Faltando poucos dias para o encerramento do prazo de registro, 786 postulantes aos cargos em disputa nas eleições de 2026 aparecem com cor ou raça diferente daquela declarada ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) em 2022. O número equivale a 4,5% das 17.413 candidaturas já lançadas e reabre discussões sobre a distribuição de verbas públicas reservadas a pessoas negras.
Levantamento obtido junto ao sistema da Justiça Eleitoral mostra que a mudança mais frequente foi de branco para pardo, em 308 fichas, enquanto o caminho inverso (pardo para branco) soma 262 ocorrências. Juntas, as duas oscilações concentram 72,5% de todas as alterações identificadas até 19h30 de 12 de agosto, data do recorte.
Oscilações na declaração de cor: panorama geral
Entre os candidatos que alteraram a autodeclaração, a maioria passou a se definir como parda: são 419 pessoas (53,3%). Na sequência aparecem 275 autodeclarações brancas (34,9%), 76 pretas (9,6%), nove indígenas (1,1%) e sete amarelas (0,9%).
Se pretos e pardos forem considerados conjuntamente como população negra, 313 concorrentes transitaram de categorias brancas ou amarelas para pretas ou pardas desde a eleição municipal de 2022. Outros 269 fizeram o caminho inverso. Houve ainda 182 trocas internas entre pretos e pardos — 108 de preto para pardo e 73 no sentido oposto — evidenciando a fluidez da autopercepção racial no País.
Oscilação não é fenômeno novo
Pesquisadores lembram que o TSE só passou a coletar o dado de cor ou raça em 2014, mas já em eleições anteriores se observava alternância semelhante. A socióloga Flávia Rios, da USP e do Afro-Cebrap, aponta que parte das mudanças pode decorrer de erro de digitação ou do fato de funcionários partidários preencherem o formulário sem consultar o candidato. “Às vezes vira uma heteroclassificação”, resume.
Outro motivo plausível é a conscientização identitária: pessoas que em 2022 se identificavam como brancas podem ter passado a se ver como pardas ou pretas. Há, contudo, o fator pragmático: desde 2020, partidos precisam destinar no mínimo 30% do Fundo Eleitoral e do Fundo Partidário a candidaturas negras, criando um incentivo financeiro que pode influenciar a autodeclaração.
Partidos com maior número absoluto de trocas
Em números absolutos, o Republicanos lidera o ranking de alterações, com 75 registros, seguido por PL (70) e MDB (62). Veja os dez partidos no topo da lista:
- Republicanos: 75 mudanças (36 brancos→pardos; 21 pardos→brancos; 9 pardos→pretos; 7 pretos→pardos; demais variações, 2)
- PL: 70 mudanças (31 pardos→brancos; 30 brancos→pardos; demais, 9)
- MDB: 62 mudanças (26 pardos→brancos; 24 brancos→pardos; demais, 12)
- Podemos: 60 mudanças
- PSD: 52 mudanças
- PT: 47 mudanças
- PSDB: 42 mudanças
- União Brasil: 42 mudanças
- PSB: 41 mudanças
- Novo: 37 mudanças
Como o TSE ainda não divulgou o total de candidatos por legenda, não é possível afirmar quais partidos concentram o maior percentual de variações sobre o universo de suas próprias listas.
Deputados concentram quase todas as alterações
O fenômeno está fortemente concentrado nas chapas proporcionais. Somados, deputados estaduais, federais e distritais respondem por 753 das 786 mudanças (95,8%). Na divisão:
- Deputado estadual: 452 candidatos (57,5% do total de trocas)
- Deputado federal: 279 (35,5%)
- Deputado distrital: 22 (2,8%)
Entre as candidaturas majoritárias, há oito mudanças para o Senado, sete para governador, sete para vice-governador e apenas um caso na disputa presidencial — um vice que passou de preto para pardo.

Imagem: Fernando Frazão/Agência Brasil
Como o TSE trata divergências
Desde este ano, o sistema de registro importa automaticamente a cor ou raça que consta no cadastro eleitoral; qualquer discrepância gera intimação ao candidato e ao partido. Há três caminhos:
- Confirmação da nova autodeclaração — o candidato sustenta a mudança e a Justiça Eleitoral avalia se ela procede.
- Reconhecimento de erro — corrige-se a ficha, impedindo o acesso a recursos carimbados para negros ou indígenas.
- Silêncio — prevalece o dado constante do cadastro anterior, igualmente sem direito às verbas reservadas.
Se, depois de confirmada, a nova autodeclaração resultar em recebimento indevido de recursos, o político pode ser obrigado a devolver o dinheiro. O registro, porém, não é barrado automaticamente.
Bancas de heteroidentificação
Algumas siglas adotaram comissões próprias para conferir a cor ou raça declarada, prática já comum em universidades públicas. O PT estreou banca interna neste ano; o PSOL contratou um grupo externo ligado ao Instituto Quilombação; outras agremiações, como o PSD, afirmam apenas cumprir a autodeclaração do filiado. A Justiça Eleitoral, por sua vez, não possui colegiado próprio, delegando a análise a cada caso concreto.
Por que a autodeclaração afeta o caixa das campanhas
A Emenda Constitucional que instituiu cotas raciais nas eleições determina que, no mínimo, 30% dos valores do Fundo Eleitoral e do Fundo Partidário sejam repassados a candidaturas pretas ou pardas. Além dos recursos financeiros, tempo de propaganda em rádio e TV também deve seguir o mesmo piso. Partidos podem ampliar o percentual, mas não reduzi-lo.
Ao lado da disputa por verbas, a autodeclaração influencia a estratégia eleitoral. Como observa a cientista política Ana Cláudia Santano, coordenadora da Transparência Eleitoral Brasil, fatores regionais e simbólicos podem levar aspirantes a ajustar a cor indicada para se aproximar do eleitorado local. “Há contextos em que a pessoa se sente mais aceita se for percebida como parda; em outros, identifica vantagem em adotar o rótulo branco”, afirma.
Lacunas e desafios para 2026
Especialistas ouvidos defendem mais orientação aos diretórios sobre a importância do campo racial nos formulários. A socióloga Flávia Rios sugere campanhas educativas e monitoramento periódico. “Não se trata apenas de punir quem frauda, mas de qualificar a coleta de dados, porque isso repercute em políticas públicas”, diz.
O TSE foi procurado para comentar a possibilidade de falhas cadastrais e detalhar os procedimentos de verificação, mas não respondeu até o fechamento desta edição. Partidos como PL, Republicanos e MDB também foram questionados e não se manifestaram.
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