Governo inicia retaliação comercial aos EUA, mas ainda aposta em diálogo, diz Márcio Elias Rosa

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    O Planalto decidiu acionar, nesta quinta-feira (13), a Lei de Reciprocidade aprovada em 2025 para impor contratarifas aos Estados Unidos, que desde julho cobram sobretaxas de até 25% sobre exportações brasileiras. Mesmo assim, o ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Márcio Elias Rosa, afirma que a medida “não prejudica o desejo de negociar” e segue aberta a uma solução pactuada.

    Segundo o ministro, a resposta brasileira é inseparável do processo de negociação: “Se é um direito em defesa do interesse nacional, dele ninguém pode abrir mão”, disse. O Itamaraty já notificou Washington sobre o início do procedimento e solicitou consultas diplomáticas, etapa prevista tanto na lei brasileira quanto nos acordos multilaterais de comércio.

    O que motivou a retaliação

    As medidas dos EUA começaram em 22 de julho, quando entrou em vigor uma tarifa adicional de 25% sobre parte da pauta exportadora brasileira. A Casa Branca, então sob a gestão de Donald Trump, alegou que o Brasil adota práticas que “oneram ou restringem” o comércio bilateral, citando o sistema de pagamentos PIX e a regulação de plataformas digitais como exemplos.

    Menos de um mês depois, veio um novo aumento: 12,5% de sobretaxa para diversos produtos. A decisão partiu de investigação ancorada na Seção 301 da Lei de Comércio norte-americana, que acusou o Brasil – e outros países – de não coibir suficientemente a entrada de mercadorias produzidas com trabalho forçado. Ambos os argumentos foram rebatidos por Brasília, que sustenta ter apresentado evidências formais para derrubar cada acusação.

    A Lei de Reciprocidade brasileira

    Aprovada por unanimidade no Congresso Nacional e sancionada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 2025, a Lei de Reciprocidade autoriza o Executivo a aplicar contramedidas equivalentes contra nações que adotem barreiras “injustificadas” ao comércio do país. O texto prevê degraus: notificação, consultas diplomáticas e, caso não haja acordo, imposição de tarifas, quotas ou suspensão de benefícios.

    Mais de 30 tentativas de diálogo

    Levantamento da diplomacia brasileira aponta que, desde o primeiro anúncio de tarifas, houve mais de 30 contatos bilaterais por telefone, videoconferência ou reuniões presenciais. Os diálogos ocorreram em três níveis:

    • Presidencial: mensagens trocadas entre o Palácio do Planalto e a Casa Branca.
    • Ministerial: conversas diretas de Márcio Elias Rosa com o representante de Comércio dos EUA, Jamieson Greer.
    • Técnico: reuniões entre equipes das duas chancelarias e dos escritórios de comércio exterior.

    Em todas as ocasiões, segundo Brasília, a iniciativa partiu do lado brasileiro. O objetivo foi convencer Washington a encerrar as investigações baseadas na Seção 301 e a revogar as sobretaxas. O esforço, porém, não se converteu em resultados concretos, e o governo considerou esgotadas as vias informais.

    Como funciona a etapa de consultas

    Com a notificação entregue, começa a contar um prazo – definido pela própria Lei de Reciprocidade – para que os dois governos se reúnam formalmente. Se não houver entendimento, o Brasil pode publicar lista de produtos norte-americanos que sofrerão tarifas de mesma magnitude, respeitando o princípio da proporcionalidade previsto pelas regras da Organização Mundial do Comércio (OMC).

    Impacto sobre os setores exportadores

    A tarifa de 25% atinge principalmente itens de siderurgia, máquinas e partes automotivas. Já a alíquota adicional de 12,5% recai sobre têxteis, artigos de vidro e alguns produtos agroindustriais. Juntos, esses segmentos responderam por cerca de US$ 8 bilhões das exportações brasileiras aos EUA no ano passado, segundo dados consolidados pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior.

    Empresas afetadas relatam recuo imediato nas encomendas. Para parte da indústria de aço, por exemplo, o mercado norte-americano representa 30% das vendas externas. Caso as sobretaxas se mantenham, a Confederação Nacional da Indústria (CNI) estima perda anual de até US$ 1,2 bilhão em receita.

