O senador Flávio Bolsonaro (PL), pré-candidato ao Planalto em 2026, virou alvo de rivais depois de vir a público que biografias oficiais atribuíram a ele uma pós-graduação em Ciência Política na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) que nunca cursou. A inconsistência, revelada pelo g1, apareceu em perfis mantidos pelo Senado, pela Assembleia Legislativa do Rio (Alerj) e até numa ficha encaminhada pela própria equipe do parlamentar à imprensa.
Renan Santos (Missão) e Ronaldo Caiado (PSD) classificaram o episódio como sinal de “má-fé” e de “falta de compromisso com a verdade”. Já a campanha bolsonarista admite o “erro”, atribui o dado a cópias automáticas da Wikipédia e diz ter iniciado a correção nas plataformas públicas.
Como a informação errada se espalhou
A menção à suposta especialização na UFRJ surgiu em diferentes canais institucionais: na página da Agência Senado datada de janeiro de 2019, no portal da Alerj que reúne o histórico de mandatos de Flávio e ainda em um perfil no LinkedIn administrado por assessores. Em 27 de julho, a própria assessoria enviou nota biográfica à imprensa repetindo a mesma pós-graduação, reforçando a versão.
Alertada pelo g1, a UFRJ consultou o Sistema Integrado de Gestão Acadêmica (SIGA) – que agrega matrículas desde 2001 – e informou não haver qualquer registro de Flávio Nantes Bolsonaro como aluno. O sistema confirma apenas a passagem do irmão mais novo, Eduardo Bolsonaro, graduado em Direito pela instituição.
Universidade e docente negam vínculo
Além da checagem administrativa, o cientista político Valter Duarte, professor do departamento entre 1970 e 2021 e coordenador da área de 2004 a 2009, declarou nunca ter tido o senador em sala de aula. “Ele não cursou Ciência Política aqui, nem antes nem depois de 2000”, ressaltou.
Réplicas e tréplica na arena eleitoral
Primeiro a reagir, Renan Santos ironizou que aliados bolsonaristas questionavam sua formação na USP enquanto o próprio Flávio divulgava credencial inexistente. “É constrangedor fingir um título para diminuir adversários”, disse o presidenciável em nota, chamando o caso de “humilhante”.
Ronaldo Caiado usou as redes para comparar a conduta a um médico que agrega especialização falsa ao currículo: “Na saúde, perderia o CRM; na política, tratam como mero erro de digitação. Quem mente no currículo mente ao governar”.
Até o fechamento desta edição, os demais nomes da corrida presidencial não se pronunciaram.
Posicionamento da campanha do PL
Em resposta, a equipe de Flávio divulgou cópias digitalizadas de três certificados verdadeiros: bacharelado em Direito pela Universidade Cândido Mendes (2006), especialização em Políticas Públicas pelo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro – Iuperj (2012) e MBA em Empreendedorismo pela Fundação Getulio Vargas (2015). Nenhum documento refere-se à UFRJ.
“Registros diferentes desses derivam de fontes abertas que replicam informações sem checagem, como a Wikipédia”, afirma a nota, prometendo acionar os administradores de todos os sites que ainda exibam o dado incorreto.
Impacto sobre a imagem do pré-candidato
Flávio Bolsonaro, de 45 anos, consolidou-se como figura de projeção nacional após quatro mandatos consecutivos na Alerj e a eleição para o Senado em 2018. A ficha curricular tem peso simbólico porque o parlamentar costuma associar sua trajetória a pautas de mérito acadêmico e gestão pública eficiente.
Para estrategistas adversários, o episódio pode fragilizar a narrativa de credibilidade que o senador tenta construir. Em público, Renan Santos qualificou o caso como “amostra do tipo de gestão que se pode esperar”. Nos bastidores do PSD, auxiliares de Caiado avaliam que a repercussão reforça o discurso de que “o bolsonarismo não prima pelos fatos” – argumento que o ex-governador pretende explorar nos debates televisivos.

