresentou o ex-promotor de Justiça Alfredo Gaspar como vice-presidenciável. Ex-secretário de Segurança Pública de Alagoas e relator de comissão parlamentar que investigou fraudes no INSS, Gaspar foi descrito como “especialista em combate à corrupção”. A dupla prometeu transformar investigações de desvios no sistema previdenciário em prioridade nacional.
Homenagem ao pai e crítica ao PT
Em vários momentos, Flávio evocou a figura do ex-presidente Jair Bolsonaro. “Sei que pareço com ele, mas é difícil comparar o filho do Pelé com o Pelé”, brincou, para em seguida cantar “Volta, Bolsonaro” junto ao público. Na narrativa do senador, o sobrenome familiar representa “último obstáculo” contra uma “ditadura” petista.

Imagem: Internet
Quanto ao presidente Lula, o adversário atribuiu alta da violência contra a mulher, crescimento da população em situação de rua e endividamento de classe média à “incompetência e gastança” do Planalto. “Para quem acreditou na proteção do PT, a esperança virou morte; para quem esperava prosperidade, virou dívida”, atacou.
Educação, saúde e tecnologia no plano de governo
Creches e mudança de currículo
Flávio defendeu um sistema de vouchers para mães sem acesso a creches públicas. Disse ainda que modificará o currículo escolar para “ensinar algo útil” e impedir que estudantes “sejam transformados em militantes”. A proposta inclui aproximar universidades do setor privado para estimular pesquisa em inteligência artificial e garantir “empregos reais” após a formatura.
Prontuário único e SUS atualizado
Na saúde, o presidenciável fala em criar um protocolo eletrônico nacional que conecte redes pública e privada, permitindo ao paciente acompanhar tempo de espera para cirurgias “na palma da mão”. Ele também promete reajustar a tabela do SUS, considerada defasada por gestores de hospitais.
Indicações para o Supremo e alinhamento internacional
Com quatro vagas previstas no Supremo Tribunal Federal no próximo mandato, Flávio disse que, se eleito, indicará nomes contrários à descriminalização do aborto e à legalização das drogas. “Serão ministros que não perseguem adversários políticos e respeitam a Constituição”, garantiu.
No campo externo, o senador se apresenta como “único capaz” de dialogar simultaneamente com Estados Unidos, China, Israel, Oriente Médio, Índia e Argentina para fechar grandes acordos comerciais. A retomada de credibilidade internacional, afirma, passaria pela recuperação do grau de investimento e pelo “fim da instabilidade jurídica”.
Início oficial da campanha
A Justiça Eleitoral autoriza a partir deste domingo a realização de comícios, carreatas e pedidos explícitos de voto. A propaganda na internet também está liberada, enquanto o horário gratuito de rádio e televisão começa em 28 de agosto. O ato em Copacabana marca a largada de uma disputa que terá calendário encurtado e fiscalização redobrada sobre impulsionamento de conteúdo.
Até outubro de 2026, Flávio Bolsonaro pretende percorrer todas as regiões do país carregando a bandeira do “tesouraço” fiscal e do endurecimento penal, na tentativa de consolidar o eleitorado que impulsionou o bolsonarismo nas duas últimas eleições presidenciais. O desafio será ampliar esse capital político sem a presença oficial do pai na urna, mas com sua imagem onipresente nos palanques.