    Reação do setor privado

    Entidades empresariais têm pressionado os dois governos a retomar as negociações. Embora apoiem o recurso à Lei de Reciprocidade como instrumento de barganha, alegam que uma escalada tarifária prolongada ampliaria custos e incertezas para ambas as economias.

    Próximos passos do governo brasileiro

    O Itamaraty e o Ministério do Desenvolvimento trabalham agora na definição de uma lista preliminar de produtos norte-americanos que poderão ser sobretaxados, caso não haja acordo nas consultas. A seleção deve privilegiar bens substituíveis no mercado doméstico e itens de setores nos quais o Brasil tenha menor dependência de importações.

    No Congresso, parlamentares que patrocinaram a Lei de Reciprocidade acompanham o processo. Como a legislação foi aprovada por unanimidade, a expectativa é de apoio suprapartidário às contramedidas, caso elas se tornem inevitáveis.

    Sinal político a Washington

    Para analistas de comércio exterior ouvidos pelo governo, a abertura formal do processo tem também valor simbólico: demonstra que o Brasil passou da fase de protestos diplomáticos à de ações concretas. Ainda assim, ao enfatizar que “não prejudica o desejo de negociar”, Márcio Elias Rosa procura manter as portas abertas para um recuo norte-americano sem que nenhum dos lados precise exibir derrota política interna.

    Cenário internacional e precedentes

    Instrumentos semelhantes foram utilizados por parceiros do Brasil em disputas comerciais com os EUA, inclusive na época em que Washington aplicou tarifas sobre aço e alumínio de vários países. Em alguns casos, o anúncio de contramedidas foi suficiente para acelerar a retirada das tarifas; em outros, as partes recorreram à OMC. A diferença, agora, é que a Casa Branca sustenta suas decisões em alegações de segurança econômica e combate ao trabalho forçado, temas que costumam ter forte ressonância no debate político norte-americano.

    Especialistas avaliam que a melhor chance de acordo está em demonstrar que o Brasil possui mecanismos para rastrear cadeias produtivas e coibir práticas laborais ilegais, bem como provar que o PIX e a regulação de plataformas digitais não criam barreiras discriminatórias. Esses pontos já foram destacados nos dossiês encaminhados pelo Itamaraty ao Escritório do Representante Comercial dos EUA.

    O calendário provável

    1. Entrega da notificação e pedido de consultas diplomáticas – concluído.
    2. Prazo de até 60 dias para a primeira rodada de reuniões formais.
    3. Se não houver conciliação, publicação da lista brasileira de produtos com novas tarifas.
    4. Adoção efetiva das contramedidas, que podem entrar em vigor 30 dias após a lista ser divulgada.

    Ainda que todas as etapas se desenrolem no limite dos prazos legais, o impacto mais pesado das contratarifas brasileiras só seria sentido no início do próximo ano. Esse intervalo é visto, no Palácio do Planalto, como janela para que Washington reavalie o custo político e econômico de manter o impasse.

    Mensagem de Brasília

    A nota oficial divulgada pela Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República resume o recado do governo: o Brasil prefere solução negociada, mas não hesitará em exercer seus direitos se a mesa de diálogo permanecer vazia. Ao mesmo tempo, reforça que todas as evidências solicitadas pelos EUA já foram apresentadas e contestam, ponto a ponto, as acusações de práticas comerciais desleais.

    Até que as consultas comecem, Márcio Elias Rosa deve continuar articulando com o setor privado para calibrar o alcance das possíveis retaliações e, paralelamente, manter viva a chance de um entendimento que devolva as tarifas ao patamar anterior e preserve o comércio bilateral, que em 2025 movimentou pouco mais de US$ 100 bilhões.

    Rafael Oliveira é criador de conteúdo digital e editor com foco em entretenimento, reality shows e notícias do mundo dos famosos. Seu trabalho é voltado para levar informações rápidas, atualizadas e relevantes sobre os principais acontecimentos da TV e das redes sociais.