Imagem: Internet
Erros de currículo na política brasileira
Imprecisões acadêmicas já custaram caro a outros políticos. Em 2009, o então ministro da Casa Civil Carlos Lupi precisou rever dados sobre mestrado inexistente; em 2021, a deputada federal Joice Hasselmann enfrentou controvérsia por curso não concluído na Espanha. Especialistas em direito eleitoral lembram que, embora moralmente desgastantes, tais equívocos raramente geram punição jurídica, salvo se houver uso de diploma falsificado – o que não é o caso de Flávio.
Próximos passos e possível investigação
Integrantes da Comissão de Ética do Senado avaliam se solicitarão explicações formais sobre a inclusão do título inexistente no portal oficial da Casa. Segundo o regimento, alterar dados biográficos equivocados não exige abertura de processo disciplinar, mas a prática pode motivar pedido de apuração caso se entenda ter havido dolo.
No Tribunal Superior Eleitoral (TSE), a retificação do currículo em sites públicos não interfere no registro de candidatura, que se limita a comprovar idade mínima, filiação partidária e quitação eleitoral. Mesmo assim, adversários cogitam acionar o Ministério Público Eleitoral para que investigue eventual vantagem indevida obtida com a divulgação do título.
O precedente de 2018
Na eleição anterior, Flávio já enfrentara questionamentos sobre informações patrimoniais e artigos científicos que dizia ter produzido. A nova polêmica, portanto, resgata dúvidas sobre a gestão de dados oficiais em sua campanha, repetindo um desgaste que o clã Bolsonaro busca evitar nesta pré-campanha.
Correções em andamento
Poucas horas após a publicação da reportagem, editores voluntários removeram a referência à UFRJ da Wikipédia. A página no LinkedIn administrada pelo gabinete foi excluída, e a Alerj recebeu ofício solicitando atualização do histórico parlamentar. Já o Senado informou que fará retificação “tão logo o gabinete encaminhe os documentos corretos”.
A agenda de Flávio prevê compromissos no interior de São Paulo nesta semana. Apesar do incômodo, assessores afirmam que ele manterá as atividades programadas e pretende enfrentar o tema em entrevistas, atribuindo a falha à “gestão anterior de mídias” que teria copiado textos sem verificação.
Reação nas redes e repercussão entre eleitores
O tema dominou as menções a Flávio Bolsonaro no X (antigo Twitter) e no Instagram ao longo desta quarta-feira. Monitoramento da consultoria Quaest aponta crescimento de 180 % nas referências ao senador, com predomínio de mensagens críticas. Grupos de apoio bolsonarista argumentam que a falha é “detalhe administrativo”, enquanto opositores descrevem como “mentira deliberada”.
Analistas de comunicação digital observam que episódios envolvendo inconsistência curricular costumam ter vida curta, mas deixam rastro de desconfiança que se reativa em momentos-chave, como debates e sabatinas. Para contornar o desgaste, a equipe do PL planeja divulgar nas próximas semanas vídeo em que o senador apresenta pessoalmente seus diplomas e histórico de carreira.
O que diz a legislação sobre títulos acadêmicos
No Brasil, não há exigência de comprovação de escolaridade para o cargo de presidente da República além da alfabetização. Entretanto, divulgar título inexistente pode configurar improbidade administrativa se usado para obter vantagem funcional ou contratação. Como o registro ocorreu em páginas estatais (Senado e Alerj), especialistas defendem que o caso seja apurado pelos respectivos órgãos de controle interno.
Resumo do caso em datas-chave
- 18 jan. 2019 – Página da Agência Senado aponta pós em Ciência Política na UFRJ.
- 27 jul. 2026 – Assessoria envia biografia à imprensa repetindo a informação.
- 12 ago. 2026 – g1 divulga inconsistência e UFRJ nega registro do senador.
- 12 ago. 2026 – Campanha admite “erro”, apresenta diplomas válidos e pede correção.
O desenrolar do caso pode influenciar a imagem de Flávio Bolsonaro nos primeiros meses da corrida presidencial e obrigar o pré-candidato a adotar discurso de transparência reforçada para conter a ofensiva de adversários, que já prometem explorar cada linha do seu currículo oficial.
